sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mesmices e paparicos


Comprei meu primeiro carro - um fuscão - aos dezoito anos. Como brinde, tapetes e um chaveiro de quinta. Trinta e quatro anos depois, a diferença é que custam muito mais e a oferta é bem maior; as montadoras fazem promoções e as concessionárias, bem, elas entregam a mercadoria. O que vende mesmo é marca e preço, o serviço é quase igual, quando existem concorrentes.
Não consigo entender que alguém continue vendendo carro assim, sem criatividade; café de garrafa, os tais tapetes e um chaveirinho. Hoje os carros trazem todo tipo de inovação tecnológica mas estranhamente tapetes são opcionais, ou brinde, que coisa.
Certa loja de modulados oferece um suco de uva de tomar rezando, um cappucinno delicioso, e a gente guarda uma boa lembrança, da gentileza, da hospitalidade e isso ajuda na escolha. Quem gasta dinheiro quer ser paparicado, sim.
Lembro que uma montadora fazia uns comerciais incríveis, com uns bichos muito loucos. Foi mais quem procurou saber se vinha um, nos carros. Não, não vinha.
Certamente não é preciso lá muita imaginação para fazer com o que o cliente se sinta mimado. Que tal um cd em mp3 (pen drive ou memory card!) com sucessos musicais, desejando momentos de prazer ao volante? Como diria minha avó, para a fábrica, isso é “pinto”. Se a loja fosse minha (quem me dera!) eu entregaria o carrão com uma toalhinha personalizada, uma mini-necessaire com escova, pasta e fio-dental, afinal, “nós pensamos muito em você!”. Fácil, baratinho, e muito, muito gentil.
Outra coisa irritante e emblemática do quanto pode ser miserável essa relação com o cliente, é gastar tanto e sair com dois litros de gasolina. Fala sério, isso é muita pobreza; ou será que o valor do tanque cheio iria levar a empresa à falência? Essa providência deveria ser comum e não apenas na época das vacas magras, quando querem vender até patinete.
Mulheres geralmente são muito mais eficientes nessas coisas de mimar e fidelizar relacionamentos. Se vender cozinhas, é capaz de editar um livro de receitas para a nova feliz cliente. Uma butique onde gastamos bem menos, é cheia de pequenas grandes gentilezas e até a água é servida num copo elegante, como julgam que seus clientes sejam. Não esqueço que, dias depois de ter comprado um vestido de festa, a vendedora telefonou perguntando se tinha feito sucesso. Isso é simpático, como os votos de que você seja muito feliz ao usar uma nova jóia. Que construtora se dá ao trabalho de enviar uma cesta de café da manhã, no dia seguinte a sua mudança? Difícil? Que nada, fazem coisas muito mais complicadas.
Certa vez, num natal, recebi uma agenda super-feminina de uma loja onde não ia a tempos. Perfumada, menor que as demais, com dicas de moda e etiqueta, espaço para aniversários, fresca como todas nós deveríamos ser, pelo menos metade do tempo. Sinto-me acolhida até hoje e claro, se for gastar, será com quem me trata bem.
Não ser criativo na venda seria desculpável se o cliente fosse realmente atendido. A maioria esquece que existe grande diferença entre vender e atender; ainda assim, tempos atrás minha filha recebeu o carro novo, instalou som e películas e rodou por dez dias com um carro que simplesmente não era o dela! Acredite que só quando o Detran liberou o plaqueamento é que o despachante “descobriu” que o número dos chassis era outro, e que o entregue era o de uma cliente de Paragominas, coitada. Alguém já conferiu chassis com nota fiscal na hora da entrega? Nem eu, ora.
A falta de qualidade no atendimento foi tamanha, que quando recebemos o carro “certo”, verificamos que a película tinha sido aplicada por cima de uma propaganda da marca. É pouco? Novo reparo, novo aborrecimento: ao puxar a película, os filamentos desembaçantes saíram grudados. Depois de dois meses, finalmente trocaram o vidro traseiro. O gerente, se achando cheio de razão, fazia cara de mau, feito o pica-pau. Desculpas? Nem pensar. Nem tapete ou chaveirinho.Quer saber? Acho que eu deveria mudar de ramo. Ou parar de reclamar

domingo, 19 de julho de 2009

Síndrome da agenda vazia


Desemprego. Esse é um tema que permanece guardado a sete ou oito chaves, como se assim, deixasse de ser um risco real. É um assunto que incomoda. Podemos falar da vida alheia, do governo, da inclinação sexual do outro, mas demissão sempre vem carregada de preconceitos, como se fosse “culpa” exclusiva da vítima; o que, convenhamos, nem sempre é o caso.
Além da questão da sobrevivência, o sistema exige que se tenha um trabalho, ainda que você eventualmente, não precise. Até quem pode “não trabalhar” é cobrado; afinal, a maior parte das pessoas não consegue imaginar a própria existência sem um emprego. A aposentadoria, recebida como conquista por mulheres, é praticamente uma sentença para homens e a falta de ocupação remunerada numa idade produtiva é dolorosa para ambos, pois independe da disposição de pular da cama e ir trabalhar.
De-sem-pre-go é um palavrão que nos remete a uma categoria inferior, tanto homens (de quem se exige sustentar a família) quanto mulheres, pois “foi-se” o tempo em que ser “do lar” merecia respeito. São raras as que têm a opção de cuidar da prole e do ninho; e as que podem, ficam “mal vistas”. Vivemos a ditadura do trabalho “fora de casa” - sem esquecer as lides domésticas, pois sobra tudo para a super mãe!
Há que se ter profissão, contra-cheque, negócio ou “bico”, ou você não é na-da! E a entressafra, que ocorre em qualquer setor, se transforma numa grande provação; e como se não bastassem as dificuldades, ainda tem “os outros”, a pior parte de qualquer demissão.
A sensação de quem perde um trabalho é a de ser desnecessário e dispensável. Ainda que a defenestração ocorra por conta da crise ou quando partidos se alternam (revezando vagas, pois em época de farinha pouca, meu pirão primeiro!); ficar oficialmente sem “nada pra fazer” é terrível, mesmo para quem jamais esqueceu que as “coisas” podiam mudar, a qualquer momento.
Em geral, falta “savoir-vivre” e as pessoas perguntam sem nenhum constrangimento, “onde é que você está”, como se tivesse que “estar”, obrigatoriamente, lotado em algum lugar. E nada que você faça depois de uma exoneração parecerá “melhor” que o trabalho perdido, mesmo que esteja ganhando o triplo. Aos olhos dos “outros”, vai levar tempo para que você seja novamente, “bem sucedido”. Talvez por isso tantos prefiram dizer que estão dando um tempo, viajando muito, cuidando dos negócios da família ou se dedicando “a um novo projeto”. Aliás, “novo projeto” é “a cara” da negação do pontapé.
No serviço público, existe enorme probabilidade de você ser o último a saber da novidade; haverá sempre um sádico que fará questão de informá-lo “em primeira mão”, pois acredite, tem quem leia o Diário Oficial cedinho, só para ver quem foi para o “olho da rua” ou conferir as diárias, o que é típico da pobreza da qual você não faz mais parte, pelo menos isso. Fosse uma promoção, todos comentariam com inveja, mas ninguém ligaria para congratulações. O ser humano é uma droga, mesmo, mas alguns ex-colegas são muito piores, arre! Prepare-se pois os conhecidos vão se dividir, alguns não tocarão no assunto, como se fosse uma doença incurável. Poucos tentarão ajudá-lo e outros, principalmente “você-sabe-quem”, procurarão notícias, mas não querem saber se está bem, saudável ou feliz. Isso não importa, e sim se você já “arranjou” um novo emprego.
Nunca vi uma frase chula tão cheia de razão, mas a verdade é que “inveja é uma merda”, então o lado bom é que você pode se livrar dos corrosivos, amém.
O tempo não cura só feridas e mágoas, deixa-nos ver que a chance de mudar - de emprego, porque não?- pode ser uma dádiva e como se diz por aí, é na crise que se cresce; espiritualmente, inclusive. Fato é que, nessa situação, você se sente um pouquinho mais humano e por isso mesmo, mais perto de Deus. E a vida continua, meu caro; com ou sem emprego.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Lula e Sarney : respeitem os cidadãos comuns!


Não entendi tanta comoção por conta de mais uma das declarações de Lula, como sempre bem ao ‘estilo Lula de ser’. O presidente foi sincero ao declarar que achava que Sarney não deveria ser tratado como um homem comum. Em respeito aos cidadãos comuns, sou obrigada a concordar com quem entende da matéria, já que na década de 1980, Lula rotulou Ribamar - o Sarney, de “grileiro do Maranhão” e ladrão. Isso mesmo, larápio. Quase trinta anos depois, ambos estão, digamos, numa categoria diferente.
No mais, quem não conhece alguém que se julga “melhor”, por causa um cargo público ou da situação sócio-econômica diferenciada ?
Atual vereadora de Maceió, a sempre destemperada Heloísa Helena, recentemente também foi vítima dessa mania de superioridade, atacando uma colega vereadora, aos gritos de “porca traidora”. Alguém consegue imaginar o escândalo, se a agredida fosse a insossa parlamentar?
Belém está “assim” de gente que pensa que pode tudo. O trânsito prova isso; a maioria se dá ‘mais direitos’ que o tal “cidadão comum”, coitado. “Se achar”, dar “carteirada”, não respeitar o próximo (e o não tão próximo), é cultural.
E Lula seria exceção, só por ter se tornado presidente? Evidente que não; mas como tal, deveria ser “politicamente correto”. Engana-se quem fica achando “isso e aquilo” quando falo no presidente. Lula não é um tema que me agrade, mas estou longe de ser uma “elitista” que não perdoa uma “pessoa simples que chegou ao poder” , como agressivamente me disse um leitor, esquecendo que, até prova em contrário, isso aqui é uma democracia, pelo menos por enquanto. Mancadas acontecem, o pior mesmo é a mentalidade torta, que uns podem ser “menos iguais” que outros, noção que infelizmente sobrevive e, ao que parece, do que depender de nós, ainda terá vida longa.
Não é a toa que me admiro ao encontrar certo deputado num supermercado do Marco, com lista na mão, empurrando carrinho, numa boa. É o mesmo que encontro no banco, esperando na fila exemplarmente, como os comuns. (E nessas ocasiões, ser ‘igual’, nos torna especiais.)
Deveria ser corriqueiro, mas não é; ser “parente de autoridade”, para a maioria, já é meio caminho andado para a arrogância, que sempre é burra. No quartel, dizem que quem pensa que manda mais que o General é a mulher do sargento.
Essas crises de “autoritarite” são habituais, desde a patroa que nem trabalha quando está menstruada, mas reclama se a empregada pede um mísero Atroveran. Ou o “playboyzinho” que enfia o pé no racha da Júlio Cezar e ameaça o policial com um batido “sabe quem é meu pai?”. A madame que estaciona em fila tripla na escola e a outra que leva um semestre para pagar a ‘continha’ da butique e quando é cobrada, acha um abuso! Acham-se acima dos outros, do bem e do mal, do moral, do lícito, e ainda querem tratamento diferenciado. Como Luis Inácio pretendeu para José Sarney, como os senadores exigem para si mesmos.
Antes que falem em Fernando Henrique, (não se pode falar no Lula sem que façam contraponto com FHC, que não tem nada a ver com a história...), não duvido que também ache que uns são ‘uns’ e outros... E daí? Se desejarmos uma realidade pouco menos caolha para nossos netos, precisamos repensar certos conceitos que acatamos pacificamente e repetimos, esquecidos de arejar as mentes que ajudamos a formar.
No quesito cidadania, ser “igual” não é ofensa e sim prerrogativa de quem é decente.
Quanto ao presidente, dessa vez acertou em cheio, apesar da gafe: pelo histórico, Sarney deveria ser tratado como infrator e não como cidadão comum!
Imagem: abril.com/veja.com

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Maria Qualquer Coisa

Vestida para lutar ela sai, ainda sem amanhecer. É guerreira.Quase escrava. É Maria, seja lá quem for.
Café requentado, um pedaço de pão dormido, vale escondido no sutiã.Não importa a cor ou quantos filhos deixou.
Carrega remorso, dor e preocupação.Mas é assim que tem que ser.Lá se vai a Maria, sob chuva de cobrir canela, calçaa enrolada, tamanco na mão.
E ela chacoalha na terceira condução, sem o sono que ainda tinha de dormir.Balança, segura a cabeça, Maria.
Na bolsa, além do trocado miúdo, um batom e um perfume barato.Um cigarro amassado e um retrato.
Balança, Maria.Passa as horas de pé, na mesma lida de todos os dias.
São mais de seis quando toma o banho para ir-se, de vez. O cheiro de rosas se perde, no mesmo ônibus modorrento que a devolve pela metade, naquilo que chama de casa.
Cabeça raspando o teto torto feito rede pensa, rangendo sob o peso d’água e da falta de condições.Mas a alma está refeita e Maria caminha mais meia hora assim, pernas doendo.Nos lábios, a velha canção.Ah, Maria...Ainda haveria de penar mais um bocado, entre tanque e baldes carregados.
Altas horas, seu homem que chega, cheirando a fumaça de cigarro de retalho e cachaça, como não? Nunca recebe cartas, apenas receitas e recados, pendurados numa geladeira que não é sua. O patrão quer pernil assado. A menina pede sempre macarrão. Também não existe dia especial, só certezas. Do trabalho pesado, das contas atrasadas, da fome adiada. Dos dentes perdidos, das pernas inchadas.Dos remédios que ficam só nas receitas. Cansaço ela esquece, e serve ao amado um prato requentado de pura afeição.
Maria, guerreira, rainha.Rebola, Maria, rebola, que vem mais um carnaval. E se banha, caneca na água fria do tambor enferrujado.Vaidosa, se perfuma, se enfeita. Passa nos lábios o toco do batom que cheira a parafina.
Diante do caco do espelho surge Maria, princesa sem tostão.E pede amor, de homem e de mulher. No gosto, no dorso. No lombo.Com cheiro de corpo e de gente.
Carnes quentes na esteira aberta no chão. Maria mãe de quatro filhos de alguns pais. Maria do tanque e do fogão. Do samba, do muro da igreja.Dos pés repletos de rachaduras, mapas da terra batida escaldante.
De muitos calos nas mãos, cabeça cheia de idéias.Maria da cor do pecado, do riso fácil e incompleto.
Do bolo de macaxeira, da banana frita. Do feijão apetitoso, dos “causos” interessantes.
Da novena incessante, (reza, reza, Maria!) Santa feiticeira.
É a Maria faceira. Que nada pede para ser feliz.
Não entende os mistérios da vida, e dela é senhora, é inteira. Sorria, sorria, amada Maria.
Que a gente vê e não enxerga. Sabe quem é, mas não conhece.E torce para ela chegar, logo que amanhece.
Dona da nossa paz, mão que alimenta e faz dormir.
Todo dia, todo dia é dia da Maria Qualquer Coisa.

Postado por Vera Cascaes às 21:40 1 comentários
Aldinair disse...
Descobri voce no Magazine,do Jornal Liberal,gosto dos seus textos,esse em especial, pois fala de todas as Marias de uma maneira linda e suave.Abraços.
28 de Maio de 2008 11:10

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Imagem: Lavadeira. Pintura bitmap de João Werner

Juntos!


Casais mais velhos me fazem pensar no que há de diferente nessa geração que permaneceu casada.Não foram pessoas desconectadas do mundo, que viveram numa bolha mofada.
Pelo contrário.Todos viajaram muito, souberam criar filhos e tentaram, com algum êxito, manter as famílias unidas...Até que a minha geração iniciou o casa-separa, enfim.
Que segredo seria esse, que mantém pessoas diferentes carinhosamente unidas apesar de tudo?A crônica de Stephen Kanitz, numa antiga “Veja”*, sobre esses relacionamentos que atravessam tempestades e saem fortificados para comemorar mais um ano, acendeu minha curiosidade.
Penso que o primeiro equívoco é achar que todos “escolheram a pessoa certa”. Isso não existe.Da mesma forma,é fantasioso crer que almas gêmeas nascem com a terrível missão de se encontrar nesse mundo de meu Deus.
Será que nenhum desses casais esteve a beira de um divórcio? É certo que sim, crises acontecem.Tentações também. Alguns podem ter cometido uma infidelidade aqui, uma transgressão acolá.
Ao que tudo indica, essa geração que hoje vive os oitenta, pouco mais pouco menos, soube preservar algo muito mais importante: lealdade.
Será que depois de casados,não apareceu ninguém melhor, mais bonito, interessante, rico, engraçado, menos carrancudo, mais fogoso, menos rígido, “mais...mais”?
Claro que sim, isso acontece todos os dias. Mas também havia lealdade aos compromissos pessoais, às escolhas feitas, apesar da vizinha gostosa e ninfomaníaca, do dentista sedutor e gabola, da amiga sacana, da falência do negócio, do filho drogado.
Penso que questionavam menos a relação e usavam esse tempo precioso para vencer a/na vida. Sim, a instabilidade dos relacionamentos é, sem dúvida, grande causa de prejuízos pessoais. E isso é muito mais do que dividir DVDs, arcar com a pensão dos moleques e comprar uma nova cama de casal.
Bem, e o que aconteceu com os netos desses casamentos longevos? Não sei, com franqueza.
A maioria já contabiliza tentativas e insucessos, ainda que com o mesmo parceiro.Esqueceram-se os pais de passar a fórmula adiante? Talvez.
Não sei se é culpa dos hormônios do frango, do efeito estufa, da falta de ensinamentos sobre como viver junto tanto tempo ou do esquecimento das coisas de Deus.
Esse segredo não nos foi dado a honra dividir, ou simplesmente não o reconhecemos esse tempo todo, bem ali, escancarado para quem quisesse, tão somente, ver.
Talvez estivesse tão evidente que tenha nos enganado, fazendo-nos até pensar “credo, não sei com ainda estão juntos. Eu? Já teria separado!”
Claro, para nossos sentidos desatentos, aquelas eram razões de cisma, de desunião; nunca a explicação para tanto tempo de parceria. E separar, ainda que muito doloroso, será sempre mais fácil do que permanecer junto. Cultivar a paciência e a tolerância, saber tornar uma relação antiga algo novo, todos os dias.
Manter aquele olhar carinhoso, apesar das rugas. Enternecer-se com elas. Amparar-se um ao outro em todas as subidas e descidas, lado a lado.
Perdoar-se mutuamente e a si mesmos por esmorecer algumas vezes.E calar.
Calar frequentemente, felicidade exige, também, que não sejamos totalmente francos. Não, não eram almas gêmeas, duas metades de qualquer coisa que se encontraram.
Apenas pessoas que decidiram que aquele amor, pequeno e frágil como todos os amores começam, esse seria para sempre, sim. Não só por causa das leis da igreja, dos homens ou da sociedade na empresa, que vai bem, obrigada, mas também porque foi assim que sonharam e vão zelar para que seja, apesar de exigir uma dose cavalar de paciência, tolerância, renúncia e, acima de tudo, inteligência.(*edição 1873 de 29 de setembro de 2004, página 22)imagem:http://www.jblog.com.br/vital.php?blogid=51&archive=2007-07
Postado por Vera Cascaes às 16:05 1 comentários
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ma oração desesperada


São três e meia da madrugada. A segunda-feira já chegou e me encontrou insone, coração angustiado. Devo-lhes um pedido de desculpas por esse texto tão ruim, essa promessa de sorrisos que não sei onde encontrar; hoje não.Não há graça nesse restinho de noite arrastada, no galo sem relógio do quintal ao lado; não consigo escrever, nenhum assunto me anima, sequer tenho vontade de retocar uma página parida num momento de alegria.Meu pensamento voa e se aninha na aura de Isabela. Ela me cala, me deixa sem fala e sem pauta. Isabela é cada criança que vemos passar, cada sorriso que espreitamos nessas rotinas que nos consomem; um menino que corre entre as cadeiras, a menina desdentada e faceira, contando sua última arte. Quem consegue esquecê-la, mesmo quando se quer brindar mais um bom dia? Quem não pede a Deus que se descubra um louco; ou dois, qualquer um que não seja o pai ou a tia Carol?Todas as coisas dessa nossa vidinha sem importância assumem a verdadeira dimensão - valem pouco, quase nada. Descobrimos que perdemos muito tempo com banalidades e mesquinharias e não enxergamos outros dramas que se desenrolam ao lado, sem TV, sem impacto.Nossas pequenas invejas e vinganças, implicâncias mal disfarçadas e perseguições – é o colega que incomoda nem sei bem a razão, o amigo que está mais feliz que o suportável, aquela que ‘se acha’...Ou os filhos da ex, que insistem em acompanhar (e atrapalhar) nossos finais de semana.Quantas vezes nos deixamos dominar pelo ciúme que envenena e descontamos nos pequenos que sobraram das uniões desfeitas ? Ah, não me diga que nunca viu algo assim.O mais aterrador é que essa família poderia estar na porta em frente. Ou no quarto ao lado. Poderia ser eu, ou você.Isabela pode ser a encarnação desses filhos de casamentos mal acabados, da paternidade vivida como obrigação - ou vingança - com hora marcada. Vítimas do desamor, do ciúme descabido, do desentendimento e, principalmente, da distância das coisas de Deus e da família.Crianças que a gente até finge que não existem, agredidas por gestos e palavras; ah, a palavra, essa arma tão perigosa...Sempre acreditei que é na separação que o casal precisa se entender, realmente. Alguém disse que certos divórcios são civilizados demais. Não, nunca é demais entendimento, conversa, respeito sincero que estabeleça uma aliança que há de cercar os filhos, esses de quem nunca nos divorciamos- apesar da distância e das novas famílias que se formam.Estar com alguém que já tem filhos exige uma dose enorme de compreensão, tolerância, desapego e muito amor. Isso não é para qualquer um.Não tenha filhos com quem não sabe amar os que você já tem. Não os leve para perto de quem não quer abrir o coração para que todos convivam em paz. Não existe a menor possibilidade de harmonia.Eu, que achava já ter vivido e visto o bastante, quedo-me, sem entendimento e sem respostas.O tempo nos fará esquecer Isabela; nossas crianças, essas, permanecerão. Que Deus as proteja de nossa imperfeição.Livra-nos, Meu Deus, dessa fúria insana, desse desamor que nos transforma em seres sem par. Não nos permite perder a capacidade de chorar, de temer, de amar, de perdoar. De respeitar e calar antes de proferir a agressão.Dá-nos um momento de lucidez quando tudo perder o sentido e o mal nos privar da razão.Enche nossos olhos de lágrimas e faz-nos tremer as pernas diante do terror, que não tenhamos frieza para mais um passo. (veracascaes@gmail.com)
Postado por Vera Cascaes às 14:46
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2 comentários:
PD disse...
Tudo triste demais, não é?
1 de Maio de 2008 17:53
Tatiana Brandão disse...
Amiga deixei um meme para vc no meu bloger olhe lá http://baboseirascom.blogspot.com/

Isso são modos?


Gente, perguntar não ofende. Principalmente quando dá para fazê-lo assim, sem ser cara a cara: onde foi parar a boa educação do nosso jet-set?Alguns acontecimentos me fazem voltar ao Marajó da minha infância, e ficar “matutando”.Recentemente, num casamento, fiquei “passada e engomada” com a falta de modos dos convidados. A noiva passou apenas quinze minutos, em fotos familiares no altar e, pasmem queridos, ao virar-se para sair, encontrou a Igreja de Santo Alexandre semideserta. Seus convidados, pessoas especiais com certeza, deviam estar esfomeados, só pode ser essa a razão, e partiram, disputando um rally pela cidade, rumo ao bufê...onde dezenas de casais já estavam acomodados. Que feio!Tem gente que nem vai mais à igreja, segue direto para a recepção. Pode, Freud?A impontualidade virou regra. Coisa de gente despreparada, mesmo!
Uma outra noiva passou quarenta minutos dentro do carro...esperando a chegada de padrinhos...que não mereciam ter recebido convite tão especial, se não têm competência para chegar dez minutos antes...Existe uma feijoada filantrópica que costumo freqüentar. É uma ocasião para rever amigas, colaborar com necessitados, mas... Senhoras da mais alta estirpe se acotovelam num espetáculo dantesco (dantesco é ótimo, né?) disputando um pedaço de chouriço ou uma fatia de torta...Patético!É um grande bolo de senhoras quase se estapeando, um amontoado de traseiros bem cevados, transformando um almocinho solidário num rega-bofe de última.E juro por Deus, é um programinha de dez reais e tem madame que manda o motora ir buscar sua “dose”, numa quentinha, já que não pôde ir.O que aconteceu com as pessoas finas, caíram pelo ralo?Numa festa de quinze anos, jovens detonaram a mesa dos doces na entrada. Como se o gesto de grosseria justificasse, senhoras portando elegantes e carésimos vestidos, passaram a mão em pratos de jantar e, (perdoai-as, Senhor!), encheram cada qual o seu e levaram 'suas marmitas' até as mesas, para serem degustadas após o jantar...que ainda nem havia sido servido.As boas maneiras foram para o espaço, junto com a nossa elegância. De que adianta uma roupa cara demais para pouco preparo?Senhoras falam com talheres à mão, numa exibição de esgrima.Nos embarques vejo, hor-ro-ri-za-da, pessoas apressando o passo para driblar uma jovem mãe com bebê, e tal da baby-bag nas mãos...Por outro lado, fomos ficando acostumadas a falta de glamour...Eu, meu bem, sou do tempo em que homens levantavam cada vez que nós, mulheres, deixavámos a mesa. Eles abriam a porta do carro, verificavam se nossas saias estavam acomodadas, fechavam com de-li-ca-de-za e aí sim, davam a volta.Desciam escadas sempre a nossa frente e andavam pelo lado de fora das calçadas.Homens que ainda nos davam livros - bons - de presente. E um brilhantinho que a gente também gosta, claro.Que nos convidavam a dançar. Ao final, agradeciam a gentileza e nos acompanhavam de volta a mesa. Hoje é um gesto de cabeça, tipo “topa?” e zero emoção.Quando nos buscavam em casa, não ficavam buzinando. Desciam, cumprimentavam os presentes e nos acompanhavam...Bons tempos.Nessa época se comia de boca fechada e ninguém seria capaz de indagar sobre sua vida sexual durante um jantar...principalmente sendo um amigo.Educação é artigo original de fábrica. Mas pode ser acessório adquirido por quem não teve, digamos, berço.Parabenizar pessoas em datas especiais, ser pontual, gentil, não falar alto nem beber demais, dar assento a uma pessoa mais velha, facilitar o acesso de grávidas e crianças, tudo isso é tão básico que nunca imaginei que seria artigo raro.Mas os espetáculos a que somos submetidos nos fazem imaginar se os inadequados seremos nós...Isso não é frescura não, querida. Isso são bons modos!veracascaes@gmail.com
Postado por Vera Cascaes às 22:36 1 comentários