segunda-feira, 30 de junho de 2008

Servicinho de quinta



Que Belém hoje é uma cidade grande, com muitas atrações, não resta a menor dúvida.
E que continua sendo a capital onde se presta um dos piores serviços, também é fato; basta ver as impressões que muitos turistas levam daqui, além da nossa própria auto crítica.
E hoje nem vou falar dos sujismundos que emporcalham nossa terra, argh!
A mão de obra local continua sendo a grande culpada por tudo de ruim que acontece, pena que poucos lembrem que poderia ser diferente, se houvesse um pouco mais de atenção de quem pode e deveria ‘mandar’.
Em todo lugar, raros são os funcionários que tratam cliente como se deve, afinal custa muito usar ‘senhor e senhora’? Não sou ‘meu amor’, ‘paixão’, ou ‘amiiiga’. Não joguei peteca com a balconista nem fui à balada com o garçom, para que ele me cutuque quando quer saber se pode retirar meu prato.
Podem me achar esnobe - o que não sou- mas não suporto que me toquem sem necessidade e, apesar de ser extrovertida, não gosto de intimidade com quem não tenho. Isso é simples, cada qual com seu cada qual, ora.
A gente chega num consultório cheio de frescuras, o doutor é uma estrela de primeiríssima grandeza que atende pacientes de convênio (aquele S.U.S que a gente tem opção de pagar ou não) por pura filantropia e encontra uma atendente de tamancão, chiclete, lixando unhas com estampa de oncinha e ainda tem que ser tratada de ‘fôfa’?. Fôfa, eu não admito! Aí já é demais. Na mega loja (que já me irrita por ter pouco espaço e um monte de coisas amontoadas pelo já exíguo corredor) a vendedora, com celular grudado no ouvido, me pede que espere ‘um minutinho, tá lindinha?’. E vira-se, com o cabelão melado por algum produto misterioso, para acomodar algo na prateleira mais baixa, deixando o cofrinho (na verdade um cofrão) de fora. Decididamente estou ficando velha. E minha tolerância diminuí a cada dia, que horror.
Gosto de capricho, de qualidade, e isso meu bem, não tem nada a ver com condição financeira e sim com acesso a informação, orientação e exemplo.
Tenho vergonha desse nosso jeitão ‘bem simpático de ser’ e permitir que façam quase tudo de uma maneira pouco profissional. Já não bastasse a noiva atrasar, o cenário do evento ser montado ‘nos quarenta e quatro do segundo’diante da platéia que tem mais é obrigação de esperar; agora até padre atrasa. Dia desses, uma missa atrasou , pasmem, quarenta e cinco minutos! O coroinha (de uns trinta anos!) convocou-nos ‘a cantar’ enquanto esperávamos, ‘o nosso amigo padre fulano’, que já tinha sido chamado e chegaria, ‘mais tardar em vinte minutos’. Pode? Sei não.Novos tempos, né?
Num restaurante pretensioso, o belo projeto arquitetônico contrasta com o despreparo de quem recebe os clientes com um intimíssimo “Ôooooi? Tudo bem?”, já passando a mão na minha bolsa para acomodá-la numa cadeira.(Te conheço?). Quatro vezes pedi queijo. Na quinta , fui avisada que o cozinheiro ainda iria ralar o parmesão.
Num fast-food venderam-me stogonoff com arroz e batata frita. Quando fui receber, o inocente me perguntou o que preferia para substituir o arroz, que tinha acabado: purê ou salada? Diante da minha negativa, candidamente ele me diz que tenho ‘obrigação’ de aceitar a substituição e se aborrece.
É Belém, isso. Aqui o cliente tem ‘obrigação’ de aturar tudo, até porque sabe que podem cuspir no prato dele, lá na cozinha.
Que tem cliente mal educado, grosso feito papel de embrulhar prego, isso a gente sabe.
Meu foco aqui é outro. É justamente (como diria o Juvenal Antena) o eventual descaso de quem está no setor de serviços, em preparar -bem- quem haverá de representar sua empresa.
Se a palavra motiva, exemplos arrastam. O dia em que capacitação, bons modos e boa apresentação pessoal forem realmente seletivos, as coisas mudarão. E gestores que são grosseiros e não conseguem ser espelho para a equipe, esses também terão os dias contados.
Quem não pode que não se estabeleça.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

História de mulheres: Teté.


Pérolas falsas
Ethel era uma mulher quase fina. Não que fosse rica, mas era sempre lembrada como uma pessoa discretíssima e educada, que cumprimentava todos com aquele ‘bom diiia, como vai? E a irmãzinha?’. Ela ainda acreditava num chanel retão com pontas viradas pra dentro, e a tintura, louro escuro, era a mesma desde 81, quando resolveu disfarçar uma mecha branca.
Para complicar, usava uma volta de pérolas miúdas -falsas, claro- mas achava que era ‘salt-sea’ e pronto. Usava sapatos mocassim de paupérrimos saltos cinco, e sempre escolhia um ‘conjunto’; decididamente Ethel era quase uma chata.
Mas se existia alguém muitíssimo bem intencionada, era ela. Tão cheia de boas intenções que dava ódio. Não havia amiga que gripasse que ela não visitasse, com um chazinho inglês ou um bolo -inglês, claro- que Ethel não era de bombons de cupuaçu e esses regionalismos que jamais combinariam com o chanel retão.
Um dos seus orgulhos era só usar jóias ‘verdadeiras’; um brinquinho solitário, aliás desesperadamente solitário, só uma fagulha, uma lasquinha em cada orelha que nem brilhar brilhavam.
Todos os recém nascidos e os recém defuntos contavam com a solidariedade de Ethel, que era figura conhecida nas maternidades e na igreja onde quase todas as missas de sétimo dia aconteciam.
Até que um dia, a nossa contrita amiga errou o local de um almoço de mulheres e por essas coincidências que só o coisa ruim pode ter armado, acabou no salão onde rolava uma festinha pra lá de animada.
E ela viu, lá no fundo, o Praxedes, o corretíssimo marido que fora seu namorado nove anos antes que noivasse por mais seis; dançando com a gravata de Mickey amarrada na testa, de microfone na mão, declarando-se apaixonado por uma tal de Shirley, loura falsa, de peitões e bunda redondinha, com calça apertada e camiseta de oncinha.
Ethel ficou em estado de choque. Jamais, em toda sua santa existência imaginaria o marido numa cenas daquelas. E como toda santa tem seu dia de mingau, aboletou-se num canto, pediu quatro cubas (ela era do tempo da cuba libre) e entornou todas sem perdão.
Como era de se esperar, Ethel resolveu vingar-se do marido e do mundo e arrebentou o fio de pérolas. Ela cometeria todos os pecados, agora que conhecia a vida como ela é, tudo seria diferente. Comeria um pacote inteirinho de biscoito recheado de chocolate, compraria uma bolsa verdadeira e deixaria o carro sobre a calçada. Saiu zonza e entrou no salão de beleza. Depois de cortar os cabelos naquele modelito da Victoria Beckham, partiu para o cubículo de depilação e pediu uma ‘total’. Total, mesmo?, perguntou a Odacy, incrédula, depois de vinte anos depilando nada mais que a virilha-sobrancelhas-buço da ex comportada cliente. Total, sim! Frente e fundos! Mais explícito, impossível.
Dali pra loja de lingerie da Braz foi um pulo. Fio dental! Ela iria chegar em casa com uma daquelas calcinhas que entram onde quase nada deveria estar. Trocou lá mesmo.
A pele recém depilada lhe oferecia outras sensações. Talvez fosse coisa da sua cabeça, mas quase teve certeza que o barbudo que vinha pela Serzedelo sabia exatamente o que ela tinha feito. Sentiu um rubor nas faces, o resto já estava ruborizado faz tempo. Na esquina, ao atravessar a rua, o motorista do Sienna prata também sabia que ela estava de fio dental por baixo do novo jeans. Não perguntem como, ela tinha certeza!
Caminhou sentido-se um tantinho mais poderosa e lá se foi, meio cansada, as quatro (ou teriam sido sete?) cubas sendo metabolizadas e o restinho de juízo querendo voltar.
Entrou e viu o Praxedes, num cochilo, esparramado no sofá de xadrez. Olhou o terno preto e a gravata cinza sobre a cadeira e farejou o aroma, esperando encontrar uma mistura de whisky, cigarro e perfume. Mas o que sentiu foi a colônia que comprava a anos para o marido. Gravata cinza? Onde ele tinha enfiado o Mickey?
Enquanto pulava para baixar as calças, ele entrou no quarto e ficou boquiaberto...
-Teté...? O traseiro alvo da mulher resplandecia entre a calcinha cavadíssima e o jeans apertado. O cabelo parecia tê-la rejuvenescido dez anos.
-Tetê...? Ela não precisou de muito esforço para perceber que o Praxedes estivera ali a tarde toda e que, sabe-se lá como, ela o tinha confundido com o outro gordinho da gravata de Mickey. -Teté...você está deliciosa...!
Duas horas e muitos amassos depois, Ethel tomava uma ducha tentando entender o que havia acontecido, a cabeça pesada não ajudava. E as pérolas?
Bom, elas não combinavam mesmo com aquele cabelo.
No quarto, Praxedes ainda olhava a calcinha balbuciando ‘Adorei, Teté!...Adorei!’

domingo, 15 de junho de 2008

Decifra-a ou...



Mulheres têm o hábito de se comunicar através de códigos, principalmente com seres amados. Como paciência nunca foi meu forte, imagino o quanto é necessário para conviver com esses seres delicados, incapazes de dizer claramente o que sentem, o que querem.(A verdade é que, as vezes, a gente complica, não é ?)Não? Ah, tá, então você é mulher e sua opinião é suspeita. E como eu sei? Ora, ora...
Quem, da turma masculina, não lembra quando encontrou a patroinha calada, ignorando sua presença, numa eterna conversa telepática com algum ser intergaláctico ? O amado pergunta o que está havendo, se aconteceu alguma coisa ou se ele, tadinho, cometeu uma falta grave. A resposta é sempre “nada...”. E ela cantarola baixinho, entra e sai do banheiro sem contar os detalhes da última confusão entre as amigas, escolhe roupas sem medir sua reação e sai, com um seco ‘tchau’.
Numa viagem que deveria ser o divertimento da temporada, ela entra no carro calada, fixa o olhar lá fora e vai assim, às vezes roendo uma unha hipotética (claro, não vai descascar o esmalte) até o trevo do Atalaia.
Outras conseguem ir a uma festa e permanecer mudinhas da silva, obrigando-o a tomar mais do que o desejável só para manter a boca ocupada.
Grávidas mereciam um capítulo a parte.(Acredite, nessa fase a gente se sente quase horrível, diferente das pouco barrigudas dos comerciais, lindas e amadíssimas.) Lembre das mudanças que ocorreram no corpo dela para que você fosse um pai lindão; banque o solidário, diga que ela está ma-ra-vi-lho-sa, não esqueça dos beijos na boca (mesmo) e não caçoe dos pitis. Se fosse seu o umbigo a pular pra fora, a coluna a ficar feito bambu ou os mamilos que viraram dois cookies; sem falar no parto (áaaaiii)...Você jamais seria ‘mãe’, querido.
Lição número um, meu caro; mulher calada é sinal de mau tempo. Chuvas não são obrigatórias mas prepare-se para trovoadas.
Não fomos treinadas a falar sobre nossos temores, nossas tempestades interiores, apesar de ‘saber tudo’ sobre o que se passa com você. A gente sempre acha que é chatice e acabamos muito mais chatas ao obrigá-los a decifrar esses criptogramas ou a discutir a tal da relação. Se você prestar atenção e puxar pela memória, vai saber direitinho quando é ciúme (sempre negado, claro!), neura com a balança (que você vai jurar que é coisa daquela cabecinha linda!), alguma encrenca com a sua mãe (e você carrega os genes dela!), carência (ser mulher é estar a um passo da carência) ou TPM, mesmo (que passa em cinco dias).
Mulheres costumam dialogar (demais) consigo mesmas e inventam um roteiro para seus parceiros; por isso, não se assuste se ela estiver chateada por coisas que ‘tem certeza’ que você sente, fez ou imagina fazer. Inclusive que acha que o seu amor diminuiu, que você não lhe dá atenção, que teve a indelicadeza de tomar um copo d’água antes de cumprimentá-la e que gasta mais tempo com o poodle. Aconselho-o a nem discutir. Será muito, muito pior, tentar fazê-la pensar como gente grande num desses surtos.
Peça desculpas, reconheça sua parcela na crise de combustíveis e no aquecimento global, beije-a ternamente (se ela não estiver rosnando), chame-a de ‘menina dengosa’, ofereça colo, carinho, aconchego e tudo mais que seu preparo físico permitir; no fundo, é isso que ela quer: sua atenção. Caso ela tenha razões para desconfiar da sua fidelidade; negue até a morte. Mulheres preferem conviver com uma leve desconfiança a uma sufocante certeza, mesmo que digam o contrário ou jurem que a sinceridade é o início do perdão. Mulheres mentem, lembre-se disso.
Caso não funcione, melhor colocar as barbas (ou os neurônios) de molho. Ela pode estar de saco cheio de você. Coloque os pingos nos ‘is’ que sobraram e mostre que o terreiro ainda tem galo. Às vezes (nem sempre) funciona.
Boa sorte! De qualquer forma, você vai precisar.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

À mãe cansada


A crônica que pediu vai por e-mail; foi publicada no meu “Cá entre Nós” do Caderno Mulher, lembra? O formato não caberia aqui.
Bem, seu e-mail é de uma sinceridade (quase) desesperada e acabou me trazendo para o teclado. Sei como você se sente e, tenha certeza, também consigo avaliar ...
O mudo idealiza essa relação entre mães e filhos; é difícil admitir publicamente que, por um momento, estamos cansadas do ‘avental todo sujo de ovo’ e de falar aos peixes.
Quando me tornei mãe, confesso que não estava nem um pouco familiarizada com crianças e me sentia perdida. Morava em São Paulo e não tinha absolutamente ninguém para me ajudar, por outro lado, ninguém me atrapalhava. Ao telefone com minha mãe, me senti a vontade para chorar minha insegurança. E ela, sábia, me disse algo que nunca esqueci: “Vera, isso passa. Rápido. Eles crescem e daqui seis meses os problemas serão outros...” . E tem sido assim, sempre me lembro da frase.
Hoje os filhos permanecem em casa por mais tempo, estão priorizando carreira e até as moças ficaram avessas ao casamento precoce. Com isso, permanecem ‘filhos’ (com ônus e bônus) por uma jornada mais longa. E são raros os que lembram que mãe é mulher de carne, osso e hormônios e, graças a Deus, sente falta de uma porção de coisas...Inclusive privacidade.
Tenho certeza que você os ama, da mesma forma que amo a minha bebê de vinte e cinco, a questão é que, apesar de entendê-la, não sei exatamente qual a melhor solução.
Chega uma certa hora na vida da gente que estamos, todas, exaustas. Talvez aquelas que não vestiram o modelito de ‘mãezona’, que não levaram tão a sério a função de dona de casa, estejam muito mais relaxadas do que nós. Mas quem garante que, no fundo, não se penitenciem pela bagunça, pela casa sempre ‘meio limpa’ e os filhos ‘meio sujos’?
Imagino que, sendo mãe de vários e com um marido nada colaborador, você realmente deva estar quase entregando os pontos e, com o desânimo, imaginando quanto perdeu de sua vida.
Falar, falar, falar. Lá pelas tantas, ninguém nos ouve. E as toalhas continuam jogadas pela casa, os quartos eternamente em guerra civil; ninguém lava o carro que todos sujam, a louça se acumula na pia e as roupas ficam aos montes num cesto sem que alguém as leve até a máquina, pelo menos. E você ainda tem o relatório do chefe arrogante e o maldito churrasco de domingo com aquela sua cunhada que acha sempre uma receita melhor do prato que você passou a madrugada fazendo. Sei como é.
A Angélica Nancy sabe muito mais o que fazer, certamente. Eu, nessa minha mania de ter sempre uma opinião sobre tudo, acredito que esteja não só fisicamente cansada mas, principalmente, emocionalmente exaurida.
Ao silenciar, você permite que sua fúria se transforme em piada -“TPM, de novo?”- e em vez de ajudá-la, isso só piora as coisas. Que nessa casa ninguém lembra que você é uma linda mulher, é fato querida! Mas você não tem ajudado muito.
Férias em família, agora? Credo! Vá com uma amiga, permita-se esse tempo e espaço.
Reúna a tropa, e com o seu carinho, avise que a super-mãe está dodói e talvez não seja tão super assim. Abra o coração sem rancor e sem tentar identificar culpados.
Informe que vai dar a todos a oportunidade de crescerem, e desculpe-se pelos anos que arrumou camas de marmanjos e esfregou os fundilhos das lolitas; dos banhos que deu no cachorro e de ter cuidado de todos como se só você fosse capaz.
Vai ser duro, mas avise que cada um deve cuidar de si para que você tenha tempo e saúde de cuidar da mãe deles. A parte prática -dividir tarefas e outros que tais – isso você tira de letra. O mais difícil será deixar as coisas acontecerem. Lembre que antes de melhorar toda mudança parece piorar tudo.Volte-se um pouco para si e esqueça essas bobagens de não estar tendo amor pelos seus. Faltou foi por você mesma.
Tenha certeza que, no dia em tiverem a própria família, serão gratos por você tê-los preparado, e, melhor ainda, irão perceber que avó também não é emprego.
Boa sorte e um abraço amigo, mesmo.
Vera. (veracascaes@gmail.com)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Para sempre princesa




Um conto sem fadas.
Era uma vez uma princesa bem pequenina, numa casa onde papai e mamãe ainda eram felizes mas não sabiam que toda menina nasce princesa.Ela foi crescendo e entendendo alguma coisa, ou pelo menos queria entender. Papai ficava fora muito tempo, estudando com amigas de faculdade; mamãe era ótima, comprava montes de chocolate -que é alimento de princesa - e elas ficavam mais fofas e lindas.
Mamãe trabalhava muito e papai muito mais; nenhum dos dois percebia a realeza da menininha. Até que um dia ela voltou da escola e encontrou os armários vazios e mamãe chorando na cama; não encontrou o papai, nem o carro do papai ou as roupas do papai.
Mamãe disse que estava feia e gorda e que por isso papai foi embora - quem sabe para um reino distante onde as princesas nascem e ficam magras para sempre e pais nunca desapareçam com as roupas, o carro e o sorriso das mães. Mas nesse mundinho onde nossa princesa vivia, as coisas eram diferentes. Ela crescia com pernas roliças e belas, como pernas de princesa. A cintura não era tão fina e o traseiro...Bem, nunca se soube como era um traseiro de alteza.
As palavras voavam e semeavam o castelo e as redondezas; aos poucos ela não via muito de princesa no espelho e assim, os olhos não refletiam realeza para o resto do mundo. Sua imagem de princesa era apenas uma foto, num daqueles álbuns que criavam mofo, numa gaveta do escritório.
Tornou-se uma adolescente meio cinza, enfiada em roupas grandes, que escondiam e protegiam. Ninguém prestava atenção na ex-princesa, mas sua essência guardava relutante nobreza; apesar de mamãe não notar e papai estar muito apressado.
Certo dia veio parar na carteira ao lado, o novo príncipe da escola. Ela mal ousava olhar, príncipes têm sempre muitas meninas em volta e ela não era bem o tipo daquelas que suspiravam pelos cantos, à espera do aspirante a rei. Mas a natureza nem sempre é dadivosa e o príncipe carecia de concentração e bons resultados; por causa disso, notou na mocinha com ares de boa aluna, que sentava ao lado.
Uma coisa leva a outra e assim acontecem outras coisas no mundo real, sem trocadilhos.
Na tarde de estudo, o belo se perdia no sorriso morno e nos olhos de lagoa que o fitavam, com certo afeto. Percebeu as notas de um suave perfume, levemente adocicado, que gostaria de sentir mais de perto. E as pernas, claro, grossas e lindas, que a saia comprida quase não deixava aparecer.
O príncipe sentiu que algo mudava, ele parecia estar se tornando um pouco mais normal. E, quem sabe, um estudante que não envergonharia os tutores da nobreza.
Sentiam falta um do outro, a plebéia sem graça e o príncipe sedutor. E como uma coisa leva a outra, um belo dia, em um lugar qualquer -que nessas histórias o local importa pouco- o príncipe selou sua boca real e curiosa, nos lábios comuns da colega comum.
De uma coisa a outra, em pouco tempo eles eram um só e acabaram nos braços um do outro, num castelo encantado, que nessas circunstâncias, o lugar já importa e muito.
Fizeram amor, que aquilo era amor entre homem e mulher, nobres ou nem tanto.
Ele olhou-a e viu então a princesa, de mãos de princesa e traseiro de princesa, dos olhos de pote de doce, do olhar de lagoa. Beijou-a e mimou-a como se beija e se mima uma mulher, e com seus paparicos reacendeu aquela tiara, há tanto tempo sem brilhos e cor.
E então aconteceu o grande milagre, ao olhar-se no espelho, sentiu-se novamente princesa e os olhos de doce refletiram a nova rainha que acabava de acordar de um sono reparador.
E nem as colegas do papai ou os compromissos da mamãe conseguiram empanar o brilho e a fidalguia que emanavam da outrora princesinha, que agora caminhava segura, sabendo quem era.
E ela foi feliz para sempre, as vezes com um príncipe consorte, outras sozinha, mas sempre alteza; isso, não dependia de mais ninguém, só dela.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

P da vida!


Carta de (más) intenções:
Todo mundo já se perguntou, em algum momento, o que está fazendo ‘aqui’.
Eu também. Todo domingo, ao pensar nessas linhas, me interrogo até quando e me convenço que não passa dessa terça...
É um acesso recorrente, que me faz delirar sobre o presente, o tal do futuro e aquela janela eternamente acesa, lá pras bandas da Lomas, me espiando como se acompanhasse meus dilemas, essa intrusa...
Já escrevi sobre essa luz que desafia a escuridão, um clarão perdido mesmo quando o luar se deita sobre as duas insones, a janela e eu.
Quem habita aquele retângulo iluminado? O que faz que não se recolhe durante a noite, como as aves aqui do quintal vizinho, sem paz para dormir sob a lâmpada que entorta o ciclo biológico, fazendo esse galo enlouquecido se colocar a cantar sem nenhum nexo? Ele no galho de uma goiabeira torta, eu nesse teclado, quase morto.
Rui Veloso, meu adorado cantor de além mar, já disse que todo mundo tem um lado lunar, uma face obscura que nem sempre se quer mostrar.Hummm, como a humanidade se torna mais interessante quando penso que todos temos esse viés de mistério!
Na madrugada, descubro que meu lado negro tem brilho e que talvez, esse sim, possa me guiar nesse questionamento que está mais freqüente e incômodo que a TPM, que dá sinal de vida entre um surto e outro.Acho que minha menopausa foi abduzida por algum ET de maus hábitos, que sacana. Eu já deveria ser uma pré-avó e não estar feito lagartixa, credo!
È, eu devo ser exótica, no mínimo.
Sem saber o caminho, decido o que ‘não mais fazer’, pelo menos não de bom grado.
Selo uma carta de más intenções com a mesma determinação dos que disseram que jamais se apaixonariam novamente. Sei que não levarei nada a sério.
- Não mais sentirei falta do convite que não veio, o do grupo do qual jamais fiz parte, realmente. Me bastarei como se bastam os loucos caminhantes da Almirante; nus, descalços, sobre o asfalto escaldante, marchando, balançando sus intimidades murchas e debochadas. Onde já se viu um insano sucumbir diante da dor ou da saudade?
-Não, não mais tentarei me convencer que posso alcançar o sorriso, quando minha verve estiver assim, meio palhaça, meio cheio de graça. Não pode ser meu carma, o meu destino obrigatório, esse brincar com tudo e quase todos. Haverei de rir, quando me apetecer. Ou me for impossível resistir, principalmente de quem se pensa muito sério para o papel. Mas nem pensem que tenho como ofício o vosso riso, poupem-me dessa cobrança descabida.
-E falando em ofício, não mais trabalharei de graça, nessa cortesia sem fim que muito me custa e não o enriquece. Não essa migalha, que me daria alforria das colaborações em nada espontâneas, que servem apenas como dreno desse mar que palavras, torrente de idéias que me sufoca ou vasa, devassa.
-E não mais me quedarei a esse choro que agora me faz pensar: mas eu preciso tanto!...

segunda-feira, 12 de maio de 2008

É REFRESCO!


O brasileiro é muito hipócrita. Muito mesmo.
Estão fazendo o maior estardalhaço com ‘o que aconteceu’ com o Ronaldo, aproveitando a maré de azar do ex-orgulho nacional para tascar lições de moralismo tacanho e maldade mal dissimulada.
Afinal, o que ‘aconteceu’ de tão grave com o Ronaldo, além do mico fenomenal?
Nada que não aconteça com muita 'gente boa' que nós conhecemos, só que sem alarde e sem propaganda na mídia.
Primeiro, noivo ou não, Ronaldo é solteiro e sobre sua vida sexual só deve satisfações a quem de direito, nenhum de nós incluídos, claro.
A noiva ficou ‘p da vida’, qualquer noiva ficaria, enfim.
Muita gente, e bota muita nisso, procura garotas de programa, principalmente quando são turistas, numa terra como o Rio de Janeiro. Outro tanto se já não experimentou um programa com um belo travesti, bem que gostaria; casais incluídos.
Não vale aqui avaliar o que eu ou você não fazemos. Não estou usando o caso para classificar o seu grau de perversão, nada disso. Mas a verdade é que o fato não é raro e está sendo tratado como uma aberração, exatamente como o casal que jogou a Isabela pela janela- e não é bem assim.
Se ele perdeu dinheiro com NIKE ou com a TIM, bobagem, ele já tem demais. E essas mega empresas poderiam aproveitar o limão e fazer uma caipiróska: “Quando você tiver que correr...prefira um NIKE”. Ou “Quando precisar dar explicações rapidinho...Tenta um TIM, ele não te deixa na mão!”.
Taí, de graça, mas com meus direitos autorais preservados, claro.
Que ele deveria ter mais cuidado com a própria imagem, também concordo. Mas e daí? Opinião e sovaco todo mundo tem, a imagem é problema dele.
No mais, o incidente serviu para dar um pouco de paz a Isabella, que Deus a tenha. A mídia, sedenta de sangue, já estava sem um pescocinho para sugar e o do Ronaldo está bem cevado. Fico me perguntando se fosse uma Roberta Close, tão festejada, se alguém se incomodaria...
Pessoalmente, achei o motel de quinta e as três travecas de última: feias e com aspecto sujo, ainda que fossem mulheres. Mau gosto não se justifica, lamenta-se.
Talvez Ronaldo estive de saco cheio de mulheres lindas e casadoiras, dessas que jamais iriam para um motel sem propalar aos quatro cantos e faturar algum, com a chapinha impecável. O problema é que celebridades só encontram isso com uma boneca inflável, fica mais essa sugestão.
Fica a sensação que o bom do sexo, também é poder contar pra todo mundo, que sina!
Mas que o brasileiro é hipócrita, ah, isso é. E muito! veracascaes.@gmail.com)