quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Valha-nos quem, cara pálida?



Antes de qualquer coisa, desculpem meu mau humor, na verdade não costumo ser assim, mas essa semana foi exasperante. Acho que é o inferno astral, que nos ronda a cada aniversário- que seja, xô!
Primeiro foi aquela fotos nas manchetes. Nauseantes... Certas pessoas ficam tão centradas em si mesmas, no próprio ego, que esquecem o respeito que deveriam guardar por quem teve a pachorra de ouvi-las e até apoiar suas idéias. Gente que bateu palmas, que comprou brigas... E pra quê? Chego à conclusão que fomos, todos, usados.
Para ser franca, tenho até vergonha de ter sido ingênua, crédula, manipulável. Afinal, porque eu deveria ser “adversária” política dessa ou daquele? Pessoalmente nunca tive nada contra ambos, a não ser o que normalmente move o eleitor comum: simpatia de mais ou de menos. Mas nós não tínhamos essa visão, é fato que a proximidade impede-nos de ver o quadro inteiro... Éramos testemunhas do palavrório virulento que se transformou (sabe-se lá a verdadeira razão!) no abraço da vergonha; mais constrangedor para quem permitiu esse aconchego cheio de rancores e motivos certamente mais vergonhosos ainda... No seu lugar, querida, eu jamais faria parte daquela cena; e acredite, você vai sair perdendo!
Os chineses antigos diziam que a mulher rejeitada é mais perigosa que a serpente; bobagem, isso é porque orientais não imaginam a fúria de um político ao perder uma eleição. Duas, então...
Ouvi falar em preguiça e preguiçosos... Justamente aquele que foi um dos mais festejados colaboradores, condecorado por honra, desprendimento e lealdade. Então, como assim?
Não, não existiram tantos preguiçosos; pelo menos não nessa pasta. Aliás, esse sempre pegou pesado no trabalho, e certamente foi leal, inclusive quando admitiu ceder a vez ao mais velho – e supostamente mais sábio, como ensinam os chineses. Tsc, tsc, a gente devia esquecer os chineses... Não, meu bem, eu não quero emprego no governo e nem tenho nenhuma ligação ou interesse, ao contrário do que você já disse por aí, tentando ficar bem no culto e na missa; mas isso é fofoca de mulherzinha, não é mesmo?
O mito tomando conta da mente... Para quem se acostumou às vitórias e aos bajuladores, é muito difícil identificar a verdadeira razão dos fatos; uma versão fantasiosa que culpe alguém pelas próprias falhas é mais cômodo. Com o tempo, a versão cria ares de verdade, torna-se um monstro capaz de engolir quem as criou. Some o homem, fica a versão. Somem os méritos e a história; fica o engodo.
Fiquei meio engasgada com tudo isso; mesmo pra mim, acostumada a ver quem valse onde quer que o poder esteja, o sapo era intragável, me senti mal - e imaginei que poderiam me tratar como vira-casacas...E daí? Afinal, quem virou o quê?
Alto lá, não me venha dizer que esse espetáculo deprimente é a busca da paz; respeite-nos, pelo menos agora. As razões devem ser as mesmas de sempre, forças ocultas e transgressões éticas que jamais serão bem explicadas, valei-me!
Não tenho dúvida que todos temos as mesmas oportunidades de escolher que final nossas histórias devem ter. Isto é, no mínimo, previsível. A maioria persevera na busca da consolidação de um espólio cujo maior bem seja a honra e o próprio nome. Outros, nem tanto... Deus nos livre da ira dos egos, das vaidades e dessas coisas assim, que nós, os mortais comuns, não conseguem entender!
E me esqueça, cara-pálida!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Minha amiga perdeu um filho


Alto, forte e belo, aos vinte e um anos quedou-se numa rajada de balas -o que poderia lembrar aquela música que cantamos tanto,“ Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”. Mas o enredo dessa morte não foi épico.
Minha amiga perdeu esse filho várias vezes; viu-o passar pela morte durante anos até despedir-se de seu corpo maltratado, rogando aos céus que descansasse na eternidade. Na dor desse pranto, há certo alívio por saber que o sofrimento do ser amado é findo; o que a faz roer-se em remorsos, imaginando o que poderia ter feito e, sem forças, não fez – como muitos outros pais.
Minha amiga viu o filho morrer desde a primeira vez que o flagrou com drogas e acreditou que era apenas uma fase e, mãe amorosa, pediu a Deus por sua criança. É da humanidade das mães preferir não acreditar. Das drogas leves às pesadas, aos furtos, roubos, tráfico e gangues armadas, foram apenas três anos. O seu bebê desapareceu, dando lugar ao traficante, capaz de roubá-la, ameaçar a irmã e surrar a namorada.
Na internet circula o artigo de uma “Carla Kristine, Psicóloga Clínica”. Verdadeiro ou não, o texto – apesar de tendencioso e superficial - provoca discussões oportunas, inclusive sobre a postura equivocada –e comum – de condenar pais pelos erros de filhos, como se fossem culpados pelas escolhas que seus rebentos farão vida a fora. Não por acaso, minha amiga me encaminhou uma cópia e um pedido, para que tocasse nesse difícil tema: a banalização das drogas, a culpa que pais carregarão, e a sociedade, fingindo que está tudo bem... Muitos desses pais aflitos foram os adolescentes da geração “paz-e-amor”; alguns até, eventuais consumidores da erva; na época, quase um movimento intelectual - e que jamais imaginaram enfrentar esse tipo de problema, com os próprios filhos. A paz e o amor se foram - e os sonhos viraram quase agonia.
Entre tantos equívocos, o primeiro é achar que traficante é alguém pobre, horroroso, mal vestido e que mora na periferia. Ele - ou ela - pode estar no seu sofá, comendo seus sanduíches e pedindo que lhe coce as costas. E continuará sendo o seu bebê. E aí? O que se faz numa situação dessas? Não sei, de verdade.
Essa poderia ser parte da história de tantos jovens, cujos pais seriam capazes de qualquer coisa para escrever outro final; mas tenho certeza que nenhum que tenha perdido um filho em circunstâncias decorrentes do uso de drogas, se prestaria a vender sua memória como um herói urbano a ser cultuado – como a psicóloga retrata a vida de Cazuza e a relação com os pais.
Como se não bastasse assistir a agonia de um filho dopado e surdo aos apelos e ao sofrimento da família inteira, ainda existe quem venha dizer que a culpa é do pai super protetor ou da mãe ausente, que crueldade!
Que pecado os pais de Cazuza cometeram, que qualquer um de nós não cometeria? Que pai não ajudaria o filho talentoso a gravar seus poemas? Que mãe não afaga um filho que se cura de uma ressaca? Criticarão pais de uma forma ou de outra, sempre; a omissão dificilmente é intencional, talvez seja apenas uma última e silenciosa oração, pedindo a Deus que “não seja verdade”, implorando que a Virgem olhe por mais um filho perdido... Exatamente como você faria, doutora.
Tenho certeza que a maioria que assistiu ao filme sobre o Cazuza, ou ao inquietante “Meu nome não é Johnny”, sabe separar alhos de bugalhos. Existem dois Cazuzas; o talentoso artista e o ser humano, vítima de si mesmo e do sistema com o qual jamais soube lidar. Os filmes mostram sim, o drama das escolhas – malditas escolhas – de seus protagonistas. Idolatra-se o artista; já o drogado, promíscuo e infeliz nos serve de exemplo, infelizmente.
Como haveremos de manter crianças longe das drogas, com essas versões caolhas daquilo que mais tememos e não temos segurança (ou conhecimento) para, sequer, explicar? Cazuza não foi um herói. Foi marginal, sim; inspirado, lírico, mas marginal. Como o filho da minha amiga, como o desconhecido que aterroriza o Guamá ou a Rocinha.
O mundo é louco, minha amiga, e não sei como passar por ele, incólume.
Até um tempo atrás, a gente acreditava que oração, amor e atenção – e boas intenções- bastavam. Mas não bastam. E honestamente... Não sei como ou o que será.
Alto, forte e belo, aos vinte e um anos quedou-se numa rajada de balas -o que poderia lembrar aquela música que cantamos tanto,“ Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”. Mas o enredo dessa morte não foi épico.
Minha amiga perdeu esse filho várias vezes; viu-o passar pela morte durante anos até despedir-se de seu corpo maltratado, rogando aos céus que descansasse na eternidade. Na dor desse pranto, há certo alívio por saber que o sofrimento do ser amado é findo; o que a faz roer-se em remorsos, imaginando o que poderia ter feito e, sem forças, não fez – como muitos outros pais.
Minha amiga viu o filho morrer desde a primeira vez que o flagrou com drogas e acreditou que era apenas uma fase e, mãe amorosa, pediu a Deus por sua criança. É da humanidade das mães preferir não acreditar. Das drogas leves às pesadas, aos furtos, roubos, tráfico e gangues armadas, foram apenas três anos. O seu bebê desapareceu, dando lugar ao traficante, capaz de roubá-la, ameaçar a irmã e surrar a namorada.
Na internet circula o artigo de uma “Carla Kristine, Psicóloga Clínica”. Verdadeiro ou não, o texto – apesar de tendencioso e superficial - provoca discussões oportunas, inclusive sobre a postura equivocada –e comum – de condenar pais pelos erros de filhos, como se fossem culpados pelas escolhas que seus rebentos farão vida a fora. Não por acaso, minha amiga me encaminhou uma cópia e um pedido, para que tocasse nesse difícil tema: a banalização das drogas, a culpa que pais carregarão, e a sociedade, fingindo que está tudo bem... Muitos desses pais aflitos foram os adolescentes da geração “paz-e-amor”; alguns até, eventuais consumidores da erva; na época, quase um movimento intelectual - e que jamais imaginaram enfrentar esse tipo de problema, com os próprios filhos. A paz e o amor se foram - e os sonhos viraram quase agonia.
Entre tantos equívocos, o primeiro é achar que traficante é alguém pobre, horroroso, mal vestido e que mora na periferia. Ele - ou ela - pode estar no seu sofá, comendo seus sanduíches e pedindo que lhe coce as costas. E continuará sendo o seu bebê. E aí? O que se faz numa situação dessas? Não sei, de verdade.
Essa poderia ser parte da história de tantos jovens, cujos pais seriam capazes de qualquer coisa para escrever outro final; mas tenho certeza que nenhum que tenha perdido um filho em circunstâncias decorrentes do uso de drogas, se prestaria a vender sua memória como um herói urbano a ser cultuado – como a psicóloga retrata a vida de Cazuza e a relação com os pais.
Como se não bastasse assistir a agonia de um filho dopado e surdo aos apelos e ao sofrimento da família inteira, ainda existe quem venha dizer que a culpa é do pai super protetor ou da mãe ausente, que crueldade!
Que pecado os pais de Cazuza cometeram, que qualquer um de nós não cometeria? Que pai não ajudaria o filho talentoso a gravar seus poemas? Que mãe não afaga um filho que se cura de uma ressaca? Criticarão pais de uma forma ou de outra, sempre; a omissão dificilmente é intencional, talvez seja apenas uma última e silenciosa oração, pedindo a Deus que “não seja verdade”, implorando que a Virgem olhe por mais um filho perdido... Exatamente como você faria, doutora.
Tenho certeza que a maioria que assistiu ao filme sobre o Cazuza, ou ao inquietante “Meu nome não é Johnny”, sabe separar alhos de bugalhos. Existem dois Cazuzas; o talentoso artista e o ser humano, vítima de si mesmo e do sistema com o qual jamais soube lidar. Os filmes mostram sim, o drama das escolhas – malditas escolhas – de seus protagonistas. Idolatra-se o artista; já o drogado, promíscuo e infeliz nos serve de exemplo, infelizmente.
Como haveremos de manter crianças longe das drogas, com essas versões caolhas daquilo que mais tememos e não temos segurança (ou conhecimento) para, sequer, explicar? Cazuza não foi um herói. Foi marginal, sim; inspirado, lírico, mas marginal. Como o filho da minha amiga, como o desconhecido que aterroriza o Guamá ou a Rocinha.
O mundo é louco, minha amiga, e não sei como passar por ele, incólume.
Até um tempo atrás, a gente acreditava que oração, amor e atenção – e boas intenções- bastavam. Mas não bastam. E honestamente... Não sei como ou o que será.

Micos (remix)



Poucas coisas são mais humilhantes do uma queda ridícula, desengonçada. Só mesmo com público. Nessas horas, o melhor é “perder os sentidos”. Desmaie - com charme, “pelamor” de Deus! A mão direita sobre o coração, cabeça pendendo, pernas elegantemente dobradas para mostrar seus saltos 12, tão lindos... Não tente arrumar o cabelo. Caiu, caiu. Fique imóvel, jogada no chão. (Claro que você não vai fazer isso na pista da Almirante Barroso. Pensando bem, você não deve atravessar a Almirante Barroso...) Aí o mico começa a dar Ibope! Em vez de gargalhadas humilhantes ou risinhos cruéis, haverá preocupação. Correria. Prenda a respiração, você deve ficar pálida, aquele ar de desamparo tão atraente - lembre que ninguém ajuda mulheres poderosas e confiantes. “Deve ser hipoglicemia”. “Lipotímia”. “Sal sob a língua!”. “Água com muito açúcar!” “É o regime... Só comem alface” (Você , deitada, ouvindo isso, é “A” glória. Resista e não ria.) “Ela não é cardíaca ?” Pronto, alguém vai acionar a Unimed. Você sai dessa com lucro, a notícia se espalha, na sauna, na massagem, no boteco da hora. E alguém ainda vai perguntar, sussurrando: “E aí, melhorou? Oooolha, não abusa da dieta!”. Glória to-tal: finalmente no-ta-ram a dieta que você começou há três anos! Justiça tarda, mas não falha. Valei-me Santa Rita, que é chic e poderosa!
Nem sempre é assim. Já caí da cadeira com prato (cheio) e talheres nas mãos. Fiquei deitada no gramado, com a cadeira fechada, por baixo. Um horror... Como poderia desmaiar sem derramar a feijoada? Ainda tive que espanar a grama do traseiro; uma lástima. Desde então, o-dei-o cadeiras de armar. As plásticas também são perigosas, principalmente em salões deslizantes, com camadas e mais camadas de cera e coisas escorregadias... Melhor acomodar o traseiro aos poucos, para sentir se as pernas (da cadeira!) não estão se abrindo. Encoste uma das pernas no seu vizinho, para servir de “trava” (DAS CADEIRAS, ô raça maldosa!).
Para não cair à toa, sempre é bom dar uma “geral”, antes de entrar, gloriosa, com o queixo a não menos de 90º do pescocinho hidratado. Se estiver cheio de pregas, meu amor, use uma echarpe - ninguém merece certos colos em eterna exposição, com aquele decotão de cigana de araque!
Se “chegar” merece atenção (comuns entram, poderosos “chegam”), sair, é outra ciência. Nada pior que ser uma das últimas, isso é coisa de quem não faz a menor diferença – o que, decididamente, não é o nosso caso. Levante-se enquanto consegue uma bela estampa, nada de cochilar no ombro do Romeu ou trocar figurinhas com quem nem tem álbum, se é que me entende. Despeça-se com alegria e jamais pronuncie “desculpe qualquer coisa” - a não ser que realmente tenha culpa por algo inominável. Se beber além da conta, tranque-se no banheiro até poder sair sem testemunhas, nada pode ser pior do que esses espetáculos.
E quando a companhia se torna uma tortura? Quanto menor a festa, mais difícil é sair “de fininho”, se for impossível aguardar a sobremesa, vá até o banheiro e peça que alguém telefone insistentemente. Atenda preocupada e desligue pesarosamente, algum curioso vai perguntar o que aconteceu, responda baixinho que sua tia de 98 anos está passando mal e desapareça na penumbra. Para saídas menos traumáticas, meia-noite é o limite, ou você volta para casa numa abóbora. “Gente, a conversa está ótima, mas meu plantão começará em 5 minutos...Beijo, me liga; fui...” Plantão? Que plantão? Ninguém discute ou desrespeita “plantão”. É uma palavra mágica, que garante o supremo direito de recusar qualquer convite ou álibi para eventualidades; plausível em diversas áreas como medicina, comunicações, informática, veterinária, farmácia, posto de gasolina, vidente e manicure. Pode ficar estranho, mas é melhor que vomitar no petit-gateau.
(Só para lembrar...Sexta, sábado e domingo: As Gatosas, com novidades, no Cuíra!)

Coisa Feia!

SELEÇAO DE COISAS QUE AGRIDEM A GRAMÁTICA, O BOM GOSTO, O BOM SENSO...


Na Globo.com, G1, mais uma vez ninguém leu antes de publicar...
Em 15 de outubro de 2010:


Casa e Jardim
Decoração com
Bolinhas dão leveza
à casa.




"Dão" ?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Descomplique-se


A falta de qualidade de vida é tema recorrente em todo lugar. Ninguém tem tempo para nada, é a sujeira, o trânsito, muito trabalho (sempre) e mais compromissos do que se pode atender. Alguns ainda arrastam relações pessoais – familiares ou profissionais – tensas; e o lazer... Bem, isso é coisa de quem não tem o que fazer, criticam. Enquanto isso, cada vez mais pessoas procuram descomplicar a vida, para viver mais – e melhor. Se você acha que tem a ver com falta de dinheiro ou mediocridade, é melhor rever seus conceitos. Simplicidade é uma forma de encarar a vida, quase uma ideologia. Pessoas simples são mais felizes, não por exigir menos, mas por eliminar o que atrapalha.
Parece fácil, mas não é. Muitos acham que ser simples é ser modesto, simplório; e bem sucedidos parecem muito, muito ocupados. Na verdade competência é não se ocupar mais que o necessário. Não “ter tempo” virou desculpa para tudo; auto-indulgência para não procurar amigos, adiar consulta médica, não educar os filhos, não responder e-mails ou ter aquela conversa com o parceiro. Por falta de melhor referência, pessoas complicadas – desorganizadas e sem tempo – se passam por trabalhadores exemplares, como se fossem realmente essências; diferentes de você, que deu o maior duro para fazer aquele curso de sushi – bobagem de quem não tem lá muito o que fazer! – que coisa!
Idéias mais radicais - como o Movimento Simplicidade Voluntária- ganharam a mídia, principalmente por pregar o desapego, inclusive ao conforto – o que exige sacrifícios. Não é disso que estamos falando - deixe o ar no máximo, por favor!
Do que se trata, então? Basicamente de descomplicar a vida ao máximo. Quer tempo para viver melhor? Livre-se de tudo o que atrapalha a sua tranqüilidade. É a receita de Elaine St. James, escritora especialista em simplicidade. Segundo ela, pessoas muito estressadas se recusam a rever prioridades; uma vida complicada é a melhor maneira de adiar providências para achar tempo para o que dá prazer. (Auto-sabotagem?)
"Simplifique sua Vida: 100 Maneiras de Diminuir o Ritmo e Desfrutar das Coisas que São Realmente Importantes” (o primeiro dos vários de Elaine sobre o tema) é antigo -1999 – e continua entre os mais lidos. O que me parecia mais um manual de auto-ajuda acabou me ajudando a identificar o que vampiriza meu tempo e minha paz - eu mesma, ocasionalmente.
John Maeda, diretor da Rhode Island School of Design e outro guru da “descomplicação” publicou em 2007 “As dez Leis da Simplicidade”. Mesmo que não seja novidade, vale conhecer as reflexões sobre o que emperra a eficiência no trabalho - ou na vida. Ser (pelo menos só um pouco) mais simples parece a melhor forma de evitar conflitos.
Mesmo a rotina mais básica pode ser simplificada. Sair quinze minutos antes para evitar rush, fazer compras ou academia em outro horário, são as mais banais. Até a quantidade de publicações que recebemos pode ser fonte de estresse, ao gerar a “obrigação” de “ter que ler” uma montanha de revistas que vão se acumulando, resultando na sensação de incapacidade e desperdício. (Se não dá tempo, prá que assinar? Cancele logo!) E o Natal? Já reparou como complicamos um momento que deveria ser só alegria?
Viva e deixe viver! Para que pensar porque fulana não retornou a ligação ou se gostaram da festa que você deu o maior duro para organizar? Vão falar mal de qualquer modo, melhor gastar a energia algo prazeroso – aquela massagem, que tal? Não exigir demais de si mesmo e saber perdoar-se quando algo não sair exatamente como queria, também é fundamental.
Simplicidade pode ser um carro menor ou planejar a lista para ir ao supermercado menos vezes – depende de cada um. Os resultados de uma intervenção dessas, no entanto, são animadores. Como diria a Marina, das “Gatosas” (que estréia amanhã, 21h, no Cuíra!), Slow down; querida!
Foto: Ensina-me a viver, com Glória Menezes.

Bramasole: o que anseia pelo sol



Sob o sol, na madrugada
A única vantagem de estar eventualmente insone é poder passear por uma enormidade de canais, curtindo uma das minhas paixões. TV é tudo de bom, como diria a amiga Rejane (Barros, claro!). De um episódio da Discovery sobre Henrique VIII - ele foi um atleta, quem diria!- passo pelo fenômeno musical adolescente, o irritante Justin Bieber, o menudo da hora. Tenho ímpetos de dar uns coques no molequinho metido, que aprecia “mulheres mais velhas”; então tá, que falta faz um puxão de orelha ou uma escova, toma tenência, moleque!
Estou inquieta, são duas e meia da madrugada, preciso dormir e ainda tem essa dor de garganta chata... A próxima atração me acalma; vou assistir, mais uma vez, Sob o Sol da Toscana. Poucos filmes foram (e são) tão assistidos quanto o drama açucarado da escritora Frances Mayes (vivida na tela por Diane Lane) que resolve desembarcar de uma excursão pós-divórcio-traumático e arriscar-se na compra de uma casa em ruínas... em plena Toscana. O filme, de 2003, permanece como fonte inspiradora para muitos e mesmo nas incontáveis reprises, é um bom programa; apesar dos entendidos detestarem. Ninguém é perfeito.
Qual a razão de tamanho sucesso? As paisagens – encantadoras – da Toscana não são a única razão. O enredo trata de dar-se uma nova chance, pouco importa quantas. De ousar, de ter coragem de arriscar! Trata do bem querer, entre novos e velhos amigos e, em especial, de buscar antes de um novo amor, um lar - o que é muito mais que um teto... Viver numa casa onde a gente se reconheça e cada detalhe seja fruto de carinho é muito prazeroso - e nem é essencial que ela nos pertença há décadas. (A casa chama-se Brasole... Algo que “anseia pelo sol”.) Como os amores, existem casas que nos conquistam à primeira vista; outras, a gente vai dando um toque aqui, outro ali, muda isso e aquilo até que parece termos vivido lá a vida inteira. Casa é qualquer uma, lar tem a nossa cara.
O filme trata de gente - suas alegrias e tristezas, dúvidas e descobertas. Quem nunca sentiu um desinteresse desesperador pela própria vida? Aquela certeza de não pertencer mais a esse lugar e precisar sair, em busca de um novo porto? Mas quantos podem fazer isso?
Poder resumir a bagagem a algumas caixas com o mais valioso, livros, fotos, só as roupas que usamos de fato; isso sim é deixar para trás o peso morto, para seguir adiante mais leves, de fato. Nos filmes isso é fácil. Na tal da vida real, muito raramente. Somos fiéis depositários de um monte de coisas que recebem um valor muito maior do que possuem. Carregamos lotes de objetos adquiridos à custa de algum sacrifício, como largar tudo assim, de uma hora para outra? Frances sofreu um divórcio extorsivo para chegar à conclusão que podia viver sem a mobília ou tudo que julgava imprescindível. ( Para outros, bastaria esse trânsito, o lixo, a mesmice, a canalhice de alguns que se dizem procuradores dos nossos interesses. Bastaria a propaganda eleitoral. Cadê coragem?)
Numa outra madrugada, assisti “House Hunters International”, série que acompanha a saga de pessoas comuns que procuram um novo lar, em outro país. Um radialista saiu dos Estados Unidos em busca de uma casa na Toscana, depois de assistir diversas vezes ao filme, imaginando se teria coragem... Como trabalhava com as corridas, cujas atividades ficam suspensas durante cinco meses, resolveu que teria outro lar, na Itália. O melhor foi ver que esse não é um sonho tão impossível. Por 45 mil dólares (sim, dólares) arrematou uma casinha com vista espetacular, mas em estado calamitoso, numa pequena aldeia próximo de Abruzzo; mais em conta que a Toscana e bem perto dela. Acompanhou pessoalmente a reforma que consumiu mais vinte mil dólares e, ao final, já tinha uma porta esmaltada de vermelho e vasos de gerânios sob sua janela – com vista para um prado, onde no verão, estariam milhares de girassóis. Por cinco meses em cada ano, o sonho seria realidade.
Ai, ai... Confesso que tenho inveja de quem ousa, de quem tem tanta coragem assim... Tento me conformar, talvez nem precisassem ir tão longe...
A Toscana pode ser qualquer lugar, onde a gente se sinta feliz e em paz, para onde valha a pena voltar, consolo-me... Ou um filme bonito que me faz sonhar durante a madrugada em claro...

Antiga


Ela já nasceu antiga, diferente das amigas, capazes de fazê-la corar. Não quis ser bailarina, as pernas eram grossas e não levava jeito com movimentos sincronizados. Não, ela não seria bailarina. Nem aeromoça, naquela época, toda menina bonita mesmo, sonhava com a Varig. Nunca soube de uma que tenha conseguido, a que chegou mais perto foi a Lúcia, que fazia check-in em Val-de-Cães. Mas ela não era ousada o suficiente para ser aeromoça, despachar vôos noturnos ou apresentar jornais de TV, como arquitetavam as outras.
Jamais teve um sonho desses, comuns, ou se imaginou num consultório ou numa prancheta; também não pretendia ser atriz, isso não era lá coisa fácil, não naquela época. Modelos e manequins, ela só soube que existiam depois dos anos setenta - que foram loucos, muito loucos. Ela não sonhava com nada que as amigas aspiravam. Não seria atriz, nem médica, nem...
Cândida sonhava com o piano, dia e noite. Não fosse a reclamação do pai – De novo, Cândida? – tocaria até altas horas. Depois do almoço, era a sesta que, mesmo sem ninguém dormir, só acabava lá pelas quatro. Ela que aproveitasse, às sete da noite haveria o Repórter Esso, e esse, era sagrado.
Cândida queria ser pianista. Falava de boca cheia, Pi-a-nis-ta! Tamborilava a carteira durante o “recreio”, entre os dois toques da “campa”, enquanto os demais devoravam a “merenda”. Ninguém mais falava assim ou sonhava com pianos, ora, ora.
Só uma coisa mexia mais com a Cândida, e sentava-se bem ao lado, na terceira carteira da segunda fila. O Antonio José era a razão dos suspiros da bela e doce Cândida. No mais, um sobrado avarandado, de paredes cor-de-rosa, que tudo naqueles tempos tinha essa cor. Sala com mesa de jacarandá, pano de crochê e vaso de cristal, para trocar flores toda semana. Quarto de amplas janelas, cama de cerejeira entalhada, colcha de cetim - e o Antonio José em cima, claro. E no canto da sala, tchan-tchan-tchan-tchan... O piano! Haveria de ser um de cauda, desses que ficam abertos e se vê as cordas, lindo, lindo. Um sonho em sépia, como as fotos antigas.
E foi quase assim que as coisas aconteceram. Formou-se no Conservatório, com louvor; casaram-se na Basílica, tiveram três meninas... Cuidou de cada espirro, alimentou, debelou febres e aparou quedas, quase como havia sonhado; esposa e mãe, fazendo bolos, fritando batatas e bifes, amarrando marias-chiquinhas, enrolando brigadeiros, indo às reuniões do Lyons.
O piano... Bem, o Antonio José achou que não havia espaço para o piano, muito menos admitiu aulas, “no meio da sala”. Afinal, ela não precisava trabalhar; que cuidasse da casa, da família, determinou. Cândida viveu “o sonho” até mês passado, quando a caçula foi para São Paulo, fazer um desses cursos que nem sabia pronunciar o nome.
Ao chegar da hidro, encontrou duas malas repletas de roupas masculinas – novas e muito modernas. O Antonio José? Bem, num bilhete dizia que estava indo embora - com outra - para finalmente ser feliz. Aconselhava-a fazer alguma coisa “útil”, não sabia como ela vivia “sem fazer nada”...
Ela? Sei lá, acho que enlouqueceu. O “finalmente” atravessava-lhe a garganta... Dobrou as antigas roupas do marido, guardou-as nas malas novas, incluindo ceroulas de algodão e cintos de curvim dupla face. Colocou as novas sobre a cama de cerejeira que arrastou até o quintal, juntou a foto dele com o Rivelino, os álbuns completos das últimas oito copas, os discos dos Beatles e o Rolex, que ele só usava na festa da turma. Ateou fogo e ficou assistindo, tranquilamente.
O Antonio José? Foi morar com a outra. Ela? Está pensando em alguma coisa para fazer com a pensão, depois do divórcio. Viajar, por exemplo. E fazer aulas de dança de salão; nunca é tarde para dançar, as pernas grossas, sabe como é...