
Sob o sol, na madrugada
A única vantagem de estar eventualmente insone é poder passear por uma enormidade de canais, curtindo uma das minhas paixões. TV é tudo de bom, como diria a amiga Rejane (Barros, claro!). De um episódio da Discovery sobre Henrique VIII - ele foi um atleta, quem diria!- passo pelo fenômeno musical adolescente, o irritante Justin Bieber, o menudo da hora. Tenho ímpetos de dar uns coques no molequinho metido, que aprecia “mulheres mais velhas”; então tá, que falta faz um puxão de orelha ou uma escova, toma tenência, moleque!
Estou inquieta, são duas e meia da madrugada, preciso dormir e ainda tem essa dor de garganta chata... A próxima atração me acalma; vou assistir, mais uma vez, Sob o Sol da Toscana. Poucos filmes foram (e são) tão assistidos quanto o drama açucarado da escritora Frances Mayes (vivida na tela por Diane Lane) que resolve desembarcar de uma excursão pós-divórcio-traumático e arriscar-se na compra de uma casa em ruínas... em plena Toscana. O filme, de 2003, permanece como fonte inspiradora para muitos e mesmo nas incontáveis reprises, é um bom programa; apesar dos entendidos detestarem. Ninguém é perfeito.
Qual a razão de tamanho sucesso? As paisagens – encantadoras – da Toscana não são a única razão. O enredo trata de dar-se uma nova chance, pouco importa quantas. De ousar, de ter coragem de arriscar! Trata do bem querer, entre novos e velhos amigos e, em especial, de buscar antes de um novo amor, um lar - o que é muito mais que um teto... Viver numa casa onde a gente se reconheça e cada detalhe seja fruto de carinho é muito prazeroso - e nem é essencial que ela nos pertença há décadas. (A casa chama-se Brasole... Algo que “anseia pelo sol”.) Como os amores, existem casas que nos conquistam à primeira vista; outras, a gente vai dando um toque aqui, outro ali, muda isso e aquilo até que parece termos vivido lá a vida inteira. Casa é qualquer uma, lar tem a nossa cara.
O filme trata de gente - suas alegrias e tristezas, dúvidas e descobertas. Quem nunca sentiu um desinteresse desesperador pela própria vida? Aquela certeza de não pertencer mais a esse lugar e precisar sair, em busca de um novo porto? Mas quantos podem fazer isso?
Poder resumir a bagagem a algumas caixas com o mais valioso, livros, fotos, só as roupas que usamos de fato; isso sim é deixar para trás o peso morto, para seguir adiante mais leves, de fato. Nos filmes isso é fácil. Na tal da vida real, muito raramente. Somos fiéis depositários de um monte de coisas que recebem um valor muito maior do que possuem. Carregamos lotes de objetos adquiridos à custa de algum sacrifício, como largar tudo assim, de uma hora para outra? Frances sofreu um divórcio extorsivo para chegar à conclusão que podia viver sem a mobília ou tudo que julgava imprescindível. ( Para outros, bastaria esse trânsito, o lixo, a mesmice, a canalhice de alguns que se dizem procuradores dos nossos interesses. Bastaria a propaganda eleitoral. Cadê coragem?)
Numa outra madrugada, assisti “House Hunters International”, série que acompanha a saga de pessoas comuns que procuram um novo lar, em outro país. Um radialista saiu dos Estados Unidos em busca de uma casa na Toscana, depois de assistir diversas vezes ao filme, imaginando se teria coragem... Como trabalhava com as corridas, cujas atividades ficam suspensas durante cinco meses, resolveu que teria outro lar, na Itália. O melhor foi ver que esse não é um sonho tão impossível. Por 45 mil dólares (sim, dólares) arrematou uma casinha com vista espetacular, mas em estado calamitoso, numa pequena aldeia próximo de Abruzzo; mais em conta que a Toscana e bem perto dela. Acompanhou pessoalmente a reforma que consumiu mais vinte mil dólares e, ao final, já tinha uma porta esmaltada de vermelho e vasos de gerânios sob sua janela – com vista para um prado, onde no verão, estariam milhares de girassóis. Por cinco meses em cada ano, o sonho seria realidade.
Ai, ai... Confesso que tenho inveja de quem ousa, de quem tem tanta coragem assim... Tento me conformar, talvez nem precisassem ir tão longe...
A Toscana pode ser qualquer lugar, onde a gente se sinta feliz e em paz, para onde valha a pena voltar, consolo-me... Ou um filme bonito que me faz sonhar durante a madrugada em claro...
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Bramasole: o que anseia pelo sol
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Vera Cascaes
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Antiga

Ela já nasceu antiga, diferente das amigas, capazes de fazê-la corar. Não quis ser bailarina, as pernas eram grossas e não levava jeito com movimentos sincronizados. Não, ela não seria bailarina. Nem aeromoça, naquela época, toda menina bonita mesmo, sonhava com a Varig. Nunca soube de uma que tenha conseguido, a que chegou mais perto foi a Lúcia, que fazia check-in em Val-de-Cães. Mas ela não era ousada o suficiente para ser aeromoça, despachar vôos noturnos ou apresentar jornais de TV, como arquitetavam as outras.
Jamais teve um sonho desses, comuns, ou se imaginou num consultório ou numa prancheta; também não pretendia ser atriz, isso não era lá coisa fácil, não naquela época. Modelos e manequins, ela só soube que existiam depois dos anos setenta - que foram loucos, muito loucos. Ela não sonhava com nada que as amigas aspiravam. Não seria atriz, nem médica, nem...
Cândida sonhava com o piano, dia e noite. Não fosse a reclamação do pai – De novo, Cândida? – tocaria até altas horas. Depois do almoço, era a sesta que, mesmo sem ninguém dormir, só acabava lá pelas quatro. Ela que aproveitasse, às sete da noite haveria o Repórter Esso, e esse, era sagrado.
Cândida queria ser pianista. Falava de boca cheia, Pi-a-nis-ta! Tamborilava a carteira durante o “recreio”, entre os dois toques da “campa”, enquanto os demais devoravam a “merenda”. Ninguém mais falava assim ou sonhava com pianos, ora, ora.
Só uma coisa mexia mais com a Cândida, e sentava-se bem ao lado, na terceira carteira da segunda fila. O Antonio José era a razão dos suspiros da bela e doce Cândida. No mais, um sobrado avarandado, de paredes cor-de-rosa, que tudo naqueles tempos tinha essa cor. Sala com mesa de jacarandá, pano de crochê e vaso de cristal, para trocar flores toda semana. Quarto de amplas janelas, cama de cerejeira entalhada, colcha de cetim - e o Antonio José em cima, claro. E no canto da sala, tchan-tchan-tchan-tchan... O piano! Haveria de ser um de cauda, desses que ficam abertos e se vê as cordas, lindo, lindo. Um sonho em sépia, como as fotos antigas.
E foi quase assim que as coisas aconteceram. Formou-se no Conservatório, com louvor; casaram-se na Basílica, tiveram três meninas... Cuidou de cada espirro, alimentou, debelou febres e aparou quedas, quase como havia sonhado; esposa e mãe, fazendo bolos, fritando batatas e bifes, amarrando marias-chiquinhas, enrolando brigadeiros, indo às reuniões do Lyons.
O piano... Bem, o Antonio José achou que não havia espaço para o piano, muito menos admitiu aulas, “no meio da sala”. Afinal, ela não precisava trabalhar; que cuidasse da casa, da família, determinou. Cândida viveu “o sonho” até mês passado, quando a caçula foi para São Paulo, fazer um desses cursos que nem sabia pronunciar o nome.
Ao chegar da hidro, encontrou duas malas repletas de roupas masculinas – novas e muito modernas. O Antonio José? Bem, num bilhete dizia que estava indo embora - com outra - para finalmente ser feliz. Aconselhava-a fazer alguma coisa “útil”, não sabia como ela vivia “sem fazer nada”...
Ela? Sei lá, acho que enlouqueceu. O “finalmente” atravessava-lhe a garganta... Dobrou as antigas roupas do marido, guardou-as nas malas novas, incluindo ceroulas de algodão e cintos de curvim dupla face. Colocou as novas sobre a cama de cerejeira que arrastou até o quintal, juntou a foto dele com o Rivelino, os álbuns completos das últimas oito copas, os discos dos Beatles e o Rolex, que ele só usava na festa da turma. Ateou fogo e ficou assistindo, tranquilamente.
O Antonio José? Foi morar com a outra. Ela? Está pensando em alguma coisa para fazer com a pensão, depois do divórcio. Viajar, por exemplo. E fazer aulas de dança de salão; nunca é tarde para dançar, as pernas grossas, sabe como é...
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Vera Cascaes
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segunda-feira, 7 de junho de 2010
Se eu não me amasse tanto assim


Assustou-se? Pois é, mas o amor (por outros) grafita paredes, rola no rádio e une palavras em versos cheios de paixão, às vezes por quem nem quer ser objeto desses sentimentos que podem virar vendavais - e ninguém estranha, nem quando a rima é com dor, ou traição. Amar a si, antes (e apesar) de tudo, parece ser coisa dos egocêntricos e não dos saudáveis.
Outro dia, uma pessoa me cobrou as nossas “fotinhas” que ficavam aí no canto; era desculpa para alfinetar aquilo que chamou de “registro dos meus quinze anos”. Em público, claro; espetáculo exige platéia. Pois bem, queridinha, prometi inspirar-me em você numa crônica; não tema, graças aos céus (e alguma terapia), dificilmente me altero por bobagem.
Não sei a razão da ausência das fotos, não faz diferença. Mas o que você queria realmente saber, sim, a minha imagem era fruto de photoshop, claro! Um carinhoso trabalho do nosso amado S. Raimundinho, mais conhecido como “Zero” (de 007!) aqui na casa, que me deixou mais jovem e com pele de bebê. Coloquei-a no cantinho, uma vez que os amados leitores, (inclusive você!) merecem o melhor, mesmo que o melhor seja retocado. E pra quê mais existiria a técnica, a não ser para nos deixar muito bem na foto? Você se enche de botox e ninguém torra sua paciência; vê como tem gente boa no mundo?
Pois é, mas é agora que começa a crônica; afinal, não iria me ocupar da sua falta de assunto, ou da sua implicância, já lhe dei mais ibope que merecia, “amiiiga”!
Bem, lembram que tempos atrás andei meio “pra baixo”, coisa e tal? Pois é, passou, claro, e me deixou muito melhor- pelo menos por dentro, ô raça!
Outra pessoa, essa de bem com a vida, ligou dizendo que “pelo astral da foto”, (daquela, retocadíssima!) sabia que eu estava bem e ficava feliz, amém. Isso se chama generosidade, algo que torna melhor qualquer dia enfarruscado, que faz que um raio seja o sol inteiro. Essa é a diferença, percebe?
A maneira como a gente se coloca diante das pequenas coisas ou dos grandes acontecimentos determina todo o resto – o que recebemos da vida é apenas o troco do que oferecemos.
Há quem veja uma festa como uma oportunidade rara para celebrar as amizades e existe quem ache que é um compromisso, uma chatice - isola pé de pato, mangalô três vezes. É a tal história do meio cheio ou meio vazio, enfim.
O que alguém que não trata a si mesmo com carinho, pode esperar dos outros?
Passei dessa fase (desculpa, tá?), pois descobri que ninguém consegue “ser” feliz, mas sentir-se feliz só depende de cada um, é a escolha dos que vivem bem e semeiam bem estar, pode reparar.
Às vezes, ouvia que deveríamos amar a nós mesmos antes de arriscar qualquer amor, mas me parecia conversa de fotonovela ou álbum de debutante. Não tinha percebido o quanto estar bem consigo mesmo é fundamental para desfrutar o lado bom da vida e relevar os maus momentos – todos passam por eles, não é exclusividade de ninguém. Achar-se perseguido, odiado, invejado por todo mundo é coisa de quem precisa de amor; de amor próprio.
Talvez seja esse o segredo daquelas pessoas para quem quase tudo parece dar certo, como se vivessem eternamente no paraíso, mesmo quando as coisas não vão tão bem assim. Não, não estou dizendo para você ser um desses otimistas tolos e alienados, apenas constatei que a vida é melhor quando a gente consegue esquecer o que os outros pensam, para ouvir o próprio coração; quando conseguimos rir das nossas dificuldades e valorizar o que temos de bom. É melhor ser um guerreiro Jedi, no lado “bem humorado” da força.
Depois do meu pequeno reparo no título da música, concluo com os versos de Paulo Sérgio Valle e Herbert Vianna:
... Talvez perdesse os sonhos
Dentro de mim
E vivesse na escuridão
...Talvez não visse flores
Por onde eu vim
Dentro do meu coração...
Ver flores só depende de você, isso é certo. A vida, menina, é uma só, então aproveite não só a festa, mas o photoshop – os espertos conseguem deixar tudo melhor do que é! Mas lembre-se que colheitas não aguardam muito tempo e...Carpe diem!
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Vera Cascaes
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
Brasil, il, il, il...Tá bom assim?

Duas paixões nacionais não me comovem mais, pelo menos não como ao resto do país: carnaval e copa do mundo. Acho uma chatice, não ligo para quem ficou de fora da lista do Dunga e agradeço aos céus ter TV por assinatura, amém. Não implico com quem é capaz de perder o emprego para não perder um jogo. Ou com quem reúne amigos, para ver a Beija Flor; apenas não consigo me motivar. Até tento disfarçar, mas ambos não representam mais que algumas lembranças, deixadas lá atrás.
Eu já adorei carnaval; de rua, inclusive. Naquele tempo, a gente tinha os quatro finais de semana “pré-carnavalescos” para colocar o bloco da rua. A Praça da República era tu-do! Grande Família, Bandalheira, Unidos da Vila Farah, Xavantes... Dava vontade de brincar em todos. Brincar, sim; carnaval era diversão, e das boas – o que está bem longe de ser careta, queridinha.
A gente não tinha tempo - ou vontade - de tomar conhecimento do carnaval do sul, mesmo que já fosse “o maior espetáculo da terra”. Que farra! Ninguém imaginava que as Negas Malucas que faziam “forfait”, eram jovens de tradicionais famílias de Belém - eu, que era esperta, no meio. E nos salões, garanto que não havia carnaval tão bom quanto o daqui. Mas isso, os jovens não podem sequer imaginar como era. Depois... Bem, depois virou essa chatice; um calendário com data marcada para ir para Salinas e tomar todas, nada mais.
Até desfilei duas vezes no Rio, foi ótimo, blá blá blá, e fim. Não consigo “virar a noite” para ver as escolas, acabo dando uma espiada no compacto e estamos conversados.
Talvez seja a falta de uma “turma”, mas mesmo que uma multidão se reunisse em minha casa para assistir ao Carnaval ou à Copa, para mim um bom papo continuaria sendo muito mais interessante.
OK, sei que você adora, por isso fico na minha, levanto os indicadores e “alalaô-ô-ô ô-ô-ô, mas que calor, ô-ô-ô-ô...”. Do tempo em que Momo tinha reinado em Belém, claro!
Copa do Mundo... Lembro de várias. Na vitória de setenta, a “pipoca” da Assembléia foi em ritmo de “Pra Frente, Brasil!”.
Na de 78, saí de casa, na Batista Campos para assistir um jogo do Brasil com amigos, na Rui Barbosa. Fui a pé e estava atrasada, só para variar. Ruas vazias e em vez de apressar o passo, me coloquei a pensar sobre as calçadas, sobre a vida, solidão e esses assuntos que tomam conta da cabeça dos cronistas – mesmo antes de saberem que, um dia, serão cronistas. Sei lá a razão, quando Belém está vazia, lembro exatamente daquele dia.
Para cada copa tenho uma recordação; algumas felizes, a maioria nem tanto. Na de 82 eu aguardava a chegada da Verena com Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, uau! Em 90 eu retornei para Belém depois de nove anos fora. No penta, perdi meu pai; lembro dos fogos, enquanto encerrávamos o velório.
Ao contrário do carnaval e do futebol locais, que só perderam, no resto do país ambos melhoraram, e muito. Outro dia, sapeando a TV, vi uns tapes dos jogos de 70 e pasmem, até eu me surpreendi com uns lances esquisitos; Pelé bobeando na cobrança de faltas, Gerson errando passes, Rivelino demorando a passar a bola. Na época, acho que nem deu para notar. Já a magia... A copa de 70 foi mágica e emblemática! (E não tinha o Galvão Bueno, que maravilha!)
Fico imaginando o quanto aquela vitória influenciou os nossos destinos, que coisa. A desse ano vai pesar na eleição do (ou da) presidente. Coisa de Brasil, enfim.
As copas passam e eu não ligo, só para as consequências; mas não fico dizendo isso por aí. As pessoas reagem da mesma forma com quem não “adora” crianças; não gostar de futebol é, digamos, suportável, mas não a-m-a-r a seleção, é absurdo!
Então tá. Vou arrumar uma camisa amarela, fazer aquela cara de felicidade e fingir que sou íntima do esquema do Dunga. (Depois de anotar o horário dos Pinguins de Madagascar, na TV. São ó-ti-mos, você já viu?) Brasiiiiiiiil, il,il,il...
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A nova cozinha regional, arre!

Filé de peixe, manteiga, gorgonzola, chicória (e alfavaca, claro!), parmesão, bacalhau, jambu, catupiri; e não só para rimar, batatas, camarões e tucupi; molhos de tomate e bechamel, pimenta de cheiro, pimentão, ervas de Provence, bacon e arroz...
Não, não é lista de compras, mas os ingredientes de um único prato, criação local. Não me pergunte que cogumelos o “chef” andou comendo, mas são perigosos, acredite.
Vão me achar antiga e implicante, mas encontrar um simples filé de pescada, grelhado, com farofinha úmida e arroz branco e soltinho, é difícil. Os restaurantes mais “mais”, mesmo, é que oferecem pratos descomplicados. Sabe aquela história do cara que não sabe fazer arroz, mas faz um “risotti” di-vi-no? Pois é... Simplicidade exige conhecimento; quem não sabe, enche tudo de creme de leite, mais dez ingredientes e... Voilá, eis a “enrolation cuisine” - de olhos fechados, em meio a tantos sabores, ninguém sabe o que está comendo, que coisa.
Atualmente temos talentosos (e reconhecidos!) “chefs”, mas há vinte anos, o querido Paulo Martins era um dos poucos; e se colocou a provar e propor novos sabores aos paladares mais curiosos, com enorme competência. Sempre confiei nas suas sugestões que mesclavam o tradicional com generosos toques de ousadia. Foi assim que surgiu o tão copiado Filé ao Molho de Castanha, as versáteis pupunhas, ora recheadas com roquefort (uau!), ora carameladas, acompanhando garbosamente um assado, que maravilha. Comer bem é um privilégio, não é mesmo?
Belém é conhecida pela excelente gastronomia e quando os restaurantes passaram a reinterpretar receitas tradicionais, percebi que vivíamos uma ocasião especial; nem em sonho temi essas bizarrices, que alguns ainda chamam de “nova cozinha regional” - em detrimento desta.
Experimentos têm limites – do bom senso e bom gosto, só para começar. Lembro do restaurante que não sobreviveu um semestre à arrogância da proposta – rústico pretensioso, ou o inverso, tanto faz – e ao cardápio, repleto de frescuras e pouca excelência. Era ‘um tal’ de perfume disso e buquê daquilo, tantos sotaques esquisitos e invencionices, que resolvi me aventurar num peixe que, segundo o maitre metido a besta, exalaria aroma de maracujá. Cheirava a peixe mesmo, e ainda estava congelado no centro; que lástima. O frango do colega, frio, voltou para a cozinha e retornou torrado. A casa (como tantas outras!) fechou seis meses depois, um alívio!
Claro que escrever sobre culinária é mais fácil que encarar panelas e especiarias. Aliás, “séculos” atrás, quando li o primeiro cardápio do Roxy, vi que dá para escrever um clássico sobre as comidinhas que amamos, quando elas chegam deliciosas. O que pode ser mais interessante que inebriante talharim, imaginoso filé, generosas porções de bacon, portentosas batatas... Além de delicioso, soa incrivelmente divertido; a cara do lugar - uau, de novo! (Um dia, ainda vou descrever pratos em cardápios, anote!)
Nem precisa cozinhar bem (E eu, queridinha, puxei à família e cozinho divinamente, viu?) para temer algumas criações apresentadas com aqueles ares de quem entende tudo de gastronomia e vive fazendo cursos em Paris - ou Cametá, que seja. Cozinha moderna é mais que misturar ingredientes caros, pena que muitos esqueçam esse detalhe. Graças aos céus, podemos sobreviver longe desses embromadores; ainda são muitos os locais onde, além de se comer muito bem (mesmo), tudo o mais vale a pena.
Tenho meus restaurantes favoritos, conheço lugares despretensiosos onde se come feito reis e aplaudo novidades que mantém o bom gosto; mas se você não tem competência para inovar, querida, copie, opte pela simplicidade, vai ser bem melhor... Para seus clientes, principalmente. E por favor, não coloque mais pirarucu, brie, tucupi, açafrão, conhaque, bacuri e macaxeira no meu prato. Pelo menos não ao mesmo tempo. E estamos conversadas.
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Vera Cascaes
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Lá no passado...
Tempos atrás, fui convidada a escrever a saudação de uma turma que se formava. Fiquei me achando muito importante, principalmente quando soube que o texto seria fundo de um clip, coisa que formandos gostam muito. Atendi ao pedido e nem sei como as coisas saíram.
Arrumando meus arquivos – como se isso fosse possível- acabei relendo o texto e vi que o frescor do restinho de juventude ainda conservava a credulidade romântica que me trapalhou os planos, várias vezes. Compulsiva, acabei corrigindo os votos de felicidade e acrescentando algo que hoje sei ser fundamental à carreira de quem quer que seja.
Senhores formandos, jamais deixem que outra pessoa trate dos seus interesses junto aos seus chefes; nem sempre os mais bem intencionados conseguem dizer exatamente o que você diria. Nada (nem ninguém) substitui o olho no olho; e perder uma chance dessas, pode ser perder todas.
Lá atrás, durante a troca periódica do comando da instituição onde trabalhava, acabei cometendo esse equívoco e jamais tive uma oportunidade de esclarecer os fatos.
A verdade é que não tinha nenhuma relação com o novo chefe e, apesar de ser um tanto esfuziante, entrava num surto de timidez diante do homem sério, de voz grave e gestos contidos. Um diretor, em cujo departamento estava subordinada, gentilmente tratou de uma reivindicação fundamental na minha carreira, que tinha tudo para prosseguir na casa. Eu queria muito tocar um projeto que seria lançado em breve.
Hoje, percebo que não era o momento; o novo chefe tinha mil coisas importantes a fazer e mexer na minha sessão, que vinha dando excelentes resultados, seria inconveniente, pelo menos naqueles dias.
Talvez se eu tivesse conversado com ele, pudesse intuir que seria melhor esperar. Quem sabe mostrasse as razões de me sentir subaproveitada por ter cumprido as metas e não ter, de imediato, nenhum novo desafio. Eu queria crescer, e não abandonar o barco – e seu comandante.
Nunca soube o que foi dito. Acabei indo para um setor muito menos produtivo, passei uma enorme temporada fazendo varejo e me sentindo verdadeiramente mal.
Nunca subestime o poder de uma secretária, essa é uma relação onde só você tem a perder, portanto, muita cautela e falsas amabilidades só lhe farão bem; faz parte. A “colega” da superintendência blindou o chefe, manipulando oportunidades de encontro, filtrando telefonemas e correspondências.
Jamais consegui, sequer, falar-lhe. Um belo dia, o destino me fez dar uma outra volta e as distâncias só aumentaram. Ficou uma nódoa, um mea-culpa tardio que me faz engasgar e sem conseguir digerir.
A questão é que não suporto a idéia de ter sido mal interpretada, muito menos de ter sido evitada como fui. Adianta alguma coisa, tantos anos depois, remoer a questão? Não. Nenhuma terapia irá me curar desse cacoete de lembrar só as coisas boas dos demais e jamais esquecer meus próprios enganos. Eu me cobro todos os dias e sei que o caso nunca terá solução. Como uma tatuagem, terei que conviver com isso.
Nada disso teria sentido se não se tornasse uma exemplar história de insucesso; se ninguém pudesse ganhar algo com minha experiência de erros. Portanto, caros calouros que hoje já devem estar bombando por aí, não façam o que fiz. Procuração mesmo, só em cartório, com poderes muito bem definidos; favores, mesmo dos bem intencionados, nunca dão certo, acredite!
O meu ex-chefe? Vejo muito pouco. Quem sabe um dia possa dizer-lhe que gostaria apenas que soubesse de algo que ficou mal esclarecido, séculos atrás. Ou não. Tomamos outros rumos; as vidas e os rios não esperam, correm sozinhos.
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Vera Cascaes
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segunda-feira, 12 de abril de 2010
Desculpe qualquer coisa...

Soube que uma pessoa - que sempre tive em boa conta- ficou chateada comigo, por uma razão qualquer que não consigo saber ao certo, apenas especular.
Não pense que me acho muito ocupada ou superior para tomar conhecimento dessas delicadezas, pelo contrario. Dói muito ser julgada sem culpa formada.
Dizem que a gente deve simplesmente esquecer quem decide tomar distância. Nem sempre é o caso; principalmente quando a gente já viveu mais da metade da vida, é doloroso e lamentável perder amigos por nada. Venha, sente-se aqui que vou contar uma historinha:
Faz uns meses resolvi arrumar armários e fiquei surpresa com a quantidade de coisas que comprei e que não tinham nenhuma serventia. Roupas que trazia para casa sem provar (ou para usar depois daquela dieta que nunca fiz), sapatos com saltos descomunais, inutilidades de cozinha que só servem para atrapalhar a vida. Livros de auto-ajuda, outros com mil maneiras de emagrecer em quatro dias e toda sorte de bijuterias que, em pleno domínio das faculdades mentais, jamais usaria; não em público. A maturidade tem dessas coisas, de repente nos dá oportunidade de rever as bobagens que cometemos quando ainda acreditávamos que os braços seriam capazes de acomodar o mundo e todos os sonhos adiados.
Enquanto encaixotava tudo, foi inevitável imaginar as boas viagens que teria feito sem gastar tanto com o que não me serviria, sob nenhum aspecto. E assim, me dei conta que agimos da mesma forma com o tempo, desperdiçando-o com bobagens, comprando brigas por coisas que não têm nenhuma importância; dormindo emburrados com quem não teve nenhuma intenção de nos machucar, implicando com quem não tem culpa nenhuma da vida não ser como a gente gostaria que fosse.
Entre um susto com um jeans rebordado com lantejoulas ainda com etiqueta, e um par de óculos de griffe (original, o que é uma pena!) escuro demais para minha visão, lembrei também dos que passam maior parte da vida competindo, disputando espaço, mídia, prestígio e afeto com quem, muitas vezes, não toma conhecimento da existência alheia. E finalmente admiti que me resta muito menos tempo a viver do que já vivi e que desperdiçar qualquer coisa, agora, seria loucura. Tempo, então, nem se fala.
Por isso, não liguei para a zanga de quem não quis conversar a respeito; afinal, parece que nossa amizade não valia tanto assim, enfim... E se nem lembro a razão, realmente não foi intencional. Mas mesmo sendo uma romântica inveterada, sei que existem rusgas que devem ser eternas pelo bem de todos, que nem sempre amigos são para sempre e talvez o melhor seja cada qual no seu quadrado. Também é prudente lembrar que, para quem quer riscar um nome do caderninho, qualquer vírgula é ponto, e que família é como suflê, quanto mais se mexe mais desanda.
Tempo. Mesmo sendo precioso só ele acomoda dores e mágoas, ainda que desnecessárias. Não há como apressar o rio ou o fruto que amadurece.
Tempo. Que exige uma dose de paciência enorme, que só se tem com maturidade e altíssimo grau de generosidade. Pois é generoso aquele que respeita o outro, e se mantém distante até que chegue a hora de voltar a dividir alegrias e afetos.
Tempo, que é ardiloso, principalmente com longas ausências, pois pode permitir que você se acostume com a distância, com o telefone que não toca, com o e-mail que não volta. E o que era uma grande saudade, corre o risco de se transformar em passado, enfim.
Então, eu soube que essa amiga está chateada. Talvez eu é que devesse estar, mas sabe?
Já me basta carregar essa pequena mágoa, que dói quando lembro o que já vivemos. Prefiro ficar quieta e pensar que não tenho mais tempo para essas coisas. Mesmo assim, acabei descobrindo que na vida real, nem todos foram felizes para sempre.
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Vera Cascaes
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