quinta-feira, 4 de março de 2010

Que saudade de mim!


Tempo que se foi
Ando com uma saudade danada de mim. É aquela dor, aquele arrastar de correntes de quando a gente sabe que nada vai trazer o entre querido de volta, a morte é irreparável; o tempo perdido também.
É uma pena que a gente não tenha essa sabedoria aos dez, aos quinze anos, quando não conseguíamos prestar atenção em nada além do próprio umbigo e do menino que não retribuía um sorriso cheio de promessas.
Morro de saudade de um tempo que se foi pra não voltar; e se eu soubesse disso, teria tentado fazer as coisas mais bem feitas, ou pelo menos, teria tentado tornar minhas memórias menos dolorosas.
Sinto falta dos almoços no apartamento dos meus avôs, cuja sala de costura aos domingos acomodava uma enorme mesa, cheia de gente falante e feliz. Depois de um almoço farto, a gente comeria o bolo da Linete; com o café viriam os biscoitos da minha avó, cuja receita trazia medidas em pires, que coisa. E era tão bom... Dia de tomar Coca-cola e ver os primos, nossos vizinhos inseparáveis.
Sinto falta daquela sensação de que família não se perde, nem que você faça todas as merdas do mundo. Que as brigas entre irmãos acabarão junto com a acne e o medo da mulher do táxi.
Sinto falta da casa da outra avó, a velhota mais incrível que já conheci. Baixinha, linda feito a Greta Garbo, com cabelos azuis como a caneta Bic. Ela me albergava durante longas temporadas e me deixava ler fotonovelas, livrinhos da Brigitte Montfort, a filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. O Cruzeiro, Querida, X9, Seleções e Coquetel de Palavras Cruzadas também faziam parte da minha diversão, meio incomum para minha idade, é verdade. Sinto falta do leite “embolotado” e do pão das quatro da tarde, da Camões.
Fico lembrando das visitas que fazíamos à família do Dr. Fayal, uma casa enorme na Pedreira onde havia uma máquina de bater açaí. Sinto até o aroma!
O círio, na janela do Dr. Morrisson. Da casa do Luciano e da Ivani, um passeio e tanto até Miramar, onde moramos por uma temporada, que bárbaro. Eu subia em árvores, cochilava no mirante vendo os barquinhos com os remadores que passavam pertinho, andava com os cães da vizinhança, fingindo que eram meus.
As festas eram ótimas e menores. Havia a Barraca da Santa, a Feira da Providência, o jantar de São Judas. Era uma época em que a gente comia de tudo e ninguém tinha essa neura de dieta. Aliás, as mulheres que faziam sucesso eram bem fornidas de carnes e saúde - e a gente ia aos velórios de mortes “morridas” pela idade, já bem entradas nos anos. Parece que quase ninguém morria de bala, de batida de carro, de assalto então, nem pensar. Câncer era uma coisa que não se falava, mas ainda acho que adoecíamos menos, enfim.
A gente visitava os amigos e era uma festa, café e bolo, biscoitos e Guarassuco; tinha a hora de ver fotos de parentes ausentes, de festas familiares. Era hábito “mostrar a casa” aos que ainda não a conheciam. E isso era um gesto de carinho, jamais de exibição.
Na minha rua, a gente esperava o convite para as festas da família Guapindaia, que era numerosa, graças a Deus. Havia sempre banho de piscina e arroz de galinha, que maravilha. Acho que deviam existir cinco piscinas na cidade, se tanto.
Sinto falta do Mosqueiro, quando a gente podia entrar em qualquer uma das casas da rua: todos eram amigos. O jogo corria animado na casa do Curt e com sorte, dava para chegar até a praia e assistir ao espetáculo da Maizé, da Edna, do Acatauassu, do Paes Barreto nos esquis. As pessoas modernas naquela época eram muito mais chiques.
Eu era só uma moleca tagarela, que sempre gostou de estar entre adultos, e não fazia idéia do quanto sentiria saudade de tudo que já foi e não voltará jamais.
Ai, que saudade de mim!

terça-feira, 2 de março de 2010

Os monstrinhos de cada um


O monstro de cada um
Sábio Dr. Adib Jatene, que disse que o que mata não é o colesterol, é a raiva. Preciso lembrar.
Todos nós temos monstrinhos, contidos em celas tramadas pela educação, regras e o olhar fiscalizador dos pais e da sociedade. A gente abafa o grito e a vontade de enfiar a mão na cara de uns e outros; aceitamos que nos digam aonde e como ir, o que dizer e quase o que sentir. Fazemos cara de paisagem, como se tudo estivesse bem; então tá.
Esses bichos que nos habitam são capazes de fazer qualquer anjo passar para o lado negro da força, alimentados com os sapos que empurramos goela abaixo. A obrigação de ser culta, rica, magra, loura e interessante; viagens não feitas ou mal feitas; gente chata que pede atenção constante, potes de vontade de ser amada e emocionalmente equilibrada; e o pior dos combustíveis: essa estupidez que agora virou comportamento comum. Ninguém diz obrigado, pede licença para passar trombando na gente, ou responde com gentileza perguntas banais. Quase ninguém dá passagem no trânsito (principalmente mulheres), muitos acham que é só ligar o carro e acelerar (principalmente homens) sem olhar quem vem passando. A maioria distribui patadas por qualquer bobagem e assim galopa a humanidade.
Dizem que a gente deve arejar “a jaula” de vez em quando; meu sótão é vizinho do teclado, um perigo: posso até engolir, mas vou acabar escrevendo...
Às vezes nem precisa ser uma coisa assim, muito importante. Meus monstrinhos se alvoroçam com miudezas e me obrigam a um esforço enorme para mantê-los longe de cristais e cristaleiras.
Algumas amigas também têm problemas com seus instintos, nas mais diversas situações. Até a Jô -uma criatura que só não é santa porque é evangélica - foi mais uma das vítimas da “Nazista do Bufê”.
A famigerada mocinha, além de servir, por muito favor, uma (e só uma!) colher (modesta) de camarão (só o entulho) ainda tirou sarro. A mesa estava vazia, minha amiga veio “na contra mão” e não viu as plaquinhas com o nome dos pratos... “O que é?”, perguntou toda animada. “Bacalhau, não está vendo?”, rosnou a dita, apontando a identificação com a colher. Humilhada, Jô ainda foi cordata: “Desculpe, achei que era peixe”. A resposta veio mais atravessada: “Que eu saiba, bacalhau é peixe!”.
Jô conteve os monstros, não as lágrimas. O que era festa virou aguaceiro.
Confesso que só de ouvir, alguns macaquinhos pularam. Como assim, cara pálida?
Indaguei um maitre sobre esse costume antipático. Acho que a garçonete deveria estar gentilmente à disposição de quem precisasse de seus préstimos. Peixes inteiros são difíceis de servir com rapidez, concordo. Sem titubear, ele me disse que o problema é que os convidados “são muito mal educados e catam os camarões e o bacalhau”. Como é?
Mal educados? Agora é assim, qualquer um acha que nos pode “educar” e ainda dar uma palmadinha? Que tipo de educação tem quem não respeita os convidados? Espera aí, que fiquei bege. Só em Belém a gente atura essas coisas... Enquanto tomo maracugina, imagino como se sentiria o dono da festa, que gastou horrores, sabendo que a “mocinha” contou camarões.
Fui levar o carro para trocar óleo, verificar pastilhas e amortecedores. Ligaram, dizendo que era necessário trocar as buchas da bandeja. Ok, podem trocar.
Cheguei as seis e o rapaz me disse que não fizeram o serviço completo porque ainda dava para “aguentar mais um tempo”, que as buchas estavam “no começo do problema”. Em suma: não deu tempo e eles resolveram me enrolar, pois acham que podem. Todo mundo pode tudo, é o caos!
Lembrei do Dr. Adib Jatene. Contive os ímpetos e resolvi fazer o exercício de respiração do Gaiarça. “Que ódia!”.
Dá até certo alívio, saber que não sou a única a ter que segurar a macaca diante de tanta gente que pensa que pode fazer qualquer coisa.
Mas até quando, é que eu não sei.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Como a escova e a privada.






Pensei que já tinha visto “de um tudo”, mas sempre haverá um mau político – ou a esposa de um - para mostrar que se pode ir mais baixo. Lama? Mais, meu caro, e seja lá onde isso for, fede e muito!
Arruda foi “em cana”. Lembro quando a gente só usava essa expressão com bandidos comuns, da laia do finado Ninja - como se bandidos pudessem ser diferentes, enfim. Mas o caso é que a história recente comprova que os “incomuns”, os bandidos por opção, são os piores. Ninja nunca bancou o honesto, nem foi, suponho, candidato a nada. Os “engravatados” vivem se fazendo de bonzinhos para ganhar seu voto.
Por muito tempo Arruda disfarçou-se de político moderno e competente. Veio a Belém e recebeu nossos salamaleques (melhor pular essa parte) e fingindo-se recuperado da molecagem no painel de votação do senado, apareceu na Veja, dando receitas de como governar com austeridade - que descarado. Agora posa de bíblia na mão, querendo perdão.
Arrependimento de cara de pau é assim, só aparece quando é flagrado, adverte o colega, duvidando se a maioria não faz a mesma coisa, de uma maneira ou de outra. Diante da minha incerteza, argumenta que poucos sabem quanto o governador ganha e desconfia que a Receita não faça aquela continha de taberna de português, na base da entrada e saída. É, acho que não faz mesmo - ou a cadeia teria cotas para a classe.
Dizem que corruptos têm dois hábitos em comum: negam o crime, mas não resistem a ostentar a riqueza ilícita. Acrescento que a maioria acaba se envolvendo com um tipinho de mulher que não deixa dúvidas sobre os próprios. Eles não têm só cara “daquilo”, são mesmo e parecem felizes. “Aquilo” pode ser qualquer substantivo ou adjetivo que denote desqualificação ou adereços de cabeça, você escolhe.
Pouco antes da Operação Caixa de Pandora acabar com a farra do panetone, o então Secretário de Educação do DF (que deboche!) era assunto no meio social de Brasília. O “creme de La creme” (indigesto!) que se arriscou no casório de José Luis Valente, teve que cumprimentar a noiva nua, só com uma pintura (brega) sobre seios e tronco, e um saiote que parecia a toalha de organza do bufê, amarrada na cintura.
As alianças de casamento chegaram a bordo de um helicóptero, arrematando o evento (de péssimo gosto) com o acinte de quem esbanja; tudo na maior galhofa, basta checar o youtube .
Se o enlace tivesse ocorrido na Uniban... Não daria em nada, a noiva estaria desfilando ao lado da tal da Geyse – Que país é esse?
(Olhos as fotos e fico sem acreditar...Que família é essa?)
Bom lembrar que semanas antes, em Brasília, o professor de inglês Márcio Barrios foi afastado por usar uma música da americana Katy Perry em uma das aulas sobre verbos no passado, presentes na letra que fala de uma jovem que bebeu e beijou outra garota. O contrato do professor não foi renovado, pois o secretário queria respeitar a linha pedagógica: educar é dar exemplos. Então tá. (Quanta hipocrisia!)
Os trajes da noiva foram um desrespeito também à Valéria Valenssa que, na pele da melhor das Globelezas, vestia lantejoulas e algumas pinceladas, com louvor. Vi a musa de perto, escultural e majestosa, numa nudez que não constrangia por estar no momento e local adequados. A Globeleza jamais casaria assim; mas é uma questão de classe – você tem ou não, pouco importa a idade ou o físico. Para completar, a esposa do secretário é uma bela mulher madura, com cintura grossa, barriguinha e “papada”, mamas sofrendo a ptose que os anos e a gravidade causam a todas nós.Bem vestida, estaria linda.
Pergunto-me porque uma mulher assim precisa provar que ainda é “gostosa”- e acabar vulgar, ridícula e risível? (vEJA A a cara dos filhos, nas fotos. Imperdoável!) Porque não ser uma noiva madura, linda e loira como a maioria gostaria de ser - e não é? Não consigo entender, mas acho que nasceram um para o outro. Arre!

Feijão e doença de Chagas?




NOTA DE ESCLARECIMENTO – FEIJÃO E DOENÇA DE CHAGAS



Está circulando um e-mail com a falsa informação sobre doença de Chagas veiculada pelo feijão. O pesquisador Franz Salces Ruiz, da empresa Green Technologies – INCAMP/UNICAMP, que aparece na foto do e-mail como suposto pesquisador da – também - falsa Universidade (UNIUPS-GO) que estaria pesquisando a doença, nos enviou seu esclarecimento.

“Lamento muito que algumas pessoas, talvez querendo ajudar, divulguem este tipo de informação que não procede. Além de utilizar imagens não autorizadas, estão causando pânico na população [...] Os resultados, além de não terem fundamento científico nenhum, devem prejudicar consumidores e produtores deste importante alimento do cardápio diário da população brasileira [...] Esse tipo de “denúncia” está sendo propalada de forma não ética e totalmente irresponsável. Barbeiro não se alimenta de grãos secos, como sugere uma das fotos. Os furos nos grão são típicos de larva de caruncho. O “inseto” (pode não ser inseto) ao que parece, pode ser mais um carrapato do que um barbeiro (vejam e comparem as fotos que se encontram na Google). Por fim, se for barbeiros que (durante o dia) se refugiaram em lotes de feijão, e tiverem deixado fezes contaminadas com o tripanosoma, a cocção (especialmente em panela de pressão) não deixaria o microflagelado vivo ou ativo. Para garantir a inocuidade do produto in natura, adquirido por acaso de um lote contaminado (com o barbeiro, fezes do barbeiro e outras sujeiras), vale a regra comum de lavar os grãos antes de levar para a panela, prática semelhante à que deve ser aplicada ao se preparar arroz, lentilha, ou qualquer outro grão in natura. É “denúncia” para alguém se divertir às custas de pessoas incautas. Favor desfazer o que possa ter sido feito com essa mensagem.”

Vejam a diferença: a foto da mensagem é a do meio.
caruncho é a foto 3
barbeiro é a foto 1.
Para pesquisar :
http://www.quatrocantos.com/LENDAS/370_feijao_doenca_de_chagas_cruzi_triatoma.htm

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Carta da Amante (Publicado em 30/10/2007)


"Ricardo, querido.
Faz pouco você estava aqui em casa e eu já encontro coisas para dizer-lhe.Pois é.
Hoje eu percebi que precisava ser rápida, que é necessário falar um pouco sobre a sua proposta.
Nos últimos tempos você tem sido quase tudo na minha vida. Mas esse ‘quase’ faz muita diferença.Quando dois amantes se encontram depois dos quarenta, as coisas são diferentes. Algumas são definitivas, outras, nem tanto.
Sei que, no início, cobrei muito que você assumisse a sua ‘quase separação’ da Luiza. Nossas vidas são regidas por quase, mais ou menos, assim assim...
O tempo me fez aceitar e, sem trocadilhos, ‘quase’ agradecer que vocês permanecessem casados, apesar de mim.
De repente, depois de três anos de ‘quase termos assumido nosso caso’, você me participa que ela pediu a separação e que você vem morar comigo...Emudeci. E você, claro, achou que era alegria.Não, Ricardo, não era nada além da surpresa.
Nesses anos, fui me acostumando a não ter você nos finais de semana e ‘ter que’ preencher meu tempo; como você me estimulava a fazer para não perturbá-lo choramingando saudades, num celular que raramente atendia.
Tornou-se um hábito poder sair, encontrar amigos e jogar conversa fora, certa de que você não teria um ataque de ciúmes.Aprendi a gostar da cama vazia e da exclusividade do controle remoto depois que você saia, apressado, inventando desculpas para uma Luiza desconfiada e perigosa.
Cheguei a invejar a perfeição com que ela tratava suas roupas, mesmo sabendo (ela sempre soube, Ricardo!) que você as usava com ‘a outra’. Para ser franca, eu jamais passaria uma camisa sua, mesmo que você fosse o homem mais fiel do pedaço; coisa que nunca foi com sua esposa, porque seria comigo?
Eu reclamei de alguns hábitos seus e você me disse que ela convivia com isso numa boa.
Daí passei a imaginar se ela não seria a esposa ideal para você? A esposa ideal para um amante bem tratado...Cruel? Cínico? O mundo é assim.
Eu não suportaria o tsunami que o acompanha a cada banho, toalhas jogadas num canto e cuecas que você imagina possuírem um dispositivo de auto lavagem, se amontoando no cesto.
Aa sonecas que você tira no sofá, sem camisa...querido, só no sofá dela. Costas suadas ficam bem à borda da piscina e olhe lá.
Falando em piscina, eu não sou exatamente o tipo que prepara tira-gostos e vai apanhar a cerveja, o jornal, o telefone, o Engov...Não tive marido que me deixasse esses cacoetes, eu era a amante, lembra?
Não sei porque lembrei da nossa última discussão quando você me disse que sua ‘esposa’ seria incapaz de traí-lo, numa referência clara ao fato de ter iniciado nosso relacionamento quando ainda era comprometida.
Sabe, você deixou claro que ela era o tipo ‘esposa’ e eu...Bem, eu era a sua...Ah, deixa pra lá, pelo menos eu não tenho que suportar seu mau humor de domingo.
A ‘questã’, como diz a sua senhora, é que eu levei isso à sério.
Talvez explique minha mudez nervosa quando você, senhor de si e pretensamente de mim, informou-me que passaria a ser a sua cara-metade assim que ela o colocasse fora de casa – dessa vez definitivamente.
Eu o amo demais, só não mais do que a mim mesma e isso é mais um ‘quase’ nessa nossa quase história de amor.
Prefiro ficar só, livre para passear; dormir os finais de semana inteiros é preferível a ter a companhia do Júnior, querendo montar aeromodelos na minha mesa de jantar, circulando com dedos sujos de chocolate.
Não quero ser sua mulher, você não faz meu tipo de marido, lamento. E eu, Ricardo, não sou o seu modelo de esposa, pode acreditar. Jamais concordaria que você desaparecesse de segunda a sexta, numa academia que ninguém sabe, ninguém viu.
Logo no começo, eu teria topado e estaria uma craque no suflê de queijo.
Quero muito continuar nossa relação, mas do jeito que está, um ‘quase’ casamento.
Lamento que ela tenha tomado a decisão que você adiou tanto.
Mas você é um homem forte e vai conseguir arrumar um cantinho pra chamar de seu.
Ou quase. O meu...é só meu, anjo.
Finalmente, meu amor, não se culpe tanto por tudo isso.
A ‘depressão’ que levou a Luiza a optar pela separação, chama-se João, é colega de faculdade e quase da idade dela. Quase.
Aliás, ele estava naquela excursão, quando ela foi para BH e a gente ‘quase’ decidiu assumir e morar junto, lembra? Mas acho que você, iluminado como sempre, preferiu esperar mais um tempo.
Bom, isso não importa. Na segunda, te espero como sempre, depois do trabalho.
Um beijo no seu coração,
Nádia.”

Imagem:René Magritte-OS AMANTES,
Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.


COMENTÁRIOS ORIGINAIS:
Edyr Augusto disse...
Muito bom. Na medida.
Abs

Carmen (sem filtro) disse...
A-do-rei!

Embaixo d'água (Publicado em 30/9/2007)


Tomar um banho de chuva, um banho de chuva...


São doze e trinta de quarta-feira. Estou presa num engarrafamento gigante desde que um temporal enorme começou. Quase duas horas sem conseguir sair do Reduto.
Tento manter a calma – afinal, já perdi a reunião, e, com certeza o resto do dia está comprometido.
Uma caneta meio grudenta, derretida pelo sol e começo a rascunhar no verso da “Dieta da Proteína”; nunca vou conseguir fazer mesmo.
Tento imaginar o que está ocorrendo com Belém , essa cidade tão linda, que sofre tanto nas nossas mãos.
Passam boiando sacolas com lixo, numa propaganda negativa dos supermercados do bairro. Uma romaria “pluvial” de cocos, garrafas pet, laranjas, um assento sanitário quebrado, o tronco do que já foi uma boneca, caixas de papelão...
Somos todos, motoristas, lixo e ratos, ribeirinhos, ao sabor das águas que reclamam por onde escoar.
Subo no estribo do carro, tentando avaliar a situação. Atrás, um motorista de uma pick-up, dessas que fazem a gente se sentir um pontinho e eles se acharem donos da rua, grita: "Senta aí, tia, e acelera!”
Pena é que não disponho dos efeitos especiais bíblicos.
Não existe um único guarda, para colocar ordem nesse caos. Carros pequenos pifam, literalmente afogados. Mulheres parecem desesperadas e homens, muito aborrecidos.
A única coisa que sei é que não dá para fazer nada, a não ser pensar em como seria bem vinda, uma grande campanha para mostrar a nossa população, o que acontece com o lixo que despeja pelas ruas.
Engraçado é que, como todos temos um pé numa aldeia qualquer, adoramos banho; não é raro encontrar pessoas com os cabelos respingando, cheirando a limpeza. Mas com o lixo que deveria ser privado, não temos pudor ou educação e o tornamos público.
Mansões sem calçadas decentes, jogam nos “pés” das mangueiras, todo tipo de quinquilharia, casas são varridas e voam pela porta migalhas e restos dos nosso dias de porcalhões. Quem nunca viu uma boa residência , com o esgoto de pias, lavatórios e chuveiros, sendo despejado diretamente na vala, onde passam a navegar restos de arroz, feijão, macarrão e espuma de sabão e shampoo? Um espetáculo de falta de urbanidade. Desde que escoe para longe de casa...dane-se seu itinerário.
Fomos acostumados a reclamar da prefeitura “que não recolhia o lixo”. E agora, que ela recolhe? “Maiê, acabei!”
Nem se contasse com um exército de garis, jamais daríamos conta de tantos sugismundos, que aparecem em todas as classes sociais.
Sabe aquele tipo que leva a sacola (sempre ela, a infeliz) com todo tipo de restos, até o terreno baldio mais próximo e ainda acha que está fazendo a sua parte?
O caminhão vai passar ( diga-se , na minha rua, por volta das vinte e três horas...não falha!) mas para se livrar do incômodo, ele atravessa e joga o saco no canteiro, onde as ratazanas acham “de um tudo”. Na Pedro Álvares Cabral é assim. Em outras ruas, também.
Os berros de um voluntário me fazem voltar a realidade. Toma para si a responsabilidade de orientar os carros para retornarem de ré, até a Benjamim e dali, buscar a Rui Barbosa.
Uma das características “patognomônicas” do paraense é não se importar (muito) com uma chuvinha. Alunas de um colégio que tem nome de escola de teatro, passam, provavelmente ainda irão tomar dois ônibus até chegar em casa, com gripe e frieiras. Rapazes de outra escola as agridem, com palavrões e sem nenhuma razão aparente, a não ser a alegria, apesar da chuva.
Por que a falta de educação? Estou desanimada. Não com a chuva, eu aprendi a viver com o nosso clima, sou quase um anfíbio. Meu desencanto é não conseguir imaginar uma cidade melhor, enquanto nós todos não tomarmos umas aulinhas de civilidade.
Pena. Belém não merece.

T.P.N

(Chuva, de Oswaldo Goeldi)


Ao contrário do que parece, não sou esfuziante; não o tempo todo.
Tenho momentos de introspecção, ouço o que me diz o silêncio, coisa freqüente no final do ano.
É, meu amigo João Carlos, você não está sozinho nessa vontade de chorar sem motivo, nesse pensar nas diferenças, afinal, o Natal é lindo, mas nem assim deixa de ser a festa mundial das desigualdades.
E pessoas mais sensíveis pensam nisso, entre uma compra e outra.
Ontem voltava para meu bairro, o Marco. Num farol, um senhor, com roupas puídas esandálias quase ralas, atravessava a rua, sob a chuva, uma sacola com não mais de três pães.

Com uma das mãos acenava , garantindo que estaria em segurança, pedindo a passagem (que tinha direito), na faixa de pedestres.
Só a cena me fez soluçar. Era o contraste da humildade com a intolerância do trânsito, onde covardes se portam como valentões.
Chorei pela chuva, pelos pães, por nós.
Fui tomada pela solidão dos que não foram chamados para a festa do amigo oculto.
Nada é pior que a sensação de estar sobrando.
Dos que não estavam nos shoppings garimpando um presente por nem terem uma lista.
Deve ser um horror, pior do que se desculpar o tempo todo, por ter tantos a comprar que serão “apenas lembrancinhas”. Nada que se receba no Natal será “apenas” uma lembrancinha, e sim um enorme aviso, para não esquecer jamais, que alguém lembrou de você.
Tensão Pré Natalalina, esse fenômeno que nos faz derramar lágrimas e até pensar em quem adormece com fome ou dor, abateu uma amiga, exemplo de fortaleza, que pediu licença e, bravamente, chorou até borrar o rímel.
Sentia-se cansada de tentar conciliar o inconciliável, de manter-se de pé, quando a vontade é desabar.
No meio dessa roda viva de comes e bebes, mais bebes do que comes, de carros novos, DVDs, promoções, viagens para paraísos que provavelmente nem saberei localizar, encontrei uma das razões desse “tilt” que Noel traz a reboque.
Estamos todos no mesmo vagão desse trem, mas nem sempre conversamos, trocamos idéias ou sinceridades. Nem sempre pedimos licença para chorar de apreensão antes que sejam lágrimas de mágoa ou raiva.E pior, sempre existe alguém para levantar uma possibilidade do que não existe, iniciar o tricô dos mal-entendidos.
Ufa! No final do ano, a bagagem de mão está pesada e precisamos aliviar a carga. Deixar tudo num canto para iniciar o próximo de mãos quase vazias e forças para arrastar um container.
Essa é a vida moderna, tu-do que pedimos a Deus.

Só não lembramos do ônus: reuniões de condomínio, descontos nos contra-cheques, vestibular da filha amada, malha-fina, cheques que nem Ele sabe quando conseguiremos descontar, shopping lotado de pessoas indecisas, churrascos calorentos, carros estranhos na nossa vaga, o açaí que azedou...Tudo parece acontecer em dezembro!

Não existe herói que sobreviva com cara de super ou algum caráter.
Ontem eu chorei, sim. Até perder o fôlego e a paciência, que o filme na HBO estava mais interessante, e sabe?, não sou muito boa com essas depressões.
Peguei o telefone e desabafei com quem deveria, deixei fluir minhas incertezas e finalmente vi que tudo se esclarecia. Acabei com os ruídos da minha comunicação.
Não sou boazinha, pelo contrário, sou uma peste. Tenho meus momentos “Clodovil” e quando elimino alguém, é de caso pensado, favas contadas e conferidas.
Jamais voltei atrás pela certeza de saber que gangrena é caso para amputação e ponto.
Mas estou mais sensível; é o clima nublado, o calor intolerável, o céu em lágrimas e os meus hormônios enlouquecidos.
Resguardo-me feito uma ostra tagarela, isolada, mas teclando compulsivamente.Lá fora, a chuva, o calor, e a agitação, me lembram que o Natal vai chegar. E passar, amém.