quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Confraternização do Escritório (Publicada em 15/9/2007)










O Guia de Sobrevivência ao Natal em Família, aqui do nosso blog, saiu na frente inclusive da Veja e do Fantástico. “Toma-te”!
Essa é a época de confraternizações, das mais improváveis, e isso exige bom humor, afinal, sorrir só faz bem. Voltemos a festinha, então.
É certo que seria melhor você estar em férias, mas agora é tarde.
Vai fazer o quê, santa? Sair mais cedo? Vai pegar mal. Relaxe, são só duas horinhas.
Bom...Não esqueça de seguir as regrinhas.
Pontualidade: mais importante que a hora de chegar é a de sair. Nunca seja o último, muito menos o primeiro a enfiar o pé no balde. Amanhã, só lembrarão desses dois.
Roupas: vá como os demais. Estar muito sexy numa ocasião dessas, é cortejar o perigo e deixar o chefinho mais afoito.Ou arranjar uma clientela nada agradável, meu bem!
Bebida: calma! Nada pior do que um pileque entre amigos ocultos ou inimigos declarados.Ou vice e versa, tanto faz.
Se estiverem filmando, esqueça. Fique no suco de acerola, é mais saudável.
E pelo amor de Deus, não amarre a gravata na cabeça, você não é o Rambo nem o Daniel-san, viu gafanhoto? Gafanhoto? Acorda , Gafanhoto!
Network: aproveite para manter a rede de contatos. Cumprimente principalmente os que fingem que você já foi exonerado. Mostre que apesar da torcida contra, você vai sobrevivendo.
Lembre que, mesmo depois de tomar todas, seu chefe continuará sendo seu chefe, quando se livrar da manguaça. E vai ficar invocado, se souber que você colou um cartaz nas costas dele.
Romances: os grudentos, (aqueles que falam pegando nas suas mangas e parecem testar o tecido das suas roupas), nessas festas, costumam piorar. Mantenha o amigo gay ao lado, ele sempre será a sua melhor companhia!
Só as mulheres correm riscos? Ledo engano. Aquela senhora encalhada, que vive suspirando, vai estar cheia de amor para dar... pra você, é claro!
Vai querer? Então...
Fique ao lado da colega com o amigo gay, que são os mais felizes da festa. Assim, ninguém sabe quem está comendo quem e você se livra da marcação.
Se acontecer “um clima”, melhor não deixar pistas. Quando a ressaca acabar, vai ser mais fácil negar. E negue, querido, negue até a morte!
Amigo Oculto: não tenha expectativas. Um cd de pagode ou uma gravata do Mickey podem não ser sua paixão, mas releve, afinal, poucos vão acabar satisfeitos, mesmo.
Amigo oculto é a forma de garantir que as pessoas que não se gostam muito, se gostarão menos ainda, depois do natal.
Comida: a torta americana de bacalhau com batata palha, nem é tão ruim. O problema é que é obvia. E a Floresta Negra da mãe da telefonista, você já conhece de outros carnavais. Quer dizer, de outros natais. Entre no clima e mate a fome, para agüentar o vinho de promoção que é uma porrada, mesmo: na hora você fica tonto , depois morrendo de dor de cabeça.
Elogie tudo, afinal, são sempre as mesmas vítimas que ficam com o abacaxi de providenciar a festa, e só por isso, já merecem um abraço.
Discurso: evite, ninguém presta atenção, mesmo. Não converse quando outros estiverem falando, em especial o seu chefe. Mantenha uma boa postura e concorde com a cabeça – isso, assiiiim...Balance a cabeça como se dissesse “verdade...”, feito vaca no presépio.Chefes adoram isso.
Dança: só o convencional, por favor. Nada de boquinha da garrafa, passarinho quer dançar ou a dança do sapo cururu. Isso não dá certo.
Karaoquê: pensando bem... Será que não dá para tirar férias, mesmo?

COMENTÁRIO ORIGINAL:

Maria Traíra


Foi correligionária de carteirinha e vale transporte.
Capaz de gestos significativos, partiu com uma enorme cesta de café da manhã para estar mais próxima de um figurão, que passava por momento delicado.
Queria ter fama de útil e íntima de poderosos.
Não havia data especial em que não sacrificasse a família para estar ao lado daqueles a quem servia, com a lealdade de um cão pouco confiável.Comparação injusta, cães não votam, não traem, enfim.
Oferecia as iguarias favoritas de cada um, tentando agradar aos amos, que esses eram vários, sempre.
Aos poucos, desenvolveu a paranóia que estaria sendo vigiada, por causa das suas tarefas tão importantes. Ela sabia demais!
Ouvia clics no celular e identificava uma respiração ofegante no telefone. Tudo estava grampeado!
Era capaz de rasgar uma carta e distribuir os pedaços por dez lixeiras diferentes, e não achava isso nem um pouco estranho. Fazia a mesma operação com cartões de crédito fora da validade. Um pedaço na lixeira da sala, outro no banheiro...os demais, ía espalhando pela Arterial 18.
Durante a disputa eleitoral, listava os simpatizantes da oposição, para informar sabe-se lá a quem. A verdade é que ninguém deu-lhe muita importância ou atenção, nem aos seus relatórios estratégicos, que se multiplicavam em pastas transparentes, todas numeradas.
Quando as urnas elegeram a tal da oposição, ela surtou de vez. Acusou as amigas de corpo mole e caçou culpados. Repetia histórias mirabolantes de sabotagens e perseguições.
Parecia a doida de carteirinha da crônica do Ed, mas sem aquele charme e nenhuma veia artística. Essa era uma maluca muito chata.
Gaguejava constantemente e passava dias rasgando papéis inúteis, que chamava de documentos sigilosos.
Uma tarde, ao carregar a bandeja até a casa de um dos seus tutores, descobriu que lá já não havia ninguém, há mais de mês.
A família tinha viajado para Fortaleza, onde já estava instalada na praia de Iracema, sem deixar o novo telefone.
Sentiu-se órfã, de repente.
Não haviam dito até logo, obrigado ou qualquer coisa simpática.
Logo com ela, que era quase da família. Mas “quase” é que faz a diferença, queridinha!
Ficou uma semana em estado catatônico, até que amanheceu com um novo gás, uma nova energia e um brilho estranho no olhar de Pedro Collor.
Achava que Deus havia lhe enviado “sinais” e que agora sim, ela entendia todos os acontecimentos.
Colocou uma camiseta branca sobre o jeans e rumou para a loja de cds, buscando um exemplar de “Vermelhão”. Na volta, procurou o livro da Marilena Chauí e do Frei Leonardo Boff. Na agenda, os contatos dos companheiros.
As lentes cor de hortênsia foram para a gaveta, junto com quilos de correntes douradas e os escarpins de salto agulha. Ela agora era uma nova mulher. De tênis.
Sabia tudo sobre distribuição de renda e pretendia fundar a ONG Mulheres Abandonadas Empreendedoras do Jurunas e a Associação dos Comerciantes da Rua do Arame com Passagem São Benedito.
Deixou de freqüentar o La Vie en Rose e tornou-se íntima da muqueca da Apinagés, sempre despojada, com o look “crédito universitário”, brinco de pena e cordinha sebosa no tornozelo.
Na última vez que a vi, estava provando um terninho branco, com camisa vermelha.
A filha comentou que parecia o Zeca Pagodinho.
Mas ela suspirava, “Vou para Brasília, minha filha, me aguarde”.

COMENTÀRIOS ORIGINAIS:
26 de Setembro de 2007 20:57
tania_guimaraes3 disse...
Vera, achei essa sua "Maria Traíra" muito parecida com algumas muitas de nossas conhecidas... rsrsrsrsrs!!!
Mas independente de qualquer coisa, vc está de parabéns! É a primeira vez que acesso seu blog e já virei freguesa assídua viu?!
Beijos, beijos...

Tânia Guimarães

Com ou sem pimenta? (Publicado em 7/9/2007)


Querida “Dona de Casa”,
Perdoe-me a demora, mas realmente não sabia se deveria responder seu e-mail.
Conselhos, você bem o disse, é coisa para profissionais ou quem nos conhece muito bem.
Não me encaixo em nenhum dos dois, minha coluna não trata de relacionamentos, não sempre. Entretanto...Posso ser absolutamente franca com você e isso talvez a ajude.
Você se queixa da falta de tempero no casamento e, como toda esposa entediada, culpa o maridão, o que, convenhamos, é muito mais fácil mas não resolve nada.
Cá entre nós duas: quase sempre a mulher detém as rédeas dos relacionamentos e só não exerce esse poder por medo, insegurança ou desconhecimento, mesmo. Ou por tudo isso, compreende?
Você me parece muito preocupada com ‘o que ele vai pensar’ desses seus desejos...Como se fosse um desconhecido.
A maioria dos homens agradeceria aos deuses do olimpo se suas esposinhas deixassem o avental todo sujo de ovo numa gaveta, quando eles colocassem os pés em casa. Pelo menos quando as crianças já estivessem dormindo, sacou ?
Todo mundo tem seus macaquinhos no sótão. Se não os deixa livres, de vez em quando, um dia começam a quebrar tudo;daí, ...Bem, essa parte você já conhece.
Vamos ao que interessa.
Parta do princípio que ele também deve estar saturado desse relacionamento ‘diet’, morno e previsível, depois de dez anos.
Como diz a Ana Maria Braga: Acorda, mulher!
Muitas de nós valorizam tanto essa coisa de reputação, querem tanto o cetro de mãe, esposa e dona de casa perfeitas, que acabam sacrificando a porção ‘safadinha’ que todas temos e que deve ter encantado seu homem, tempos atrás.
Você detalhou (com esmero) tudo o que sente falta ou gostaria de experimentar. E eu pergunto, amiga: ele sabe disso?
Tímido, com a sogra morando junto (isso é grave...), e toda essa carga de ‘moralidade’ que a família (você, inclusive) impôs, de repente ele pode estar abafando as próprias fantasias, deixando de erotizar o que já deveria estar ‘pegando fogo’.
Ele vai adorar ouvir, baixinho, o que e como você quer, acredite!
Compre sim, a calcinha fio-dental que ele adorava e você jogou fora, com medo da sua mãe ver. Afinal, você ainda é uma adolescente ou já cresceu? Se ela remexer suas gavetas, merece encontrar bem mais do que um indício de que a filha vai muito bem, obrigada.
Outra coisa: celulite é coisa que só mulher presta tanta atenção. Mesmo mais gordinha, você continua sendo a mulher dele, agora...de ‘calçola’, sei não, não tem quem agüente. Conforto tem limites, queridinha!
Lembre: quando os dois gostam, qualquer coisa é mais que bom, é ótimo!
Não perca mais tempo e faça um favor a você mesma: corra para o salão, pinte as unhas do vermelho que ele adorava...Capriche da depilação, não esqueça nada.
Tire os shorts e a camiseta decotada da gaveta, tome um belo banho, use a tal colônia que ele sempre lhe presenteava. Um gloss, duas gotas e veneno e não mais...
Desligue a TV e troque a cor da lâmpada do abajur.
Tenho certeza que ele entenderá os sinais.
E vai adorar que você assuma o comando dessa nave.
Você sempre soube como fazer as coisas, meu bem, só falta um pouco de...apetite.
E fala sério, quem teve gêmeos precisa de coragem?
Assuma sua porção ‘quenga’ sim, e daí? Pense bem, isso é só entre vocês.
E só para a gente rir um pouco...Você realmente acha que as outras não têm fantasias, fetiches e essas coisas que mulheres saudáveis têm e a-do-ram?
A diferença é que algumas as colocam em prática e outras...Bem, essas passam a vida aprimorando outra personagem, enfim.
Sua pele vai ficar ótima e ele...Ah, depois você me conta!

Adoro Casamentos (publicado em 5/9/2007)


Não existe ser humano que, em algum momento, mesmo em passado remotíssimo , não tenha pensado em brindar um grande amor, com a maior prova de que a paixão é avassaladora.
Casar-se, desejar estar ao lado do outro pela manhã, quando só as atrizes da Globo são encantadoras; dividir os maus momentos, já que os bons são moleza; não existe declaração maior de amor. Que sobrevive, mesmo quando o divórcio chega ou a gente cai no mico de dividir as tralhas, cds e -isola pé de pato, mangalô três vezes- pode cometer o despautério de trocar farpas e injúrias. Depois passa. (Depois que ambos estiverem namorando e felizes!)
Fica aquela boa recordação, já que pessoas inteligentes deletam tudo que não valha a pena ser lembrado, amém.
Todo casamento é para sempre, não importa o quanto dure, essa é a verdade.
E porque não comemorar, com a pompa e a circunstância que o momento exige? Por causa daquelas pessoinhas medíocres que irão comentar “De novo?”? Porque você ainda não tem certeza de que ‘esse’ será para sempre?
Ora, vá logo reservando o salão. Essas criaturas infelizes vão falar de qualquer modo. E quer saber, as encalhadas, que não casaram uma vezinha sequer, são as que mais se incomodam com quem é feliz. É compreensível, não? Elas lá, numa secura to-tal e você aí, lindésima, distribuindo sorrisos e convitinhos...Releve, meu bem, releve.E ore para Santa Rita que ela é chique, poderosa e merece, viu?
Pode anotar; ninguém tem certeza se o “sempre” vai durar mais que o barzinho da hora ou o botox da Marta Suplicy.
Faça como a ministra, lembra? Ao contrário, claro, ela é sexóloga mas você é esperta,
Os chipanzés, os golfinhos, os leões da montanha, Romeu e Julieta, John Lennon e Yoko, os cowboys de Brokeback Mountain, a Ellen de Generis e a Anne Heche, e até Charles, um quiabo, e a Camilla, uma osga; a Luana Piovani e Rodrigo Santoro, a Luana Piovani e Dado Dolabela, a Luana Piovani e o Ricardinho Mansur... E o Rodrigo Hilbert, e o Marcos Palmeira, e o Caco Ricci, e o Paulinho Vilhena, e o Cristiano Rangel , e o Guilherme Fontes (ninguém é perfeito!), e o João Paulo Diniz, e o ..(Ah, a fila anda!Mas pra ela anda numa velocidade...só embarcando nesses aviões, não é mesmo?)
O certo é que todos, um dia, se apaixonaram. Nós também, né?
Se já encontrou alguém que balança a cristaleira e faz sua pele ficar di-vi-na...Aproveite. Quem ou o que é, só diz respeito à você, acredite!
Moda, nessas alturas, faz quem pode. E só pode, mesmo, quem é feliz, querida!
Que interessa se você estiver madura para um vestido branco com um baita véu? Isso é bobagem. O que importa é o que você quer, é o seu sonho, o que faz os olhos brilharem, apesar do cerimonial, apesar do preço do bacalhau e daquela banda que agora “se acha”.
Não importa se o casamento dos seus sonhos incluía uma produção estilo Vegas com Elvis Presley cover como testemunha. Um luau com tochas e muitos abacaxis. Uma daquelas superproduções dignas de duas páginas sociais, cascatas de bem casados e outros ti-ti-tis.
Ou uma reunião íntima, com os amigos mais chegados dançando todas dos anos oitenta e muitos beijos rolando no salão.
Ou continuar namorando e ficando, sem se preocupar se vai ser na sua ou na casa dele.Casamento é isso, é estar de bem com alguém.
O que importa é o que você quer, o que faz os olhos dos dois brilharem, apesar do cerimonial, apesar do preço do bacalhau e daquela banda que agora “se acha”.

Parodiando Ang Lee, o amor é uma força da natureza. O resto? Não tem a menor importância. Tim-tim!

Meu vestido inesquecível



Naquelas ocasiões que realmente marcam a vida da gente, eu não estive exatamente bem vestida; pelo menos não como tinha imaginado. Mesmo assim, minha natureza um tanto Pollyana (aquela menina chata que sempre acha um lado bom, em qualquer tragédia), me permitiu curtir, como se estivesse chiquérrima. Depois, enterrei as fotos para esquecer os modelitos e uma certa frustração, enfim.
E já nem lembrava daquele vestidinho curto, que aos olhos alheios nada tinha de especial; mas que, ao recordar, me encheu a alma de emoção. A memória afetiva tem desses caprichos; deixa tudo num lugarzinho seguro para, sem mais nem menos, lançar seus foguetes luminosos sobre uma noite de insônia e inferno astral.
Num desses seriados de adolescentes americanos que passam durante a madrugada, a mocinha usava estampa de morangos esparsos sobre fundo azul. De repente, era década de 70 e eu, uma menina metida à mulher, toda “se achando”.
Nessa época, meu pai ‘estava’ prefeito e, ao contrário da maioria, para nossa família essa era uma boa razão para as comemorações serem mais discretas ainda, discretíssimas; quase um sussurro. Isso era um martírio, de discreta nunca tive nada e flash era tudo de bom. Fui informada das comemorações aos meus quinze anos: missa em ação de graças e, no domingo seguinte, uma fei-jo-a-da! (E eu, sonhando com boate, My Sweet Lord e Only You..., que coisa!) Daí seis meses, debutaria na Assembléia Paraense -alguma coisa tradicional haveria de viver, mesmo que me soasse estranho...
Mas que adolescente quer festejar qualquer coisa, comendo feijão com amigos dos pais e meia dúzia de meninos magricelas? Pois é. Meu traje festivo seria quimono sobre o biquíni, que pelo menos podia usar com certo orgulho, amém.
Mas foi na missa, sob o olhar do Cônego Ápio Campos, que aconteceu a redenção. Do figurino, bem entendido. Meu vestido inesquecível tinha um sóbrio azul marinho, com saia curtinha bordada com pés de morangos floridos, aqui e ali. Rebelde com ou sem causa, eu exultava por não estar de branco ou rosa, ufa!
O modelo, minha mãe achou numa revista; como era a parte mais especial do evento, dedicou-se com delicioso afinco para que saísse exatamente igual. Confesso que nem era uma coisa do outro mundo, mas hoje sei exatamente o que o fez permanecer, para sempre.
Eu simplesmente adorava estar sendo cuidada, paparicada pela minha mãe, que me levava até a casa da D. Isolda Maués para três ou quatro provas e imaginava mais isso e aquilo. E no final, nem sei como conseguiram materializar um buquezinho, igual às estampas, para enfeitar o ombro.
Eu era do tipo despachada, escolhia roupas e, mais adulta, foi pelas mãos da saudosa tia Carmélia – uma das modistas mais respeitadas da terra – que “me achei” de verdade e me vinguei das fotos que mereceram retoques. Aos quinze, ainda bancava “a tal”; mas esqueci a rebeldia e tratei de aproveitar o “colo” que veio a reboque do vestido, tem coisa melhor?
A missa, a feijoada -que foi ótima- o poster do Studio Oliveira, a foto no Isaac; na minha memória, essa foi uma época de total felicidade, absolutamente perfeita. Irretocável.
Sem aquela humildade que a educação judaico-cristã tentou me incutir -em vão- garanto que, além de felizes, éramos uma troupe linda de viver!
Quando essas recordações me tomaram, fui até o velho álbum. Meus pais, que sempre foram discretos, faziam um belíssimo par, que as pessoas paravam para admirar. (Disseram-me que a Carminho era “a cara” da Jackie Kennedy. Bobagem...Sempre foi mais bonita! E o papai era, como se dizia, um p-ã-o!) Eu e minha irmã, de nariz perfeito e maravilhosos olhos cinza-azul-esverdeados (até hoje, poucos sabem exatamente a cor dos olhos da Márcia) aparecemos sorridentes e felizes, num dos bancos da capelinha de Santo Antonio de Lisboa. Eu nem tentei disfarçar a enorme satisfação, dentro do meu melhor vestido, no meu momento mais que inesquecível. Há exatos 37 anos. Tim tim!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mesmices e paparicos


Comprei meu primeiro carro - um fuscão - aos dezoito anos. Como brinde, tapetes e um chaveiro de quinta. Trinta e quatro anos depois, a diferença é que custam muito mais e a oferta é bem maior; as montadoras fazem promoções e as concessionárias, bem, elas entregam a mercadoria. O que vende mesmo é marca e preço, o serviço é quase igual, quando existem concorrentes.
Não consigo entender que alguém continue vendendo carro assim, sem criatividade; café de garrafa, os tais tapetes e um chaveirinho. Hoje os carros trazem todo tipo de inovação tecnológica mas estranhamente tapetes são opcionais, ou brinde, que coisa.
Certa loja de modulados oferece um suco de uva de tomar rezando, um cappucinno delicioso, e a gente guarda uma boa lembrança, da gentileza, da hospitalidade e isso ajuda na escolha. Quem gasta dinheiro quer ser paparicado, sim.
Lembro que uma montadora fazia uns comerciais incríveis, com uns bichos muito loucos. Foi mais quem procurou saber se vinha um, nos carros. Não, não vinha.
Certamente não é preciso lá muita imaginação para fazer com o que o cliente se sinta mimado. Que tal um cd em mp3 (pen drive ou memory card!) com sucessos musicais, desejando momentos de prazer ao volante? Como diria minha avó, para a fábrica, isso é “pinto”. Se a loja fosse minha (quem me dera!) eu entregaria o carrão com uma toalhinha personalizada, uma mini-necessaire com escova, pasta e fio-dental, afinal, “nós pensamos muito em você!”. Fácil, baratinho, e muito, muito gentil.
Outra coisa irritante e emblemática do quanto pode ser miserável essa relação com o cliente, é gastar tanto e sair com dois litros de gasolina. Fala sério, isso é muita pobreza; ou será que o valor do tanque cheio iria levar a empresa à falência? Essa providência deveria ser comum e não apenas na época das vacas magras, quando querem vender até patinete.
Mulheres geralmente são muito mais eficientes nessas coisas de mimar e fidelizar relacionamentos. Se vender cozinhas, é capaz de editar um livro de receitas para a nova feliz cliente. Uma butique onde gastamos bem menos, é cheia de pequenas grandes gentilezas e até a água é servida num copo elegante, como julgam que seus clientes sejam. Não esqueço que, dias depois de ter comprado um vestido de festa, a vendedora telefonou perguntando se tinha feito sucesso. Isso é simpático, como os votos de que você seja muito feliz ao usar uma nova jóia. Que construtora se dá ao trabalho de enviar uma cesta de café da manhã, no dia seguinte a sua mudança? Difícil? Que nada, fazem coisas muito mais complicadas.
Certa vez, num natal, recebi uma agenda super-feminina de uma loja onde não ia a tempos. Perfumada, menor que as demais, com dicas de moda e etiqueta, espaço para aniversários, fresca como todas nós deveríamos ser, pelo menos metade do tempo. Sinto-me acolhida até hoje e claro, se for gastar, será com quem me trata bem.
Não ser criativo na venda seria desculpável se o cliente fosse realmente atendido. A maioria esquece que existe grande diferença entre vender e atender; ainda assim, tempos atrás minha filha recebeu o carro novo, instalou som e películas e rodou por dez dias com um carro que simplesmente não era o dela! Acredite que só quando o Detran liberou o plaqueamento é que o despachante “descobriu” que o número dos chassis era outro, e que o entregue era o de uma cliente de Paragominas, coitada. Alguém já conferiu chassis com nota fiscal na hora da entrega? Nem eu, ora.
A falta de qualidade no atendimento foi tamanha, que quando recebemos o carro “certo”, verificamos que a película tinha sido aplicada por cima de uma propaganda da marca. É pouco? Novo reparo, novo aborrecimento: ao puxar a película, os filamentos desembaçantes saíram grudados. Depois de dois meses, finalmente trocaram o vidro traseiro. O gerente, se achando cheio de razão, fazia cara de mau, feito o pica-pau. Desculpas? Nem pensar. Nem tapete ou chaveirinho.Quer saber? Acho que eu deveria mudar de ramo. Ou parar de reclamar

domingo, 19 de julho de 2009

Síndrome da agenda vazia


Desemprego. Esse é um tema que permanece guardado a sete ou oito chaves, como se assim, deixasse de ser um risco real. É um assunto que incomoda. Podemos falar da vida alheia, do governo, da inclinação sexual do outro, mas demissão sempre vem carregada de preconceitos, como se fosse “culpa” exclusiva da vítima; o que, convenhamos, nem sempre é o caso.
Além da questão da sobrevivência, o sistema exige que se tenha um trabalho, ainda que você eventualmente, não precise. Até quem pode “não trabalhar” é cobrado; afinal, a maior parte das pessoas não consegue imaginar a própria existência sem um emprego. A aposentadoria, recebida como conquista por mulheres, é praticamente uma sentença para homens e a falta de ocupação remunerada numa idade produtiva é dolorosa para ambos, pois independe da disposição de pular da cama e ir trabalhar.
De-sem-pre-go é um palavrão que nos remete a uma categoria inferior, tanto homens (de quem se exige sustentar a família) quanto mulheres, pois “foi-se” o tempo em que ser “do lar” merecia respeito. São raras as que têm a opção de cuidar da prole e do ninho; e as que podem, ficam “mal vistas”. Vivemos a ditadura do trabalho “fora de casa” - sem esquecer as lides domésticas, pois sobra tudo para a super mãe!
Há que se ter profissão, contra-cheque, negócio ou “bico”, ou você não é na-da! E a entressafra, que ocorre em qualquer setor, se transforma numa grande provação; e como se não bastassem as dificuldades, ainda tem “os outros”, a pior parte de qualquer demissão.
A sensação de quem perde um trabalho é a de ser desnecessário e dispensável. Ainda que a defenestração ocorra por conta da crise ou quando partidos se alternam (revezando vagas, pois em época de farinha pouca, meu pirão primeiro!); ficar oficialmente sem “nada pra fazer” é terrível, mesmo para quem jamais esqueceu que as “coisas” podiam mudar, a qualquer momento.
Em geral, falta “savoir-vivre” e as pessoas perguntam sem nenhum constrangimento, “onde é que você está”, como se tivesse que “estar”, obrigatoriamente, lotado em algum lugar. E nada que você faça depois de uma exoneração parecerá “melhor” que o trabalho perdido, mesmo que esteja ganhando o triplo. Aos olhos dos “outros”, vai levar tempo para que você seja novamente, “bem sucedido”. Talvez por isso tantos prefiram dizer que estão dando um tempo, viajando muito, cuidando dos negócios da família ou se dedicando “a um novo projeto”. Aliás, “novo projeto” é “a cara” da negação do pontapé.
No serviço público, existe enorme probabilidade de você ser o último a saber da novidade; haverá sempre um sádico que fará questão de informá-lo “em primeira mão”, pois acredite, tem quem leia o Diário Oficial cedinho, só para ver quem foi para o “olho da rua” ou conferir as diárias, o que é típico da pobreza da qual você não faz mais parte, pelo menos isso. Fosse uma promoção, todos comentariam com inveja, mas ninguém ligaria para congratulações. O ser humano é uma droga, mesmo, mas alguns ex-colegas são muito piores, arre! Prepare-se pois os conhecidos vão se dividir, alguns não tocarão no assunto, como se fosse uma doença incurável. Poucos tentarão ajudá-lo e outros, principalmente “você-sabe-quem”, procurarão notícias, mas não querem saber se está bem, saudável ou feliz. Isso não importa, e sim se você já “arranjou” um novo emprego.
Nunca vi uma frase chula tão cheia de razão, mas a verdade é que “inveja é uma merda”, então o lado bom é que você pode se livrar dos corrosivos, amém.
O tempo não cura só feridas e mágoas, deixa-nos ver que a chance de mudar - de emprego, porque não?- pode ser uma dádiva e como se diz por aí, é na crise que se cresce; espiritualmente, inclusive. Fato é que, nessa situação, você se sente um pouquinho mais humano e por isso mesmo, mais perto de Deus. E a vida continua, meu caro; com ou sem emprego.