quinta-feira, 11 de junho de 2009

Isso são modos?


Gente, perguntar não ofende. Principalmente quando dá para fazê-lo assim, sem ser cara a cara: onde foi parar a boa educação do nosso jet-set?Alguns acontecimentos me fazem voltar ao Marajó da minha infância, e ficar “matutando”.Recentemente, num casamento, fiquei “passada e engomada” com a falta de modos dos convidados. A noiva passou apenas quinze minutos, em fotos familiares no altar e, pasmem queridos, ao virar-se para sair, encontrou a Igreja de Santo Alexandre semideserta. Seus convidados, pessoas especiais com certeza, deviam estar esfomeados, só pode ser essa a razão, e partiram, disputando um rally pela cidade, rumo ao bufê...onde dezenas de casais já estavam acomodados. Que feio!Tem gente que nem vai mais à igreja, segue direto para a recepção. Pode, Freud?A impontualidade virou regra. Coisa de gente despreparada, mesmo!
Uma outra noiva passou quarenta minutos dentro do carro...esperando a chegada de padrinhos...que não mereciam ter recebido convite tão especial, se não têm competência para chegar dez minutos antes...Existe uma feijoada filantrópica que costumo freqüentar. É uma ocasião para rever amigas, colaborar com necessitados, mas... Senhoras da mais alta estirpe se acotovelam num espetáculo dantesco (dantesco é ótimo, né?) disputando um pedaço de chouriço ou uma fatia de torta...Patético!É um grande bolo de senhoras quase se estapeando, um amontoado de traseiros bem cevados, transformando um almocinho solidário num rega-bofe de última.E juro por Deus, é um programinha de dez reais e tem madame que manda o motora ir buscar sua “dose”, numa quentinha, já que não pôde ir.O que aconteceu com as pessoas finas, caíram pelo ralo?Numa festa de quinze anos, jovens detonaram a mesa dos doces na entrada. Como se o gesto de grosseria justificasse, senhoras portando elegantes e carésimos vestidos, passaram a mão em pratos de jantar e, (perdoai-as, Senhor!), encheram cada qual o seu e levaram 'suas marmitas' até as mesas, para serem degustadas após o jantar...que ainda nem havia sido servido.As boas maneiras foram para o espaço, junto com a nossa elegância. De que adianta uma roupa cara demais para pouco preparo?Senhoras falam com talheres à mão, numa exibição de esgrima.Nos embarques vejo, hor-ro-ri-za-da, pessoas apressando o passo para driblar uma jovem mãe com bebê, e tal da baby-bag nas mãos...Por outro lado, fomos ficando acostumadas a falta de glamour...Eu, meu bem, sou do tempo em que homens levantavam cada vez que nós, mulheres, deixavámos a mesa. Eles abriam a porta do carro, verificavam se nossas saias estavam acomodadas, fechavam com de-li-ca-de-za e aí sim, davam a volta.Desciam escadas sempre a nossa frente e andavam pelo lado de fora das calçadas.Homens que ainda nos davam livros - bons - de presente. E um brilhantinho que a gente também gosta, claro.Que nos convidavam a dançar. Ao final, agradeciam a gentileza e nos acompanhavam de volta a mesa. Hoje é um gesto de cabeça, tipo “topa?” e zero emoção.Quando nos buscavam em casa, não ficavam buzinando. Desciam, cumprimentavam os presentes e nos acompanhavam...Bons tempos.Nessa época se comia de boca fechada e ninguém seria capaz de indagar sobre sua vida sexual durante um jantar...principalmente sendo um amigo.Educação é artigo original de fábrica. Mas pode ser acessório adquirido por quem não teve, digamos, berço.Parabenizar pessoas em datas especiais, ser pontual, gentil, não falar alto nem beber demais, dar assento a uma pessoa mais velha, facilitar o acesso de grávidas e crianças, tudo isso é tão básico que nunca imaginei que seria artigo raro.Mas os espetáculos a que somos submetidos nos fazem imaginar se os inadequados seremos nós...Isso não é frescura não, querida. Isso são bons modos!veracascaes@gmail.com
Postado por Vera Cascaes às 22:36 1 comentários

A Rosa Inglesa


Trinta e um de agosto de 97.
Nem parece que faz tanto tempo assim, mas lembro da tristeza daquela noite.Fãs de Rodolfo Valentino e Elvis devem ter sofrido assim, também.Se você não teve ídolo, que pena. Eu tive!Desde o primeiro dia em que a vi, uma criança ao colo e a saia translúcida; simpatizei com aquele olhar. Olhos tristes, pedindo afago.Quando ela casou, em 81, faltei à aula na USP, tranquei-me, enroscada no sofá, curtindo o frio de julho, olhos colados na TV em preto-e-branco que me fazia sonhar colorido.Era estudante, a espera de um conto de fadas. Eu e quase todas as jovens daqueles loucos anos 80, cuja melhor imagem foi dela.Rebelde nos elegantes cabelos curtinhos, quando o que se esperava cachos dourados. Mas não ela! Diana era a nossa Barbie, em carne e osso, linda, loura, alta, magra, simpática e triste...Exatamente como a gente imaginava que seria uma princesa.No fundo, todas nós sofremos, quando ela deu sinais que o castelo não era tão encantador, assim.Compreendemos quando passou a buscar um amor, ou melhor, quem a amasse. Como havia sonhado, quando era a menina que conheceu o sisudo pretendente da irmã mais velha. A vida tem dessas coisas, até com altezas. Poderia ter sido diferente, se o príncipe de trinta anos não tivesse se encantado pela alegria, jovialidade e graça da lourinha de dezessete. Os mesmos motivos que o afastaram dela, já sua esposa. Ah, homens são assim, mesmo majestades.
E alegria não cai bem em alguns casamentos, fazer o quê?
Não havia revista onde eu não a procurasse.Copiei cabelos e modelos, achava o máximo que o planeta tivesse um conto de fadas, uma princesa, com alma, faces, porte e atitude de princesa. Quanta tristeza havia naquele semblante, quantos desamores, quanta vontade de encontrar a pedra filosofal que transformasse qualquer pequena coisa do seu dia , no ouro que é ter um amor grande e correspondido...No meio do sono que vinha, mas não vinha, acordei com a vinheta de edição extraordinária.Passei algum tempo paralisada.Não poderia ser verdade.Ela era bonita demais, boa demais, solidária demais, triste demais, princesa demais, para ter morrido. Pessoas assim não morrem, pensei.E pela primeira vez eu tive medo da morte, pois vive cometendo enganos. Sufoquei o rosto num travesseiro e chorei .Tive vergonha daquela tristeza, que bobagem derramar lágrimas por uma desconhecida que jamais, em tempo algum, eu poderia conhecer...Não precisei disfarçar da minha filha, os olhos inchados. Desde aquele primeiro de maio de 94, ela sabia o que é perder um ídolo. Da mesma forma que eu a confortei, sem saber o que dizer da partida de Ayrton Senna, ela apenas me abraçou, batendo de leve as mãozinhas nas minhas costas. E então, orei por ela, pela nossa princesa.Tantos anos depois sei que chorei por ter descoberto que fadas e princesas não existem mais.E que sonhos são assim, miragens que o vento apaga, como uma chama.Na gaveta, num recorte de revista, Ela resplandece, o sorriso alvo, naquele espetacular vestido de veludo azul.Não me importa que você ache bobagem, todo mundo guarda a mais linda boneca e o melhor dos sonhos para sempre. (veracascaes@gmail.com)
Postado por Vera Cascaes às 01:22 1 comentários

Com Johny Rivers, Victor e Leo

O dia dos namorados finalmente havia passado. Não que ela ligasse, aliás, todo mundo sabia que não dava a mínima para essas datas comerciais, criadas por um espertinho qualquer, com a única finalidade de aquecer as vendas do comércio decadente.Ou quem sabe, esse espertinho fosse uma tarado cruel, que sabia exatamente como fazer com que uma mulher maravilhosa, descolada, antenada e cheirosa se sentisse...ultrapassada, sozinha, esquecida, azeda.Não, ela não iria entregar os pontos só porque não entendia como alguém com esse currículo todo, estivesse sozinha, nessa e em todas as outras datas comerciais, que diacho!Humm...Nunca havia notado que “Do you wanna dance’ tinha uma letrinha tão simples. Como quase tudo naquela época em que ela ainda fazia ‘doce’ para ficar com algum bonitão no salão da AP, que ainda tinha aquele clima de coisa fina, sem esse monte de camelôs na calçada; ah, decididamente, naquele tempo ela era mais bem humorada.Johny Rivers dizia tudo que ela queria ouvir em poucas linhas, mas o coração também apertava quando o James Blunt uivava na novela das nove, o mesmo drama de quem quer, muito, um amor qualquer.Como num origami, o seu príncipe (aquele da barba macia, lábios grossos e olhos pidões) havia permanecido numa dimensão qualquer, ali pelos trinta e sete anos...para sempre. E ela continuava procurando e só o que encontrava era um tempo perdido, que não lhe pertencia. Não era ontem, não seria amanhã; era apenas um momento, era tudo e nada mais.Imagina, se ela, a descolada, ia querer cueca na gaveta, escova de dentes no armário? Isso é coisa de mulherzinha. Só uma louca poderia sonhar com essas bobagens de dormir de conchinha, de passar as mãos nas costas do amado até adormecer ou vê-lo adormecido, que meigo.Quanta pieguice, credo!As mulheres estavam se tornando tão, tão, tão...Imagina -repetia- correr para depilação, manicure, banho de lua; fazer escova e estrear lingerie de griffe, só para agradar um marmanjo num dia como outro qualquer...?Já nem sabia desde quando não comemorava essas coisas na data certa...Homens casados têm muita imaginação, geralmente comemoram ‘antes’, claro, só para garantir que suas ‘outras’ estejam saciadas, vestindo um velho moletom macio, vendo TV e comendo pipoca, sem ligar a cada meia hora para o celular...enquanto eles jantam com as esposas felizes.Ora, e ela com isso? Não estava tudo bem? Claro que sim.Era apenas uma questão de tempo. (Perdido, talvez.)E quanta cafonice, Jesus! (Será que alguém ainda fala assim?) Na verdade, paixão era uma das coisas mais bregas que ela conhecia. Pessoas em estado amoroso ficam assim, ridículas, com aquele sorriso ridículo, ouvindo músicas ridículas.Ela nem sabia quando havia comprado aquele CD, Victor e Leo; se o pessoal do escritório a ouvisse cantando “...eu sou o teu segredo mais oculto... teu desejo mais profundo...tua fome de prazer...”, diriam logo que ela estava apaixonada.“Sou teu luar em plena luz do dia...”, ah, até que não era tão ruim...Em que dobra do tempo ele andaria agora, realizando coisas e experimentando tudo que ela já sabia de cor...?Ah, fazer um jantarzinho, deitar no futton, que amantes adoram amar num futton...Tomar cafés de todos os sabores naquelas xícaras enormes e cheias de personalidade, ouvir a Amy Whinehouse antes que ela acabe e cometer essas pequenas e deliciosas breguices do amor...Bastava encontrar aquele menino barroco, eternamente em guerra entre o sagrado e o profano...Longe dela e daquelas datas comerciais.Entre um gole e outro de vinho velho, ela cantarolava com os meninos mineiros e Johny Rivers, num quarteto pra lá de improvável: 'Do you wanna...' 'sou eu em você...'
Postado por Vera Cascaes às 00:12 1 comentários

Meu saudoso pai

Semana passada fez seis anos que ele partiu e até hoje o sinto perto de mim. Fui até o cemitério trocar as flores e percebi que para mim, parecia ter sido outro dia que sofremos tanto naquela despedida. Não importa o quanto esteja doente, o quanto já tenha vivido e se o sofrimento nos leve a aceitar a morte como uma libertação; despedir-se irremediavelmente de alguém que se ama é uma dor enorme, que permanecerá feito cicatriz. Até hoje tenho ímpetos de telefonar-lhe quando algo de bom me acontece ou adoeço; quando preciso decidir alguma e estou insegura. Meu pai nem sempre concordava com minhas escolhas, mas me deixava a certeza de que, sob qualquer circunstância, poderia contar com o colo amigo e acima de tudo, cúmplice. Aos longo dos anos já escrevi sobre minha família inteira, incluindo meu cães e gatas, mas do meu pai apenas falei da enorme saudade. Era um ferimento que não queria expor. Hoje me pego lembrando de um velho Cascaes diferente, que só mamãe, eu, Márcia, Beth, Tavinho e nossa pequena família conhecíamos. Que era caxias, enérgico, forte, vaidoso e madrugador, todos sabiam. Mas havia um outro Octavio que nos divertia, sempre engraçado, inventando canções cabeludas (para desespero da minha mãe) e nos fazendo rir o tempo todo, soprando o ar entre os lábios frouxos quando queria demonstrar enfado. Mas ele só conseguia soltar-se assim em casa ou com a turma que se reunia anos a fio na garagem do Luciano Moraes, para o jogo de buraco regado à gargalhas, com o Raimundo Libório, Héber Monção e Mário Teixeira. A gente sabia que era ali que ele reabastecia suas energias e suportava a pressão para mais uma jornada. Meu pai era um trabalhador, um homem cuja maior vaidade era o nome que carregava, naquele porte de galã que sempre teve. Apesar de cara de mau, com as duas filhas sempre se derretia. Certa vez, quando era eu a jovem apresentadora da TV liberal, deveria apresentar o Concurso de Rainha das Piscinas ao lado do Chico César, pois naquela época, éramos o ‘casal telejornal’. A atração seria ‘ninguém mais nem menos’ que o Roberto Carlos, no salão recém inaugurado do Pará Clube. É..., faz muito tempo. Fato é que de tardinha cismei de ficar loura e claro, deu tudo errado. Saí do salão parecendo uma samambaia, com as mechas esverdeadas por conta de uma rinsagem ‘cèndre’, que eu não tinha a menor idéia que cor era. Ao chegar aos berros para lavar a cabeça (todas as vezes que tentava fazer cabelo ou maquiagem fora, lavava e fazia eu mesma, tudo de novo!) vi papai desesperado, me lembrando do mega compromisso. Aos prantos, engasgando, respondi que não iria mais ‘com aquele cabelo’. Bom dizer que papai nunca foi afeito a essas ‘coisas de mulher’, não fazia idéia do que tinha ocorrido, mas saiu, em bermudas, e voltou da farmácia com um xampu tonalizante negro (!) dizendo “Toma, filha, vê se dá para remediar!”. Claro que daria, tinha que dar! Casa lotada, quando anunciamos “ E com vocês...Roberrrto Carlos”, eu sabia que não estava numa das minhas melhores noites, o cabelo muito escuro sombreava as olheiras e estava seco feito palha. Mas tinha certeza que em casa, meu maior fã estava torcendo por mim, cigarrinho entre os dedos, anotando as falhas para depois me alertar. Esse, era o doce Tatá. Desde os tempos de colégio minha habilidade com o microfone era valorizada por conta do vozeirão, afinal, herdei os dons do astro da rádio novela Ressurreição, um enorme sucesso na época; e décadas depois ainda tinha quem lembrasse disso em plena rua. Durante meus anos de TV, me dizia o que devia ser melhorado, às vezes fazia gozação...“É, ‘fela’ (um termo só nosso) hoje tu nem gaguejaste!’ e minha mãe acudia, “Ora deixa a menina!”. Fiquei esses dias meio que revivendo nossas boas e velhas histórias. O coração apertou, não de tristeza, mas de saudade. Os olhos marejaram e eu, mais uma vez, agradeci a Deus ter sido tão feliz com a minha família.

Síndrome da agenda vazia

De uns tempos para cá, alguns assuntos que eram poucos discutidos ocuparam espaço na mídia. Nunca se escreveu tanto sobre o ‘ninho vazio’, aquele excesso de tempo e espaço que nos acomete quando os filhos já alçaram vôo.
Um tema, entretanto, permanece guardado a sete ou oito chaves: desemprego. Sim, a falta de ocupação, alheia a sua vontade de acordar e ir trabalhar todo santo dia.
Não, não se trata de aposentadoria, que é recebida por mulheres como conquista e por homens praticamente como sentença. É pior que isso.
De-sem-pre-go, esse palavrão que os ‘não concursados’ temem ouvir ou pronunciar.
A sensação de quem perde o trabalho é justamente essa, de ter sido dispensado, de não prestar pra nada, de não fazer a menor falta.
Mesmo que a defenestração ocorra por conta da crise e leve junto vinte por cento da empresa, ou ainda que ocorra naquela fatídica mudança de administração de governo, quando partidos se revezam e revezam também, a empregabilidade, ainda assim, ficar sem ‘nada’ de uma hora pra outra é, simplesmente, terrível.
Eu sei muito bem disso.
Quando a gente faz parte de uma assessoria vinculada a determinado partido, não se perde de vista a possibilidade das ‘coisas’ mudarem e, por conta disso, acabarmos tomando o ‘caminho da roça’. Por mais técnica que seja sua ocupação, por mais correta que tenha sido sua atuação, esqueça, isso é coisa que não interessa ao novo governo. E é até bastante compreensível, não é? Cada qual no seu quadrado, com os seus.
O problema é que falta ‘savoir-faire’ nessas ocasiões. As pessoas perguntam ‘na lata’ onde é ‘que você está’, como se essa situação não fosse aguardada por todos. E nada que você esteja fazendo depois disso parecerá ‘melhor’ que o trabalho perdido, nem que você esteja ganhando o dobro. Aos olhos dos ‘outros’, vai levar um tempo para que você seja novamente, uma pessoa bem sucedida. Talvez seja por isso que tantos dizem estar ‘dando um tempo’, cuidando dos negócios da família ou se dedicando a um novo projeto pessoal.
É a fase da negação.
Aliás, dar essa ‘boa nova’ (ui) em primeira mão aos ‘dispensados’ é fonte de enorme prazer para os sádicos de plantão que existem em toda repartição. Por outro lado, isso o livra da chatice de ler o Diário Oficial, pode crer que você ficará sabendo rapidinho. Já se fosse promovida...
Lembro bem de um certo Natal, há três anos. No meio das compras para a ceia, meu celular tocou. E depois da notícia fiquei ali, com um peru descongelando no carrinho, rodando pelos corredores em pleno dia 23 de dezembro, pensando como seria minha (sobre) vida depois daquela canetada. Admirei-me com minha comoção, pois eu sempre soube que seria assim.
Fato é que de uma hora pra outra você se sente mais mortal e por isso mesmo, mais perto de Deus.
Os conhecidos se dividirão, alguns não tocam no assunto, do mesmo jeito quando se tem uma doença incurável, ninguém fala nisso. Ou seja, poucos tentaram ajudá-lo. Outros, principalmente ex-colegas, procuram saber de você, mas não se está bem, com saúde e feliz. Não, isso não importa, Eles querem é saber se você ‘arranjou’ um novo emprego.
Sabe, nunca vi uma frase chula tão cheia de razão, mas a verdade é que a inveja é uma merda. E uma das coisas que você se livra é dos invejosos corrosivos, amém.
Como todo mundo que já foi colocado no ‘olho da rua’, cumpri minha quarentena. Passei por uma fase de negação (imagina só se uma profissional como eu vai ser mandada embora), passei pela aceitação até que o tempo me fez ver algo que poucos conseguem visualizar: a liberdade.
Essa paz que aos poucos vai se acomodando e que lá pelas tantas nos leva até a duvidar como éramos capazes de trabalhar tanto... O tempo cura as feridas e mágoas, nos faz ver que quem perdeu mais não fomos nós e que a chance de mudar é uma dádiva, como dizem os orientais, é na crise que se cresce; espiritualmente, inclusive.
Outro dia encontrei uma ex-colega, que me fez companhia no Diário Oficial, no mesmo supermercado onde estava naquele Natal. Tomamos café, batemos um longo papo e chegamos à conclusão que estamos muito melhor do que há três anos. Estamos, finalmente, prontas para olhar em muitas direções.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Arre, égua!


Sinceramente, você costuma conferir atentamente o que lhe cobram nas suas contas?
Em especial, naquelas páginas do seu celular e do fixo? Não? Pois deveria.
A correria me faz pagar quase tudo via Internet, vai daí que dia desses ‘descobri’ um ‘pacote’ que me fornecia 30 minutos de ligações longa distância, a um valor fixo de pouco menos de R$32,00 mensais. Êpa, eu nunca pedi isso!
Busquei minhas contas anteriores, ainda bem que sou do tipo que guarda tudo separado por mês, numa pasta bem à mão. Sou obcecada mesmo com essa coisa de classificar, organizar e arquivar papelada e isso tem me auxiliado muito a evitar idas e vindas e muita dor de cabeça. E...bingo!
Estive pagando esse ‘pacote’ (já que nada que preste vem num ‘pacote’?) desde o dia 16 de janeiro.
Não se trata de uma fortuna mas não admito que me levem um centavo sequer que não seja por minha vontade.
Sabe o que é ligar para uma operadora de celular? Pois é, passei mais de vinte minutos ouvindo gravação e topei justamente com a atendente que estava na TPM ou na seca, o fato é que a mulher estava atacadíssima. Depois de me destratar, acabou encerrando a ligação.
Quase tive um piti, ando traumatizada com operadoras de telefonia depois de ficar mais de vinte dias sem meu fixo que foi transferido para o Jurunas e até hoje, neca de ouvir a bendita gravação. (Alguém já ouviu isso, uma única vez? Sei lá, acho que ninguém mostra nada!)
Respirei fundo, mentalizando o Gaiarsa, Santa Sara Kali, e pedi aos céus um pouco mais de paciência antes que tivesse ímpetos de chutar o pau e a barraca.
Na terceira ligação, eis que uma atendente de nome Sônia e voz de aeromoça da Varig-varig-varig me atende, gentilíssima, que coisa. Protocola aqui e ali e eis que estão contestados as três últimas cobranças, pelo menos isso, amém.
Lembro que há alguns anos, achei estranho três valores altos e redondos, em três dias muito próximos, no Toc-toc do clube. Foi só telefonar. Havia uma gangue de garçons ficando com o dinheiro vivo de algumas contas enquanto lançavam o débido em cartões que tinham anotado anteriormente. Recebi tudo de volta e não pensei mais nisso até que, dois anos depois vi que minha fatura de outro cartão estava cheia de valores para uma certa farmácia.
Não deu outra, por quatro meses a empresa me ressarcia valores pois a cara-de-pau da caixa tinha lançada em prestações o que havia roubado da féria em espécie, acredite. No próximo mês haverá uma audiência no fórum e lá vou eu e mais algumas outras pessoas lesadas, pela segunda vez, depor como testemunhas, sem direito a faltar pois seria desobediência civil. A ladra ( é esse pó termo correto, soa mal, mas é.) não apareceu na primeira audiência. Fomos logo informadas que, sendo primária, nunca havia sido ‘fichada’, apesar de ter roubado no emprego anterior.
A orientação por conta das cadeias lotadas é uma pena alternativa e, no final, pouco ou nada acontecerá com ela.
Absolutamente molhada, as gotas de chuva pingando da ponta do nariz, caminhei até o carro que estava estacionada onde foi possível, pensando no que ainda funciona nesse país. E foi aí que lembrei das doações para aquela conta de Santa Catarina que renderam 34 milhões que ninguém explica direito onde foram parar.
E tive uma enorme sensação de cansaço dessa obrigação de prestar atenção na carteira , de não desgrudar os olhos da porta aberta ou de ter que provar pela ‘enésima’ vez que não pedi que meu telefone fosse transferido pra Cudomundópolis.
Estou cansadíssima de ser cidadã. Ninguém aí pode me incluir num esquema, pode me usar para receber dinheiro da Câmara, pode tirar passagem, qualquer coisa.
Pior é que não vai dar certo. Sou tão idiota que vou acabar indo trabalhar e ainda darei recibo. Hare, bôba!

domingo, 12 de abril de 2009

A banheira


Uma das coisas que me divertiram ultimamente, foi o resgate de uma banheira. Calma, eu explico.
Há oito anos vim morar em uma casa que tem não uma, mas duas banheiras; confesso que minha escolha foi em parte causada por esse luxo!Depois de arrumar caixas enormes de ‘traquitanas’, resolvi me preparar para um banho digno de nota. Sais, espuma, roupão, música suave e aquela indefectível toalhinha para colocar sobre os olhos, igualzinho eu via nos filmes. Que mico. O tal do aquecedor -que pra mim não passava de uma carcaça cromada na parede- nem chegou a funcionar. A água, provavelmente por causa dos tubos sem uso durante muito tempo, tinha um cheiro esquisito, uma mistura nauseante de ferrugem e coisa velha.
Cheguei a chamar o técnico e, uma pequena fortuna depois, lá estava a carcaça prontinha pra aquecer meu relaxamento; que banho mesmo, a gente toma é no chuveiro.
Repetida a mis-en-scene, na hora ‘h’ ouvi um estalozinho suspeito e a água voltou a jorrar tímida e fria, muito fria.
Desisti. Passei a achar que era um luxo besta, ninguém aproveita banheira em casa mais que um mês e quando passa a novidade, só serve para juntar poeira e cabelos suicidas.
Bom, o tempo passou e elas permaneciam ali, inúteis, desdenhando minha total falta de competência para usufruir qualquer coisa que fuja da rotina.
Nos meus momentos de ‘mulherzinha’, acreditava que um dia, ‘alguém’ (meu marido, minha filha, o Raj ou o canguru da sorte, sei lá!) me surpreenderia com a tal da droga da banheira funcionando, nem que fosse uma só.
Mas o caso é que o tempo passa e as coisas nem sempre mudam. No meu período ‘borocoxô’, a viagem da Verena para Minas onde apresentaria a monografia, fez-me desconfiar que ficaria mais ‘borocoxô’ ainda. Eu precisava, urgentemente, de um desafio, qualquer coisa que me desse ânimo para ‘saltar fora’.
Chovia muito, e fiquei imaginando o quanto poderia ser complicado colocar o ‘elefante negro’ em atividade. Foi quando ouvi aquele ‘ruidozinho’ de pinga-pinga, bem embaixo do banheiro. Um vazamento! Pronto, essa era a razão que faltava para decretar a minha Faixa de Gaza: vamos meter picareta no banheiro!
Bom, pra encurtar, foram quase trinta dias de desordem. Retirei o box que me fazia suar sob a ducha, o ‘túmulo’ da banheira foi reduzido a cacos e tive que chamar um especialista para, entre outras coisas, fazer dois remendos minúsculos na fibra de vidro. Nesse meio tempo, descobri que o ‘ploc-ploc’ vinha da descarga do banheiro vizinho; ou seja, a razão da guerra não era bem aquela. E daí? A independência do Brasil também não foi bem assim.
O novo aquecedor deve ter sido despachado de “Sun Paulo” num jegue manco, levou doze dias para chegar, mas chegou.
Massa preta pra cá, eletricista pra lá, telhas quebradas, acolá. Ti-ti-ti e arranca rabos entre três ‘especialistas’ todos altamente ‘estrelas’...E eu, dando plantão naquela enorme casa de material de construção, ou você já viu pedreiro ou eletricista entregar a lista inteira do material de uma só vez? No final de uma semana, já era íntima da casa. “E aí, D. Vera, já matou quantos na obra?...“Estou providenciando a missa comunitária, Silva!”.“Ainda falta alguma coisa?”, o ‘Seu’ Zé Maria já sabia que faltava, sim, e que eu viria trocar a metade no dia seguinte.
Bom, a ‘obra’ ficou pronta. Casa vazia, limpei e arrumei o velho banheiro recauchutado como a Dilma Russef, um pouquinho mais bonito por fora e a mesma coisa por dentro, enfim. Abri a torneira, sem muito alarde, não queria pagar mico de novo. Hummm...O tal do visor digital era quase em braile, que droga, tomar banho de óculos. Trinta e três graus.
O motor ronronou e a espuma foi tomando conta da água. E haja espuma. Levei uma montanha perfumada e acomodei-me; de fora parecia bem maior, mas estava ótima. No som, Gilmarley Song com o Kid Abelha, e então dei uma enorme gargalhada. Que bobagem, era só uma banheira velha e emperrada, mas estava me sentindo poderosa.
Consegui!