domingo, 5 de outubro de 2008

Rascunhos de viagem: Malas nas portas.


“Aos poucos, as luzes de Paris nos lembram que esta é a nossa última noite.”
Chique, né? Mas me soa tão verdadeiro quanto uma bolsa made in Paraguai. (La garantia soy yo!) A verdade é que imaginei uma porção de frases de efeito que não denunciassem que não tenho lá muita intimidade com a matéria, afinal tem gente que vive com um pé aqui outro em Miami e a cabeça em Paris (claro!); com uma freqüência de dar inveja! Mas não levo jeito para essas coisas, vocês me conhecem.
Sim, ainda estou em Paris, quase no final de um passeio de trinta e dois dias pelo novo (para mim) velho mundo e, no balanço geral, só um consenso: viajar é bom demais!
Ninguém quer voltar dizendo que isso e aquilo foi ruim ou ‘marromenos’; agora sei porque quase todos retornam contando maravilhas, quem sabe baseados na viagem dos sonhos que nem sempre se concretiza. Dar esse gostinho aos amigos (os inimigos não ligam a mínima para onde você foi ou se gostou!), ou virar uma piadinha infame na boca ‘daquela uma’ é, no mínimo, desconfortável.
Começo então com as más notícias para esquecê-las depois da pá de cal das boas, que graças aos céus, são mais numerosas.
Bem, caso você queira gastar o dobro e se divertir pela metade, faça uma excursão. É mais ou menos como levar a sogra no mesmo quarto: uma roubada! Os hotéis são sempre “nas imediações” de qualquer lugar que conste naquele roteiro que você a-do-rou. Prepare-se para manusear mapas e odiar o seu agente de viagens lá pelo quinto dia.
“Meia pensão” é um negócio da China. Pra eles, claro. Você desembolsa trinta euros por cada uma, é levado para restaurantes “meia boca” e volta sempre completamente frustrado. E faminto.
Rapidinho percebe que deixou de ser ‘uma pessoa’ para ser tocado como gado, ou melhor, como ‘grupo’, nas piores mesas, tendo que engolir a comida que não escolheu sem reclamar (alergia a marisco é piada, meu amigo!) e tomar o sorvete da Kibon que virou “Olé”, achando o máximo. Trouxas merecem castigo, compadre!
Acredito que em algum lugar do mundo exista excursão honesta e divertida, enfim, quem tiver paciência que procure.
Graças a Deus iniciamos a viagem por “conta própria”, conhecendo o norte de Portugal até Santiago de Compostela num carro alugado, sem hora para chegar, sem compromisso com nada a não ser com o GPS. (Essa é uma das partes boas, mas tem mais!) Integramos o tal do grupo em Lisboa, quando passamos a viajar num ônibus velho, sem conforto, dirigido por um ogro lusitano que logo tirou o microfone do guia e passou a insultar brasileiros, ‘que compram demais’. Na fronteira com a Espanha o busão quebrou. Ficamos numa estrada de alta velocidade, num calor infernal, sem água ou banheiro, sem pai nem mãe. Pior: sem chocolate! Um desespero que durou seis horas, baixou polícia espanhola (não para ajudar e sim para avisar que nos multaria se mais alguém atravessasse a pista ou pedisse carona, acredite!). Um casal caminhou por dois quilômetros e voltou para avisar que havia onde ficarmos até que mandassem um ônibus e uma van para resgatar os sessenta e dois passageiros, levados para Madri. O ogro Felipe foi-se com a sucata, amém.(Arrasou, Santa Rita!) O resgate só foi possível porque uma de nós conseguiu acionar a filha no Rio de Janeiro, que tomou as providências e pressionou a operadora brasileira, que não estava nem aí. Perdemos metade do dia mas conseguimos recuperar o bom humor, apesar de tudo. Detalhe: como nós, quase todos tinham a informação que era um grupo de vinte e quatro pessoas!
No meio da viagem, lembrei de uma crônica do Raimundo Sobral, sobre a desfaçatez com que ‘a gente’ vai jogando as coisas pelo caminho. É interessante como nos comportamos bem ‘lá fora’; talvez para não levar um pito, vá saber! E aí a brasileirada aprende a não furar fila, a aguardar a vez e a (tentar) falar mais baixo.
Viagem fica muito melhor ‘com emoção’, não é? Semana que vem eu conto, bom dia!

PS: Viajamos pela CVC e Europamundo .

domingo, 13 de julho de 2008

Porque somos mulheres...Mea culpa



O tempo passa e vasculho a vida com um novo olhar. Não existe nada velho ou mofado nessa espiada que envelhescentes lançam no próprio passado.
É interessante como cometemos os mesmos enganos em vez de aprender com erros alheios; precisamos das experiências equivocadas, dos nossos hematomas e algumas vítimas.
A juventude nos faz intolerantes. Quando iniciamos relacionamentos que desejamos duradouros, agregamos hobbyes, paixões, amigos e até cacoetes do amado.
Sem resistência adotamos a mesma pizza, música, e, até, aquele timinho de futebol. Com sogra, ninguém tem problema no começo, não sem já ter estabilidade no serviço.
Não é falta de personalidade, é apenas “modus operandi” feminino, querida. E é claro, nem todas agem assim. Só a maioria que pensa que, por ser jovem terá tempo de sobra para errar, enterrar grandes e pequenos amores e, quem sabe? Recomeçar e cometer as mesmas sandices. Pena. Hoje, tempo é tudo que eu queria ter de sobra. E não o perderia com erros tolos.
Não existe novidade nas histórias e crises amorosas. Só muda a música, no mais, o roteiro é o mesmo, desgastado e pouco interessante.
Só nós cometemos erros? Não, meu bem, mas hoje estaremos na berlinda, relaxe e aproveite, como diria a Marta.
Caso é que, depois daquela temporada de ‘somos almas gêmeas e eu sou muito legal’, vem a sensação de estabilidade que é o primeiro passo para a insuportável certeza de vitaliciedade. E essa é apenas um delírio, inclusive em Buckimham.
Pombinhos juntos, familiazinha criada, a mulher se torna muito, muito espaçosa.
Culpa da sogra que, ela garante, nunca a aprovou. Hummmm. Lembra daqueles aeromodelos que vocês montavam juntos? Hummm...Pois é. Estão na casa da mãe dele, junto com os Puzzles que você deixou de fazer porque ocupam a mesinha da sala. Da sua sala. Ah, tá. Dá para entender, não é?
E a coleção de gibis? Pouco espaço, os apartamentos são minúsculos, como acomodar essas inutilidades mais seus sapatos e suas bolsas, afinal são a sua razão de viver. Ou quase, vá lá. Em alguns lares bem amplos, escritório masculino é ficção. E espaço perdido, não é mesmo?
E a bancada do banheiro? Uau, como são exíguas. Temos tanta coisa para deixar lá (e usar pouquíssimo) que mal sobra espaço para ele, que tem escova de dente, barbeador, espuma, perfume. Ora, perfume pode ficar no guarda-roupa, perto dos lenços, é mais prático.
Na geladeira, tem tudo que gostamos afinal, será a dieta dele também. Melhor que seja!
Os amigos, amém, ele conseguiu manter a duras penas e, não se espante, depois de alguma negociação, com transferência de ativos e passivos. Pra você claro.
Sabe uma coisa que sempre me intrigou? Mulheres têm amigos, homens (quis dizer héteros), outros amigos gays, uma porção de amigas pouco confiáveis e aquelas que valem ouro. Saem com a própria turma, sem os maridões; atendem ligações de celular e correm para um canto discreto; ficam horas penduradas na Internet...Mas se consideram acima de qualquer suspeita ou crítica. Já imaginou o que aconteceria se seus homens fizessem exatamente a mesma coisa? (Nem tente, há indícios que foi assim que os problemas no Oriente Médio começaram...).E se ‘eles’ trocassem abraços afetuosíssimos e cheiros no cangote, com uma mulher, bem na sua cara e depois, cândidos, dissessem que não importa, pois era apenas mais uma gay (e nem dava pinta, né?) com quem se relaciona, num grau de intimidade que beira o...Incesto? Sei lá.
Não estou reprovando nada disso, amiga. Cal-ma! Apenas e tão somente fico aqui matutando como seria se ambos tivessem, sempre, os mesmos direitos, pois é fato que não têm.
Saímos com eles, comemos um filé a Paulo Chaves e ainda abatemos um Petit Gateau (Aliás, essa sobremesa é pior que herpes, em qualquer lugar tem, que coisa!). Mas poucas vezes nos sentimos no dever (nem diria obrigação) de dividir a conta, afinal, estamos dando ao Romeu a honra de uma companhia agradável e salutar. Será?
É, meu anjo, eu realmente fiquei velha. Mas o ranço que me incomoda não vem de hoje, dessa nova maneira de ver e acima de tudo, de olhar. (Com o tempo, você aprenderá a diferença.) Vem dos cacoetes, dos modelitos fora de moda e de tudo que, sabidamente, vai dar errado.
Vejo sim, que é da natureza feminina esse viés egoísta e egocêntrico, que só tempo ameniza, tornando-os menos incômodos. E a nós, um pouco mais parceiras.
Talvez isso não explique porque homens mais novos estão, cada vez mais, experimentando mulheres mais velhas (Bom, as mais jovens estão penduradas nos melhores coroas da cidade!).Mas me faz entender que muita coisa poderia ter sido diferente...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Meu anjo


Lembro-me tão bem daquele monte de novos sentimentos que me acometeram quando me tornei mãe. Olhava aquela coisinha de bochechas rosadas e cachos castanhos, dormindo placidamente, absolutamente confiante que eu resolveria tudo.Eu, que ainda me sentia filha, mais filha do nunca, tinha ali um planeta inteiro cochilando nos meus braços e que dependia de mim. E eu estava a-pa-vo-ra-da.Agora eu não era mais uma só. Eu era duas. Tinha alguém, pra sempre.Senti-me perdida, incapaz, incompetente, imperfeita e ignorante. Poderosa.E ela dormia. Tranqüilamente. Não tomava conhecimento do meu desespero, dos meus quilos a mais e sono de menos.A Margareth Tatcher aparecia na TV, olhar compenetrado, falando sobre o destino de grande parte do mundo. E eu imaginava que mais difícil era entender o que aquela coisinha queria dizer com seu choro fora de hora. Tentava t-u-d-o.Era uma estranha, um ET que fazia um cocô grudento e que sei lá por que cargas d`água, eu limpava o bumbum rosado com a dedicação de um Michelangelo retocando sua madona. Comecei a achar interessantes, as coisas mais maçantes. Devia estar pirando.A estranha foi se tornando tão íntima que até os cheiros mais diferentes eram tão agradáveis que não me furtava de absorvê-los em quase êxtase. Logo após o banho, era o cheirinho do bebê, algumas horas e duas golfadas depois era um azedinho tão pessoal que eu reconheceria em qualquer lugar. O pezinho tinha outro cheiro... E aquela estranha foi se comunicando comigo. Eu já sabia exatamente o que ela queria, como e quando.A novata ficava ali, deitada, me olhando. Era poderosa, a pequenina. Dependia de mim para tudo e sabia que estaria ali, sempre. E dormia tranqüilamente enquanto eu levantava várias vezes para ter certeza que respirava e que o coração estava batendo certinho.A estranha foi crescendo e ficando a minha cara. E cada vez menos estranha.E em vez de duas, acabamos nos tornando uma só. Esses seres celestes têm muito poder.Vinte e cinco anos depois ainda vou ao quarto, todos os dias, em plena madrugada, só para ver se ela está bem. Acaricio os cabelos e procuro um cachinho que o anjo da guarda deixou de lembrança, da época em que aquele ET veio do céu para me tornar uma pessoa melhor.Todas as noites busco seu cheirinho no pescoço, nas costas. E repito acalentando o sono tranqüilo: “você é o meu bebê e a mamãe a ama muito”. Agradeço a alguém lá de cima que achou que eu devia aprender alguma coisa boa e me mandou uma estranha, cheia de cachinhos, com carinha de boba e um mundo inteiro nas mãos.Não existe um ‘dia mães’, todos os dias esses sentimentos tomam conta de nós, invadem nossas agendas, provando que ser mãe é ter paciência, é aprender a pensar por três e mudar de idéia de vez em quando.É saber que improvisar não é falta de planejamento. É sabedoria.É confiar, ainda que o mundo tente nos fazer incrédulos. É tentar dormir enquanto eles não chegam, e, acima de tudo, sentir o coração transbordando de um amor indescritível quando lembramos daqueles cachinhos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Perdão pelo Palavrão !




Chego à conclusão que somos muito tolos e até um tanto hipócritas. Não?
Já faz um certo tempo que não existe assunto ‘proibido’ na mídia, numa conversa de bar, num papo de sala de espera. A última criança atirada pela janela, o político flagrado com montanhas de dinheiro de propina, soda cáustica no leite, bebês morrendo, a ex BBB porca que posta um vídeo soltando um...(como diria sem ofendê-lo, Senhor?) um... ‘pum’ (perdão!) e tantos outros descalabros; daí tinha certeza que quase nada seria ‘mau gosto’. Engano meu! Continuamos com uma cabecinha bem pequenina e ainda aceitamos que assuntos da maior importância para homens e mulheres continuem no arquivo dos confidenciais; ou seja, a gente finge que não existem e vocês fingem que vai tudo bem, obrigado.
Aposto dois contra um que sua mente perigosa acreditou que falaria de orgasmo, opção sexual, prazer e coisas assim, bem pessoais. Enganou-se, meu caro Degas, é muito mais escancarado do que sua munheca, que aliás não me interessa, mesmo!
Próstata! Útero, ovários, trompas! Shiiiii! Olha o palavrão! Respeito é bom e todos gostam...Ah, isso lá é assunto para conversar à mesa?
Pois bem, hoje acho que é.
Faz um tempinho perguntei ao amado leitor como ia sua próstata. Que? De quem? Hein?
É, aquela coisinha que você insistia em fazer de conta que nem existia, mas sua mulherzinha lembrava, dia sim, outro também, que estava na hora de dar a ela, à coisinha, a atenção merecida. Choveu e-mail de esposas furiosas com essa mania que homem tem de tratar a própria saúde como quem não tem nada a perder, deixando que ela, tadinha, cuide da família inteira!
A Fátima Bernardes teve um problema na mama (não fique ruborizado, querido, ‘mama’ toda mulher, até sua mãe, tem!) achou que era hora de divulgar o tema e muitas brasileiras correram para aquele exame com a coragem tipicamente feminina; pode doer, mas a gente prefere prevenir.
Nunca a informação foi tão fácil para essa camada (cada vez maior) que tem acesso à Internet. Sabe-se a tabela do campeonato espanhol, o vencedor da loteria da Malásia, ou quem caiu na malha fina...Tudo na ponta dos dedos.
Entretanto, continuamos evitando os palavrões, aquelas ‘coisinhas’ que nos incomodam muito, simplesmente porque existem.
Por essas circunstâncias da vida, eis que cheguei ao momento de aliviar minha carga e deixar, no meio do caminho, útero, ovários e trompas. (OK, sua mãe também tem. Ou tinha, tanto faz!) Sexta-feira, sofri a intervenção cirúrgica que me livrou que alguns males e, certamente, evitou outros muito piores.
E apesar de todos os avanços, das ferramentas capazes de nos colocar par e passo com o que acontece no planeta, tem quem insista no que ‘já foi’ e ainda acredite em idéias mofadas. Ouço consternada, um cidadão me falar que infelizmente os médicos deveriam ‘pensar antes de encerrar a vida útil (que horror!) de uma mulher tão jovem...Como a dele.’ Entre a luz da informação e a sombra da ignorância, ele prefere abrigar-se no conforto daquela que talvez o faça ‘entender’ a razão de uma vida conjugal pouco prazerosa. Mais fácil culpar a medicina ou a mulher ‘amputada’. Coitado.
Não se trata de alguém ‘simples’ como você podia supor, mas de uma pessoa que se colocou convenientemente distante da realidade. E muitos repetem esses mitos, dificultando o acesso à saúde; seja do homem que precisa tratar a próstata e vive atormentado por fantasmas que existem graças aos ignorantes, seja de mulheres – inúmeras – que necessitam de uma cirurgia, mas sabem que os tabus sobreviveram aos pixels, ao iPod, ao laser e ao Jornal Nacional.
E por causa desses, shiiii...! Fale baixo, vê lá se isso é coisa para se comentar? Bem, mudando de assunto...Viu que jogaram a quinta criança pela janela, só esse ano?

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Servicinho de quinta



Que Belém hoje é uma cidade grande, com muitas atrações, não resta a menor dúvida.
E que continua sendo a capital onde se presta um dos piores serviços, também é fato; basta ver as impressões que muitos turistas levam daqui, além da nossa própria auto crítica.
E hoje nem vou falar dos sujismundos que emporcalham nossa terra, argh!
A mão de obra local continua sendo a grande culpada por tudo de ruim que acontece, pena que poucos lembrem que poderia ser diferente, se houvesse um pouco mais de atenção de quem pode e deveria ‘mandar’.
Em todo lugar, raros são os funcionários que tratam cliente como se deve, afinal custa muito usar ‘senhor e senhora’? Não sou ‘meu amor’, ‘paixão’, ou ‘amiiiga’. Não joguei peteca com a balconista nem fui à balada com o garçom, para que ele me cutuque quando quer saber se pode retirar meu prato.
Podem me achar esnobe - o que não sou- mas não suporto que me toquem sem necessidade e, apesar de ser extrovertida, não gosto de intimidade com quem não tenho. Isso é simples, cada qual com seu cada qual, ora.
A gente chega num consultório cheio de frescuras, o doutor é uma estrela de primeiríssima grandeza que atende pacientes de convênio (aquele S.U.S que a gente tem opção de pagar ou não) por pura filantropia e encontra uma atendente de tamancão, chiclete, lixando unhas com estampa de oncinha e ainda tem que ser tratada de ‘fôfa’?. Fôfa, eu não admito! Aí já é demais. Na mega loja (que já me irrita por ter pouco espaço e um monte de coisas amontoadas pelo já exíguo corredor) a vendedora, com celular grudado no ouvido, me pede que espere ‘um minutinho, tá lindinha?’. E vira-se, com o cabelão melado por algum produto misterioso, para acomodar algo na prateleira mais baixa, deixando o cofrinho (na verdade um cofrão) de fora. Decididamente estou ficando velha. E minha tolerância diminuí a cada dia, que horror.
Gosto de capricho, de qualidade, e isso meu bem, não tem nada a ver com condição financeira e sim com acesso a informação, orientação e exemplo.
Tenho vergonha desse nosso jeitão ‘bem simpático de ser’ e permitir que façam quase tudo de uma maneira pouco profissional. Já não bastasse a noiva atrasar, o cenário do evento ser montado ‘nos quarenta e quatro do segundo’diante da platéia que tem mais é obrigação de esperar; agora até padre atrasa. Dia desses, uma missa atrasou , pasmem, quarenta e cinco minutos! O coroinha (de uns trinta anos!) convocou-nos ‘a cantar’ enquanto esperávamos, ‘o nosso amigo padre fulano’, que já tinha sido chamado e chegaria, ‘mais tardar em vinte minutos’. Pode? Sei não.Novos tempos, né?
Num restaurante pretensioso, o belo projeto arquitetônico contrasta com o despreparo de quem recebe os clientes com um intimíssimo “Ôooooi? Tudo bem?”, já passando a mão na minha bolsa para acomodá-la numa cadeira.(Te conheço?). Quatro vezes pedi queijo. Na quinta , fui avisada que o cozinheiro ainda iria ralar o parmesão.
Num fast-food venderam-me stogonoff com arroz e batata frita. Quando fui receber, o inocente me perguntou o que preferia para substituir o arroz, que tinha acabado: purê ou salada? Diante da minha negativa, candidamente ele me diz que tenho ‘obrigação’ de aceitar a substituição e se aborrece.
É Belém, isso. Aqui o cliente tem ‘obrigação’ de aturar tudo, até porque sabe que podem cuspir no prato dele, lá na cozinha.
Que tem cliente mal educado, grosso feito papel de embrulhar prego, isso a gente sabe.
Meu foco aqui é outro. É justamente (como diria o Juvenal Antena) o eventual descaso de quem está no setor de serviços, em preparar -bem- quem haverá de representar sua empresa.
Se a palavra motiva, exemplos arrastam. O dia em que capacitação, bons modos e boa apresentação pessoal forem realmente seletivos, as coisas mudarão. E gestores que são grosseiros e não conseguem ser espelho para a equipe, esses também terão os dias contados.
Quem não pode que não se estabeleça.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

História de mulheres: Teté.


Pérolas falsas
Ethel era uma mulher quase fina. Não que fosse rica, mas era sempre lembrada como uma pessoa discretíssima e educada, que cumprimentava todos com aquele ‘bom diiia, como vai? E a irmãzinha?’. Ela ainda acreditava num chanel retão com pontas viradas pra dentro, e a tintura, louro escuro, era a mesma desde 81, quando resolveu disfarçar uma mecha branca.
Para complicar, usava uma volta de pérolas miúdas -falsas, claro- mas achava que era ‘salt-sea’ e pronto. Usava sapatos mocassim de paupérrimos saltos cinco, e sempre escolhia um ‘conjunto’; decididamente Ethel era quase uma chata.
Mas se existia alguém muitíssimo bem intencionada, era ela. Tão cheia de boas intenções que dava ódio. Não havia amiga que gripasse que ela não visitasse, com um chazinho inglês ou um bolo -inglês, claro- que Ethel não era de bombons de cupuaçu e esses regionalismos que jamais combinariam com o chanel retão.
Um dos seus orgulhos era só usar jóias ‘verdadeiras’; um brinquinho solitário, aliás desesperadamente solitário, só uma fagulha, uma lasquinha em cada orelha que nem brilhar brilhavam.
Todos os recém nascidos e os recém defuntos contavam com a solidariedade de Ethel, que era figura conhecida nas maternidades e na igreja onde quase todas as missas de sétimo dia aconteciam.
Até que um dia, a nossa contrita amiga errou o local de um almoço de mulheres e por essas coincidências que só o coisa ruim pode ter armado, acabou no salão onde rolava uma festinha pra lá de animada.
E ela viu, lá no fundo, o Praxedes, o corretíssimo marido que fora seu namorado nove anos antes que noivasse por mais seis; dançando com a gravata de Mickey amarrada na testa, de microfone na mão, declarando-se apaixonado por uma tal de Shirley, loura falsa, de peitões e bunda redondinha, com calça apertada e camiseta de oncinha.
Ethel ficou em estado de choque. Jamais, em toda sua santa existência imaginaria o marido numa cenas daquelas. E como toda santa tem seu dia de mingau, aboletou-se num canto, pediu quatro cubas (ela era do tempo da cuba libre) e entornou todas sem perdão.
Como era de se esperar, Ethel resolveu vingar-se do marido e do mundo e arrebentou o fio de pérolas. Ela cometeria todos os pecados, agora que conhecia a vida como ela é, tudo seria diferente. Comeria um pacote inteirinho de biscoito recheado de chocolate, compraria uma bolsa verdadeira e deixaria o carro sobre a calçada. Saiu zonza e entrou no salão de beleza. Depois de cortar os cabelos naquele modelito da Victoria Beckham, partiu para o cubículo de depilação e pediu uma ‘total’. Total, mesmo?, perguntou a Odacy, incrédula, depois de vinte anos depilando nada mais que a virilha-sobrancelhas-buço da ex comportada cliente. Total, sim! Frente e fundos! Mais explícito, impossível.
Dali pra loja de lingerie da Braz foi um pulo. Fio dental! Ela iria chegar em casa com uma daquelas calcinhas que entram onde quase nada deveria estar. Trocou lá mesmo.
A pele recém depilada lhe oferecia outras sensações. Talvez fosse coisa da sua cabeça, mas quase teve certeza que o barbudo que vinha pela Serzedelo sabia exatamente o que ela tinha feito. Sentiu um rubor nas faces, o resto já estava ruborizado faz tempo. Na esquina, ao atravessar a rua, o motorista do Sienna prata também sabia que ela estava de fio dental por baixo do novo jeans. Não perguntem como, ela tinha certeza!
Caminhou sentido-se um tantinho mais poderosa e lá se foi, meio cansada, as quatro (ou teriam sido sete?) cubas sendo metabolizadas e o restinho de juízo querendo voltar.
Entrou e viu o Praxedes, num cochilo, esparramado no sofá de xadrez. Olhou o terno preto e a gravata cinza sobre a cadeira e farejou o aroma, esperando encontrar uma mistura de whisky, cigarro e perfume. Mas o que sentiu foi a colônia que comprava a anos para o marido. Gravata cinza? Onde ele tinha enfiado o Mickey?
Enquanto pulava para baixar as calças, ele entrou no quarto e ficou boquiaberto...
-Teté...? O traseiro alvo da mulher resplandecia entre a calcinha cavadíssima e o jeans apertado. O cabelo parecia tê-la rejuvenescido dez anos.
-Tetê...? Ela não precisou de muito esforço para perceber que o Praxedes estivera ali a tarde toda e que, sabe-se lá como, ela o tinha confundido com o outro gordinho da gravata de Mickey. -Teté...você está deliciosa...!
Duas horas e muitos amassos depois, Ethel tomava uma ducha tentando entender o que havia acontecido, a cabeça pesada não ajudava. E as pérolas?
Bom, elas não combinavam mesmo com aquele cabelo.
No quarto, Praxedes ainda olhava a calcinha balbuciando ‘Adorei, Teté!...Adorei!’

domingo, 15 de junho de 2008

Decifra-a ou...



Mulheres têm o hábito de se comunicar através de códigos, principalmente com seres amados. Como paciência nunca foi meu forte, imagino o quanto é necessário para conviver com esses seres delicados, incapazes de dizer claramente o que sentem, o que querem.(A verdade é que, as vezes, a gente complica, não é ?)Não? Ah, tá, então você é mulher e sua opinião é suspeita. E como eu sei? Ora, ora...
Quem, da turma masculina, não lembra quando encontrou a patroinha calada, ignorando sua presença, numa eterna conversa telepática com algum ser intergaláctico ? O amado pergunta o que está havendo, se aconteceu alguma coisa ou se ele, tadinho, cometeu uma falta grave. A resposta é sempre “nada...”. E ela cantarola baixinho, entra e sai do banheiro sem contar os detalhes da última confusão entre as amigas, escolhe roupas sem medir sua reação e sai, com um seco ‘tchau’.
Numa viagem que deveria ser o divertimento da temporada, ela entra no carro calada, fixa o olhar lá fora e vai assim, às vezes roendo uma unha hipotética (claro, não vai descascar o esmalte) até o trevo do Atalaia.
Outras conseguem ir a uma festa e permanecer mudinhas da silva, obrigando-o a tomar mais do que o desejável só para manter a boca ocupada.
Grávidas mereciam um capítulo a parte.(Acredite, nessa fase a gente se sente quase horrível, diferente das pouco barrigudas dos comerciais, lindas e amadíssimas.) Lembre das mudanças que ocorreram no corpo dela para que você fosse um pai lindão; banque o solidário, diga que ela está ma-ra-vi-lho-sa, não esqueça dos beijos na boca (mesmo) e não caçoe dos pitis. Se fosse seu o umbigo a pular pra fora, a coluna a ficar feito bambu ou os mamilos que viraram dois cookies; sem falar no parto (áaaaiii)...Você jamais seria ‘mãe’, querido.
Lição número um, meu caro; mulher calada é sinal de mau tempo. Chuvas não são obrigatórias mas prepare-se para trovoadas.
Não fomos treinadas a falar sobre nossos temores, nossas tempestades interiores, apesar de ‘saber tudo’ sobre o que se passa com você. A gente sempre acha que é chatice e acabamos muito mais chatas ao obrigá-los a decifrar esses criptogramas ou a discutir a tal da relação. Se você prestar atenção e puxar pela memória, vai saber direitinho quando é ciúme (sempre negado, claro!), neura com a balança (que você vai jurar que é coisa daquela cabecinha linda!), alguma encrenca com a sua mãe (e você carrega os genes dela!), carência (ser mulher é estar a um passo da carência) ou TPM, mesmo (que passa em cinco dias).
Mulheres costumam dialogar (demais) consigo mesmas e inventam um roteiro para seus parceiros; por isso, não se assuste se ela estiver chateada por coisas que ‘tem certeza’ que você sente, fez ou imagina fazer. Inclusive que acha que o seu amor diminuiu, que você não lhe dá atenção, que teve a indelicadeza de tomar um copo d’água antes de cumprimentá-la e que gasta mais tempo com o poodle. Aconselho-o a nem discutir. Será muito, muito pior, tentar fazê-la pensar como gente grande num desses surtos.
Peça desculpas, reconheça sua parcela na crise de combustíveis e no aquecimento global, beije-a ternamente (se ela não estiver rosnando), chame-a de ‘menina dengosa’, ofereça colo, carinho, aconchego e tudo mais que seu preparo físico permitir; no fundo, é isso que ela quer: sua atenção. Caso ela tenha razões para desconfiar da sua fidelidade; negue até a morte. Mulheres preferem conviver com uma leve desconfiança a uma sufocante certeza, mesmo que digam o contrário ou jurem que a sinceridade é o início do perdão. Mulheres mentem, lembre-se disso.
Caso não funcione, melhor colocar as barbas (ou os neurônios) de molho. Ela pode estar de saco cheio de você. Coloque os pingos nos ‘is’ que sobraram e mostre que o terreiro ainda tem galo. Às vezes (nem sempre) funciona.
Boa sorte! De qualquer forma, você vai precisar.