quarta-feira, 21 de maio de 2008

P da vida!


Carta de (más) intenções:
Todo mundo já se perguntou, em algum momento, o que está fazendo ‘aqui’.
Eu também. Todo domingo, ao pensar nessas linhas, me interrogo até quando e me convenço que não passa dessa terça...
É um acesso recorrente, que me faz delirar sobre o presente, o tal do futuro e aquela janela eternamente acesa, lá pras bandas da Lomas, me espiando como se acompanhasse meus dilemas, essa intrusa...
Já escrevi sobre essa luz que desafia a escuridão, um clarão perdido mesmo quando o luar se deita sobre as duas insones, a janela e eu.
Quem habita aquele retângulo iluminado? O que faz que não se recolhe durante a noite, como as aves aqui do quintal vizinho, sem paz para dormir sob a lâmpada que entorta o ciclo biológico, fazendo esse galo enlouquecido se colocar a cantar sem nenhum nexo? Ele no galho de uma goiabeira torta, eu nesse teclado, quase morto.
Rui Veloso, meu adorado cantor de além mar, já disse que todo mundo tem um lado lunar, uma face obscura que nem sempre se quer mostrar.Hummm, como a humanidade se torna mais interessante quando penso que todos temos esse viés de mistério!
Na madrugada, descubro que meu lado negro tem brilho e que talvez, esse sim, possa me guiar nesse questionamento que está mais freqüente e incômodo que a TPM, que dá sinal de vida entre um surto e outro.Acho que minha menopausa foi abduzida por algum ET de maus hábitos, que sacana. Eu já deveria ser uma pré-avó e não estar feito lagartixa, credo!
È, eu devo ser exótica, no mínimo.
Sem saber o caminho, decido o que ‘não mais fazer’, pelo menos não de bom grado.
Selo uma carta de más intenções com a mesma determinação dos que disseram que jamais se apaixonariam novamente. Sei que não levarei nada a sério.
- Não mais sentirei falta do convite que não veio, o do grupo do qual jamais fiz parte, realmente. Me bastarei como se bastam os loucos caminhantes da Almirante; nus, descalços, sobre o asfalto escaldante, marchando, balançando sus intimidades murchas e debochadas. Onde já se viu um insano sucumbir diante da dor ou da saudade?
-Não, não mais tentarei me convencer que posso alcançar o sorriso, quando minha verve estiver assim, meio palhaça, meio cheio de graça. Não pode ser meu carma, o meu destino obrigatório, esse brincar com tudo e quase todos. Haverei de rir, quando me apetecer. Ou me for impossível resistir, principalmente de quem se pensa muito sério para o papel. Mas nem pensem que tenho como ofício o vosso riso, poupem-me dessa cobrança descabida.
-E falando em ofício, não mais trabalharei de graça, nessa cortesia sem fim que muito me custa e não o enriquece. Não essa migalha, que me daria alforria das colaborações em nada espontâneas, que servem apenas como dreno desse mar que palavras, torrente de idéias que me sufoca ou vasa, devassa.
-E não mais me quedarei a esse choro que agora me faz pensar: mas eu preciso tanto!...

segunda-feira, 12 de maio de 2008

É REFRESCO!


O brasileiro é muito hipócrita. Muito mesmo.
Estão fazendo o maior estardalhaço com ‘o que aconteceu’ com o Ronaldo, aproveitando a maré de azar do ex-orgulho nacional para tascar lições de moralismo tacanho e maldade mal dissimulada.
Afinal, o que ‘aconteceu’ de tão grave com o Ronaldo, além do mico fenomenal?
Nada que não aconteça com muita 'gente boa' que nós conhecemos, só que sem alarde e sem propaganda na mídia.
Primeiro, noivo ou não, Ronaldo é solteiro e sobre sua vida sexual só deve satisfações a quem de direito, nenhum de nós incluídos, claro.
A noiva ficou ‘p da vida’, qualquer noiva ficaria, enfim.
Muita gente, e bota muita nisso, procura garotas de programa, principalmente quando são turistas, numa terra como o Rio de Janeiro. Outro tanto se já não experimentou um programa com um belo travesti, bem que gostaria; casais incluídos.
Não vale aqui avaliar o que eu ou você não fazemos. Não estou usando o caso para classificar o seu grau de perversão, nada disso. Mas a verdade é que o fato não é raro e está sendo tratado como uma aberração, exatamente como o casal que jogou a Isabela pela janela- e não é bem assim.
Se ele perdeu dinheiro com NIKE ou com a TIM, bobagem, ele já tem demais. E essas mega empresas poderiam aproveitar o limão e fazer uma caipiróska: “Quando você tiver que correr...prefira um NIKE”. Ou “Quando precisar dar explicações rapidinho...Tenta um TIM, ele não te deixa na mão!”.
Taí, de graça, mas com meus direitos autorais preservados, claro.
Que ele deveria ter mais cuidado com a própria imagem, também concordo. Mas e daí? Opinião e sovaco todo mundo tem, a imagem é problema dele.
No mais, o incidente serviu para dar um pouco de paz a Isabella, que Deus a tenha. A mídia, sedenta de sangue, já estava sem um pescocinho para sugar e o do Ronaldo está bem cevado. Fico me perguntando se fosse uma Roberta Close, tão festejada, se alguém se incomodaria...
Pessoalmente, achei o motel de quinta e as três travecas de última: feias e com aspecto sujo, ainda que fossem mulheres. Mau gosto não se justifica, lamenta-se.
Talvez Ronaldo estive de saco cheio de mulheres lindas e casadoiras, dessas que jamais iriam para um motel sem propalar aos quatro cantos e faturar algum, com a chapinha impecável. O problema é que celebridades só encontram isso com uma boneca inflável, fica mais essa sugestão.
Fica a sensação que o bom do sexo, também é poder contar pra todo mundo, que sina!
Mas que o brasileiro é hipócrita, ah, isso é. E muito! veracascaes.@gmail.com)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Ritual de espuma


Houve um tempo em que eu tinha apenas um shampoo, um “creme rinse” e um tal de óleo Cap, na prateleira do chuveiro.
(OK. Isso faz muito tempo. Mesmo.)
Eu podia passar por um trote de vestibulanda, com farinha de trigo e ovos na cabeça que, sem muito esforço, meu cabelão estaria limpo, lindo e solto, pronto para ‘outra’. Secador, só no salão em dia de festa. E das grandes!
Quando via algumas colegas com uma coleção de shampoos (anti-queda, anti-quebra, hidratante, com vitaminas e sais minerais, sem sal, com Ph neutro, com pérolas de brilho e até tutano, argh!) chegava a me sentir assim um pouco desfavorecida, afinal, nada mais humilde do que meu estoque, de marca popular e sem nenhuma promessa além de limpar minhas madeixas.
Que tempo bom!
A tecnologia nos trouxe ceramidas, choque de queratina, escova de chocolate, japonesa, francesa, de açúcar, chocolate branco, de morango e quem sabe, um dia teremos a escova de pizza ou alho e óleo, enfim.
Só hoje percebo que o que estava bem mesmo não era só o cabelo (saudaaade!), mas a cabeça!
Se a sua mulher tem meia dúzia de frascos enfileirados no basculante do banheiro, sossegue, podia ser muito pior. Os meus são treze shampoos diferentes, acompanhados do condicionador (que substituiu o velho e bom creme rinse) e do pote da máscara, que nada mais é que o condicionador mais encorpado, que coisa.
Sou avessa a misturas e quando tento aplicar diferentes, as cores da embalagem tem que combinar, tipo shampoo do frasco rosa e creme do frasco lilás. Porque? Também não faço a menor idéia!
A verdade é que comprar shampoo é uma terapia barata, está ali, bem ao alcance das mãos, com uma promessa perfumada de que, depois do banho, estaremos bem na foto e no álbum.
Não ache que quem tem cabelo sedoso, com pouco volume e brilho intenso não precisa de todo essa arsenal. Essas, depois das luzes, reflexos, tinturas e chapinhas, são raras, mas não esqueça que não estamos falando só de cabelo..
Quem está acima do peso, estressada com o trabalho ou com a vidinha amorosa não resiste ao lançamento de um desses vidros de felicidade instantânea. Experimentar um novo shampoo é dar a si mesma mais uma chance. Mesmo que a cabeleira não mude, é quase uma catarse, deixar aquele monte de espuma perfumada, caindo com um ruído peculiar – poloc, poloc – no chão do box, deixando a água lavar e levar todos os nossos temores, além de um certa oleosidade nas raízes.
Alguns homens também apelam para esse ritual. Mesmo aqueles que tem fios de dois centímetros passam as mãos na nuca achando que ‘melhorou muito’.
E não é que melhora?
Flertar com aquele corredor inteiro no supermercado, ler as mentiras que cada um trás feito promessa descarada de político- e ainda acreditar, é assim que tudo começa, apesar do maridão achar uma loucura o tempo que você gasta com essas coisas...Que pena.
Por isso, meu caro, em vez de reclamar da profusão de produtos no banheiro, trate de elogiar sua mulherzinha principalmente depois desses banhos em que ela procura mais que um cabelo limpo e perfumado.
Nenhuma é tola de achar que vai aprender andar em câmara lenta, com um ventilador sempre a favor, ou jantar com o Richard Gere.( Aliás, agora é que eu odeio a Carolina Ferraz, não bastava ser seca daquele jeito?)
Sentir-se confiante e feliz, essa mensagem subliminar que nos atrai a todas, nos tornando capazes de usar algo chamado ‘barro mineral’ ou ‘tutano de boi’, merece alguma coisa mais que “hum, tá cheiroso!”, não é mesmo?
Então, meu caro, capriche e faça valer a pena cada gota de shampoo e sonho!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

FAXINAS


Certa vez comentei com uma terapeuta que, ao contrário da maioria das pessoas, aceitava as mudanças que a vida nos impunha e até gostava da oportunidade de tirar tudo dos armários, separar as inutilidades e guardar com mais cuidado o que realmente me era caro.
Ela me disse que um dia eu entenderia melhor certos códigos.
Bom, mais de vinte anos depois, continuo gostando de mudanças; na realidade, elas me fascinam. E já decifrei claramente o meu código pessoal no que diz respeito à reparos e ajustes, de rota inclusive.
A oportunidade de experimentar novos lugares, de rearranjar móveis antigos e novas aquisições, de dispensar o excesso de bagagem é uma experiência recompensadora.
Minha mãe sempre faz observações sobre minhas manias, em especial a de levar meus sapatos para ‘manutenção’, de revisar roupas a procura do que precisa de um ponto ou um ajuste. Como já me conheço um pouco, nem tento explicar nada.
Quando quebrei uma peça de cristal de grande valor sentimental, embrulhei os cacos, e, contrariando o feng-chui e as crenças de outros, deixei o pacote numa gaveta, uma espécie de ritual de passagem, sem velório. Um dia peguei o embrulho e coloquei no lixo. Simples assim, exatamente como tudo o mais na minha vida. Se não é o momento, eu espero.
Essa semana resolvi arrumar, pela centésima vez, armários e closet.
De óculos e sob a claridade de um dos poucos dias de sol, me surpreendi com o amarelado de algumas peças que certamente, só estavam ocupando espaço ou aguardando que estivesse pronta para dispensá-las. Sou maníaca por ‘dar’ coisas que não estejam em uso e acredito que essa prática abre uma possibilidade cósmica para que novas cheguem aos meus domínios. Algo como ‘quem partilha, tem’, enfim.
Dessa vez meus descartes foram um tanto dolorosos. Uma calça jeans, tamanho 42 (uau!), linda-linda-linda, cheirosa, dobrada num canto, esperava por mim, pela aceitação de que isso não me pertence mais e que é hora de aceitar as coisas como são, inclusive um manequim menos enxuto. Uma bolsa juvenil demais para meus cinqüenta, uma saia de lã e um casaquinho de cashmeare, quentes demais para o nosso eterno verão e pequenos demais para esperar pela minha próxima viagem para algum inverno qualquer.
Fiquei imaginando para quê tantas bolsas, tantos bordados e adereços que jamais usarei. Eu agora queria espaço livre, gavetas quase vazias e isso sim me parecia urgente.
De repente, grande parte das minhas coisas parecia não ter nenhuma importância, eu estava pronta para andar por aí com uma bagagem mais leve, sem ligar a mínima se entendem ou não. Quem sabe fosse a tal da maturidade ?
Enfim. A verdade é que na ‘vida real’ as coisas são mais ou menos assim. A gente pensa que não sobreviveria sem isso, aquilo ou aqueles. Aos poucos, descobre que nada nem ninguém é insubstituível, que uma amizade ou um amor que nos façam sofrer talvez fiquem bem melhor numa foto de um álbum qualquer. Que um emprego ruim pode ser tão nefasto quanto emprego nenhum e gente chata é sim, bem pior que estar só e m paz. Aprende-se até que lamentar o tempo perdido é bobagem, geralmente se trata de investimentos, alguns com mais retorno que outros mas nenhum que não tenha lá seu valor.
Depois de toda a arrumação lembro do meu livro, adormecido no décimo segundo capítulo, aguardando que decida o destino da minha heroína escrachada e nada convencional.
Fiquei pensando se estou realmente mudada, ou se, qualquer hora dessas não vou chegar em casa com dois jeans super apertados, para usar ‘depois da dieta’ ou decidir que é hora de arrumar tudo de novo.
Não sei. E de que adiantaria saber?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Papo de Mulher: m o d e r n i c e s


Maria é bonita, jovem, tem um monte de amigos e claro, alguns ‘ex’s. E é muito, muito ciumenta. Poderia ser Déborah, Natasha ou Raimunda, o importante é que ela é...Mulher.
Descolada, brada aos oito cantos do mundo - quatro, pra ela, é pouco!- que preza, acima de tudo, a preciosa liberdade.
Maria se inspira na Nova e outras revistas dirigidas às mulheres modernas e sexualmente ativas, na eterna busca pelo príncipe encantado; essa figura cada vez mais difícil, cuja responsabilidade maior é levar a modernete ao altar e tornar-se assim, culpado pelo avental sujo de ovo que elas estão doidinhas para usar, tsc.tsc.
É o alarme do relógio biológico que pode até andar meio atrasado, mas nem tanto.
Maria se diz antenada, sai uma vez por semana só com amigas, vai ao barzinho mais badalado, toma algumas e diz que tomou ‘to-das’, acorda mal-humorada e garante que é ressaca.Todos os garçons sabem seu nome na ponta da língua e ela é simpática até com o flanelinha. Arrojadíssima, essa Maria.
Ela é do tipo que chega para o Romeu (Toda Maria tem o seu Romeu, que está sempre menos interessado do que ela gostaria. Mas isso é um detalhe. Ele NUNCA dará toda a atenção que Maria requer..., enfim.) assim, meio como quem fala ‘que calor fez hoje, né?’ e solta a isca.Enrolando um cacho que sobreviveu à chapinha, olhos na TV, chiclete imaginário atrapalhando a língua: ‘Adivinha quem encontrei no shopping?’
Muita calma nessa hora, Romeu. Ela pode estar querendo briga falando de uma ex sua, que, na cabeça dela, ‘vive’ dando em cima de você. Pode ter encontrado o Zé da Feira cantando ‘Piolho’ ou...
‘Marcelo...!’ Você levou uma fração de segundos para lembrar que o dito é um ex que, segundo ela (de novo) ainda é ‘a fim’ paca e Maria, metralhadora passional, segue feito um rambo de mega-hair e gloss: ‘Tá tão bem...(Pausa.) Legal ter encontrado o ‘Lelo’...(Pausa maior.)... ‘A gente bateu o maior papo...’ (Pausa longa demais.)
Vamos por partes. Antes de tudo: provavelmente Maria não encontrou ninguém, nem deve ter ido ao shopping. Aprenda uma coisa: se ela tivesse algum rolo com o tal, nun-ca diria nada sobre o encontro. Isso é pura cascata. Mais do que briga, Maria quer um clima, uma pegada mais forte, que você se rasgue de ciúme, nem que seja da boca pra fora.
Reaja a altura, as compensações podem ser ótimas, nada como o amor depois de uma ceninha de ciúme, não é?
Hummm...Mas você anda meio de saco cheio dos beijos que ela distribui quando encontra aquele monte de marmanjos, e ainda diz que ‘ficamos sim, mas faz tanto tempo...’
Sei.
Anda louco para dizer o que pensa, não é? Que gostaria muitíssimo de saber o que ela acharia se você saísse com amigos e encontrasse, sem querer - claro!- sua ex (que essa é ex, mesmo, e durou mais de ano!), que não ia ser mal educado... Acabou convidando a moça pra sentar...Que o papo foi ótimo – só como amigos (“Claro, Maria, pensa que sou facinho?) – não rolou nada de mais, apenas vocês vão se encontrar quinta no happy-hour daquela loja de informática, e daí?
Olha, se fizer isso,ela entra na linha ou acaba no divã da Angélica Nancy, o que , pra inicio de conversa, é uma excelente idéia.
Não esqueça de contar a aventura assim como quem não fez nada, mas pode , até, fazer.
Essas Marias modernas, que arrotam uma liberdazinha chinfrim não têm tutano para suportar que seus homens tenham a mesma autonomia de vôo, nã-na-ni-na-não. E dizem, no meio do chororô que ‘comigo é MUITO diferente, ora!, chuif, chuif...’

Mentiras que os homens contam...


Um amigo me disse que homens não mentem, apenas dizem o que as mulheres querem ouvir.Faz sentido.
Se ele chega em casa às duas da madrugada e a esposa se conforma com a desculpa de uma comprinha no supermercado 24 horas...Ela quer ser enganada, sim. Então, por que não?
Resolvemos eleger as mentirinhas masculinas mais comuns, eis as campeãs:
“Nunca me senti assim”. Não querida, ele não está comparando nada. O Romeu sabe que você vai se sentir mais segura e ajudar a manter seu ciúme sob controle, pelo menos por um tempo. Essa cascata pode vir acompanhada de outras ‘bem intencionadas’, como “Você é a mulher da minha vida”, e “Nunca amei ninguém tanto assim”. Finja que acredita, faz parte do jogo. Pior seria se ele não dissesse nada, concorda?
“Te ligo amanhã”. Essa é a forma que ele encontrou para dizer que você não deve ligar, mas isso não novidade. Tente controlar-se, não adianta ficar pensando bobagens do tipo “Se um carro buzinar agora, é porque ele vai ligar” ou “Se eu acertar essa bola de papel no cesto...”. Ele só vai ligar se estiver a fim de compromisso e isso não quer dizer que você é uma droga, então larga esse pote de sorvete, por favor!
“Não é isso que você está pensando”. É sim, mas o que ele quer dizer é que não teve importância, foi só uma transa e que, se você perdoar não deve ficar falando mais nisso. Acredite que é sincero, apesar de ser um canalha, cachorro, sem vergonha. Mas se jurar que jamais sentiria atração por sua irmã ou sua melhor amiga, parta para ignorância pois esse verme pensa que você tem cérebro de ostra. Isso inclui outras lorotas do tipo “Ela é só uma amiga!”, “Eu não estava olhando mulher nenhuma” e “Nunca vi essa gata antes”.
“Eu e minha mulher não dormimos juntos há séculos!”. Antes de tudo devo perguntar quais suas intenções com esse tipo mentiroso que afirma que “só não se separou antes por causa das crianças”. Se você não o quer para marido é bom que ele tenha quem o queira. Pelo bem de sua auto-estima , melhor deixar claro que é você quem não quer nada sério, que é ótimo que tenha uma esposa ma-ra-vi-lho-sa para cuidar dele, das roupas dele e dos filhos deles, ou quando a saúde ou as finanças ficarem ruins. Como homem gosta é de pouco caso, é provável que se apaixone e queira você para sempre, mesmo que esse sempre dure até a próxima, mas é isso que você merece. Parece uma cretinice?E é! Pior: uma grande roubada!
“Só aconteceu uma vez”. Então tá. Aproveite que ele está cheio de remorsos, louco para agradá-la e passe numa joalheria ou agência de turismo. Vingançazinha: vá sozinha e volte com uma medalha com a inscrição “Verão de 2008- Inesquecível”. E jamais, ouviu bem?, ja-mais admita que você não aprontou nada.
“Não quero terminar, só dar um tempo”. Válido para “O problema não é você, sou eu!”.Ele quer terminar, sim, mas tem medo de se arrepender. Deve ter um caso engatado mas quer sua autorização para tentar e, se não der certo, voltar.(Mas isso não vale pra você viu?) Segure a emoção, reaja com muita tranqüilidade e diga que achava que as coisas estavam mal mesmo, que já não se sentia satisfeita quando ficavam juntos e que deve ser honestíssima com ele, mas andava querendo ficar só. Ato contínuo, corte o cabelão, faça luzes (ele tem que notar uma mudança drástica!) e vá com amigos para o barzinho que certamente ele estará, a bordo de um decote sensual. Cumprimente-o com alegria e dois beijinhos, sente-se onde a veja, fale no celular com carinha de quem está armando e não se emburre se ele estiver com outra. Só não vá ‘ficar’ na frente dele né, meu anjo? Saia com o grupo, com ares de quem vai dar uma bela ‘esticada’, e daí que é puro kaô?
Ah, caso alguém se interesse, a gente trata das mentiras que elas contam na próxima crônica. Não?

domingo, 27 de janeiro de 2008

Como Florbela


De amores, mentiras e outras tragédias.
Senta-se sobre as pernas cruzadas, como se buda fosse e olha a janela escancarada. A folha permanece em branco, avisa o monitor igualmente sem cor.
Desatina-se.Queria que lhe baixasse um espírito desesperado, inquieto e apaixonado.
Que Florbela Espanca lhe soprasse nos ouvidos versos enlouquecidos, que contasse a sua versão daquela morte, comprimidos não têm graça; um mergulho suicida no mar revolto teria um pouco mais de glamour , se é que na morte se pode pensar nisso.
Florbela. Sua inspiração recorrente, a mais notável das bipolares, aquela que vivia afirmando-se e negando-se a cada linha. Um Dom Juan de saias, um narciso inveterado que nunca encontrou assunto que não nascesse no próprio umbigo e não fosse embriagante.
Ela jamais seria a sombra de Florbela. No máximo, um plágio num blog qualquer, que essas
coisas de Internet tiram o charme de qualquer poeta, não importa quanto fosse impactante fundo musical e ilustração. Espanca nunca precisou de efeitos especiais.Era carne e sangue, moderna, lírica e sensual.
Quem sabe sentisse melhor as palavras num caderno, escritas a pena, borradas pelas lágrimas paridas a fórceps, às custas da mais triste das músicas atormentando-lhe os neurônios.Isso não é inspiração, mulher!, recriminava-se, piorando as coisas.
Não se faz boa poesia na alegria, repetia, da mesma forma que paixão acaba em solidão e amor, em dor. Não existe romance sem sofrimento e pronto!
Um longo texto alinhavando as torturas do casamento...Logo ela, que se casara quatro vezes, que ironia. Onde estavam as pílulas? O anti-depressivo que a tornaria um pouco menos absurda, mais próxima da normalidade e que a deixaria sem cor e sem graça, menos diferente, o tanto quanto fosse suportável.O sucesso pertence aos iguais.
Precisava dormir ou enlouqueceria mais ainda com aquela tela vazia e minutos passando, ditando a sentença que a faria pular do trampolim: não há mais tempo!
Prazos, quem inventou os prazos, a física quântica e outras ficções a respeito do tempo? Alguém que não amava, que nunca vivera essa paixão de dar nó nas tripas, essa vontade de gritar me bate, mas me ama, me ama. Me deixa, mas antes, me arrasta e me mostra como vou morrer de saudade, como vou esquecer de mim sem jamais esquecer da tua pele, das tuas mãos me apertando, do vazio que sinto onde deverias morar, nesse amor que é lago, lagoa onde nadas e mergulhas feito Posseidon.
Decididamente, ela não conseguiria escrever mais nada, perderia o emprego e o vício!
Os prazos. O que faço com eles se não consigo pensar em mais nada e tua ausência me sufoca?
Bem feito! Foram tantos conselhos, vai para a editoria de moda é muito mais fácil, ninguém entende nada mesmo e as especialistas, ah, algumas andam com aquele negócio mofado que ainda chamam de tailleur, com florzinha na lapela e modernidade regada a naftalina. Mas não, tinha que escolher o caderno literário com uma página in-tei-ra só para ela. Dez mil toques. Onde está o trampolim?
“Eu quero amar, amar perdidamente !Amar só por amar: Aqui ... além...Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente ...Amar ! Amar! E não amar ninguém !(...)
Quem disser que se pode amar alguémDurante a vida inteira é porque mente!”*
Quase sente o clima de Matosinhos, por onde andou a poeta, até aquele aniversário- o derradeiro- em 1930. Quantas vezes já havia programado essa viagem além mar, onde haveria de ver as terras e coisas de Pessoa, de Florbela - sempre ela- do Alentejo de outros amores, da Caparica cada vez mais distante...
Era hora de sair do computador buscar um pouco de ar, de verdade.De nem lembrar quantas vezes se indignou com quem pensa que “navegar é preciso” como se necessário o fosse...
Precisão. Ah, a matéria que não sai, a redação está quase vazia!
Quem sabe pudesse esquecer tudo e beijar a terrinha como um João Paulo nada santo, um afago, um sorriso e... cheguei!, Se navegar é cartesiano, viver...ah viver é comigo!
Sem pílulas nem mar para mergulhar, só resta a vida real. Agora só resta Portugal.

* Soneto de Florbela Espanca (Texto : Vera Cascaes)